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Após o Irã, os EUA poderão atacar Cuba?

País já enfrenta bloqueios americanos de petróleo, recurso essencial, há meses – em meio a crises e protestos, administração de Cuba confirmou conversas com Donald Trump

Turistas passeiam em carro antigo em Havana, em 2 de fevereiro
 (Yamil Lage/AFP)

Turistas passeiam em carro antigo em Havana, em 2 de fevereiro (Yamil Lage/AFP)

Publicado em 16 de março de 2026 às 12h22.

Embora os EUA estejam envolvidos em uma guerra com o Irã há três semanas, segue no ar a ameaça de uma possível ação americana em Cuba, para derrubar o regime socialista que comanda a ilha desde 1959.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou neste domingo, 15, que Cuba quer chegar a um acordo com os Estados Unidos, que, segundo o republicano, será alcançado "muito em breve".

"Cuba também quer fechar um acordo, e acho que muito em breve chegaremos a um acordo ou faremos o que for necessário", disse o presidente americano a repórteres a bordo do Air Force One, o avião presidencial dos Estados Unidos.

"Estamos em negociações com Cuba", acrescentou, enfatizando que "lidaremos com o Irã antes de lidarmos com Cuba". A administração de Trump julga que o conflito no Irã durará apenas algumas semanas, mas escaladas contínuas por todo o Oriente Médio parecem contestar essa previsão.

"Acho que algo vai acontecer em Cuba muito em breve", afirmou o republicano de qualquer maneira.

“Ameaça excepcional”

Uma mulher passa por um cartaz do falecido líder cubano Fidel Castro com os dizeres "Morte ao invasor" em Havana, em 13 de março de 2026. (Yamil Lage/AFP)

Trump, que tem feito declarações cada vez mais ofensivas contra Cuba, afirmava desde meados de janeiro que negociações estavam em andamento com altos funcionários da ilha, mas Havana havia negado esses contatos até então.

O republicano não esconde seu desejo de uma mudança de regime em Cuba, localizada a apenas 150 km ao sudeste da Flórida, nos Estados Unidos. No começo desse ano, Washington impôs um embargo energético à nação insular, argumentando que Cuba representa uma “ameaça excepcional” para a segurança nacional dos EUA.

Trump pressionou o país a "chegar a um acordo" ou enfrentar as consequências. Devido ao embargo, a ilha enfrenta uma crise energética que paralisou quase completamente sua economia.

A queda do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, também em janeiro, resultou na perda de um dos principais parceiros energéticos de Cuba. Ainda por cima, Trump ameaçou duras sanções econômicas para qualquer outro país que exportasse petróleo para a nação insular.

No final de fevereiro, Trump disse que considerava uma "tomada amistosa" de Cuba. "Eles não têm dinheiro, não têm nada agora, mas estão conversando conosco e talvez vejamos uma tomada amistosa de Cuba", declarou.

Todavia, apesar do tom ameaçador, segundo Havana, houve aproximações entre os dois governos.

Cuba confirmou na sexta-feira, 13, que está em negociações com os Estados Unidos e chegou a soltar presos políticos como parte de um acordo com o Vaticano, mediador de longa data entre os dois inimigos ideológicos

"Funcionários cubanos mantiveram recentemente conversas com representantes do governo dos Estados Unidos", afirmou o presidente Miguel Díaz-Canel em uma reunião com as mais altas autoridades do governante Partido Comunista de Cuba e do governo, segundo divulgações feitas pela televisão cubana.

Essas conversas buscam "soluções por meio do diálogo para as diferenças bilaterais que temos entre as duas nações", especificou Díaz-Canel.

Entre os dirigentes estava Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do ex-presidente Raúl Castro (2006–2018) que, apesar de não ocupar nenhum cargo oficial, foi apontado por meios de comunicação dos Estados Unidos como interlocutor do chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, no âmbito de conversas diplomáticas secretas com Cuba.

O México, que durante o último mês enviou à ilha mais de 3.000 toneladas de ajuda humanitária, principalmente por navio, saudou as conversas. A entrada de petróleo na ilha para fins humanitários ainda é permitida, desde que a commodity não seja destinada ao governo.

"Sempre o México vai promover a paz e o diálogo diplomático e, em particular, diante desta injustiça que há muitos anos se comete contra o povo de Cuba com o bloqueio", disse a presidente Claudia Sheinbaum.

Liberdade para prisioneiros políticos

O prisioneiro cubano Adael Leyva Diaz (C) abraça sua mãe, Ivon Diaz (E), após ser libertado no bairro de Santa Amalia, em Havana, em 13 de março de 2026. (Yamil Lage)

Díaz-Canel disse que os intercâmbios com os Estados Unidos foram facilitados por "fatores internacionais", que não especificou.

Na quinta-feira, seu governo anunciou a libertação antecipada de 51 prisioneiros políticos, entre eles simples manifestantes, como demonstração de "boa vontade" em relação ao Vaticano. As primeiras libertações ocorreram nesta sexta-feira. A agência de notícias AFP acompanhou a chegada à sua casa de Adael Leyva Díaz, de 29 anos, que cumpria uma condenação de 13 anos. A agência também acompanhou o retorno de Ronald García Sánchez, de 33 anos, condenado a 14 anos, e vizinho de Díaz, no município de Arroyo Naranjo, ao sul da capital.

Ambos participaram dos históricos protestos antigovernamentais que sacudiram a ilha em 11 de julho de 2021, quando milhares de cubanos saíram às ruas gritando "abaixo a ditadura" e "liberdade".

Leyva Díaz, que chegou em um triciclo elétrico, foi recebido no meio da rua por seus familiares. Assim que desceu do veículo, abraçou e pegou seu filho no colo. "Agora você está aqui comigo, acabou o sofrimento", disse sua mãe, Ivón Díaz.

Segundo a ONG Justicia 11J, que registra as detenções em Cuba desde as manifestações, havia no país até esta sexta-feira pelo menos 760 presos por razões políticas, incluindo 358 que participaram das mobilizações.

A Igreja Católica atua há décadas como mediadora e canal de diálogo entre Cuba e os Estados Unidos e desempenhou um papel fundamental no degelo das relações diplomáticas entre os dois países em 2015, durante o segundo mandato de Barack Obama (2013-2017).

Em 28 de fevereiro, durante uma visita diplomática à Europa, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, foi recebido em audiência pelo papa Leão XIV.

Uma semana antes, o secretário da Santa Sé para as Relações com os Estados, Paul Richard Gallagher, havia se reunido com dois diplomatas americanos: o encarregado de negócios em Havana, Mike Hammer, e o embaixador no Vaticano, Brian Burch.

 Com informações da AFP

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