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Ascensão chinesa é resultado de adaptação pragmática, afirma professor

Em "China: Tradição e Modernidade", Evandro Menezes de Carvalho analisa os fatores que impulsionam o crescimento chinês

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Agência

Publicado em 26 de março de 2025 às 15h15.

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A ascensão da China como potência global desperta interesse e questionamentos sobre os fundamentos que sustentam seu modelo de governança. Em China: Tradição e Modernidade na Governança do País, Evandro Menezes de Carvalho, professor de Direito Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), examina as bases históricas, culturais e políticas que moldaram o desenvolvimento chinês e sua influência no cenário internacional.

"A China foi forçada a se reinventar em meio às crises, combinando pragmatismo econômico e centralização política para garantir seu crescimento," explica Carvalho.

O panorama histórico e a adaptação pragmática

O livro parte de um panorama histórico que remonta ao período em que a China era um dos principais centros econômicos do mundo, com 34,6% do PIB global até o século XIX. No entanto, as Guerras do Ópio e os tratados desiguais impostos pelas potências ocidentais comprometeram a soberania do país, enfraquecendo sua economia e estrutura política. A dinastia Qing, fragilizada, não conseguiu acompanhar o avanço das potências industriais, e, em 1912, o império chegou ao fim. O século seguinte foi marcado por conflitos internos, invasões estrangeiras e crises políticas que retardaram o desenvolvimento da China. Em 1978, o país representava apenas 4,9% do PIB mundial.

A ascensão chinesa no século XXI

Segundo Carvalho, a ascensão chinesa nas últimas décadas é resultado de uma adaptação pragmática, que combinou a reinterpretação do passado com as exigências da modernização. O conceito de “socialismo com características chinesas” é um dos eixos centrais do livro. Carvalho explica que a China passou de um sistema socialista influenciado pela União Soviética para um modelo de governança próprio, no qual o socialismo se adapta às particularidades chinesas.
"O Partido busca manter a comunicação com a sociedade, pois isso é essencial a longo prazo. A cada sessão da Assembleia Popular Nacional, são definidas metas que depois são divulgadas. O sistema não é fechado, as decisões são publicadas nos jornais chineses, permitindo que a população cobre sua implementação."

Tradição e inovação na governança

O Partido Comunista Chinês (PCCh) manteve o controle do Estado, mas incorporou elementos de mercado, abrindo a economia e promovendo reformas que geraram crescimento. Carvalho destaca que essa mudança não foi abrupta, mas construída gradualmente, respeitando a realidade do país.
"A China não melhorou um modelo externo, mas construiu seu próprio caminho, equilibrando tradição e inovação," observa o professor.

Valores históricos e o desenvolvimento chinês

Outro ponto abordado no livro é a relação entre valores históricos e desenvolvimento econômico. Carvalho analisa como os princípios confucionistas, a hierarquia e a moralidade estatal ainda influenciam a governança chinesa. Ele explica que a sociedade chinesa é estruturada em uma rede de relações, onde o indivíduo ocupa o centro, mas dentro de um conjunto de conexões, com a família e os círculos próximos desempenhando um papel fundamental.
"Compreender a dinâmica social é essencial para entender a sociedade chinesa. O conceito de guanxi, que descreve essas conexões, é central para a modernidade chinesa."

A visão simplificada da China e sua complexidade

Carvalho também discute como a Guerra Fria e a construção de estereótipos influenciaram a percepção ocidental sobre a China, muitas vezes oscilando entre a ideia de um país exótico e a de uma ameaça ideológica. Para o professor, essa visão simplificada desconsidera as múltiplas “Chinas” que coexistem dentro do território e a complexidade de sua trajetória histórica.
"O socialismo na China passou por um processo de sinicização. A governança chinesa não é apenas institucional, mas reflete a sabedoria de um povo que historicamente se adapta a novos desafios,” conclui Carvalho.

O papel da China no cenário global

No contexto atual, a ascensão chinesa como potência global reacende debates sobre sua trajetória e influência. Em entrevista ao China2Brazil, Carvalho ressalta que o avanço da China não foi um aspecto espontâneo, mas uma resposta estratégica aos desafios históricos e às pressões externas. Essa capacidade de adaptação permitiu ao país superar um período em que precisou importar até os mesmos pregos, em 1947, para se tornar a segunda maior economia do mundo.

Crédito: Daiane Mendes

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