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Postura militar agressiva dos EUA não deve durar, diz professor

Jonathan Hanson, da Universidade de Michigan, avalia que consequências das operações trarão problemas aos próprios americanos

Desenho mostrando novos navios de guerra dos EUA, apelidados de 'Classe Trump', em evento em 22 de dezembro (Andrew Caballero-Reynolds/AFP)

Desenho mostrando novos navios de guerra dos EUA, apelidados de 'Classe Trump', em evento em 22 de dezembro (Andrew Caballero-Reynolds/AFP)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 16 de março de 2026 às 13h24.

Nos últimos três meses, os Estados Unidos adotaram uma postura militar mais agressiva, com a invasão da Venezuela, para a captura do presidente Nicolás Maduro, e uma série de bombardeios ao Irã que já dura três semanas, sem final à vista.

Para Jonathan Hanson, professor de ciência política e diretor do programa de mestrado em governo e administração pública da Universidade de Michigan, a nova postura americana representa uma forte mudança na ordem internacional, mas que não deverá ter uma duração longa, pois as consequências para os próprios Estados Unidos serão ruins.

“No momento, não vejo isso como uma mudança permanente, porque as consequências desse tipo de ação provavelmente serão muito negativas para os EUA e para a ordem mundial em geral. Não acho que, neste momento, o governo Trump tenha sentido as consequências. Mas espero que sinta e que possamos ver uma atenuação desse tipo de ação. E eu esperaria que os governos futuros se comportassem mais como nos anos anteriores”, diz Hanson, à EXAME.

Ele, no entanto, avalia que um esfriamento das tensões militares ainda pode levar tempo. "Será preciso alguma mudança política nos Estados Unidos para mudar a direção da política externa americana de uma forma que torne os EUA menos agressivos do que têm sido nos últimos meses", afirma.

Leia a seguir mais trechos da entrevista. 

Os Estados Unidos passaram a fazer ataques mais diretos contra líderes estrangeiros, como na Venezuela e no Irã. Trata-se de ações pontuais ou de uma tendência dos EUA que se intensificará?

Estamos vendo uma mudança na ordem internacional, na qual os Estados Unidos não estão se comportando de acordo com a ordem tradicional baseada em regras que guiou grande parte da política externa nas últimas décadas. Donald Trump, em particular, em seu segundo mandato, parece muito mais disposto a usar a força militar americana no exterior, de maneiras que parecem irrestritas. Tradicionalmente, os Estados Unidos não perseguem os líderes de outros países para prendê-los ou matá-los. 

No momento, não vejo isso como uma mudança permanente, porque as consequências desse tipo de ação provavelmente serão muito negativas para os EUA e para a ordem mundial em geral. Não acho que, neste momento, o governo Trump tenha sentido as consequências. Mas espero que sinta, e que possamos ver uma atenuação desse tipo de ação. E eu esperaria que os governos futuros se comportassem mais como nos anos anteriores.

No fim das contas, será preciso alguma mudança política nos Estados Unidos para mudar a direção da política externa americana de uma forma que torne os EUA menos agressivos do que têm sido nos últimos meses.

Que fatores poderão levar Trump a mudar de posição?

Tenho quase certeza de que Trump não tem uma noção muito boa das possíveis consequências das ações que acabou de tomar no Irã. Acredito que ele se cercou de pessoas que não estão dispostas a lhe dizer verdades difíceis. São puxa-sacos, em outras palavras. E ele parece estar operando em uma espécie de bolha de informações. 

Parece muito provável que o mundo esteja caminhando para um período muito difícil, onde os preços do petróleo subirão para níveis muito altos, levando à inflação e a problemas econômicos nos EUA, mas também em todos os outros lugares. 

Talvez o bloqueio no Estreito de Ormuz termine em breve, e nesse caso as consequências podem não ser tão graves. Mas acho razoavelmente provável que enfrentemos um período prolongado de dificuldades e que as consequências econômicas dessas ações tornem essa intervenção militar politicamente muito impopular para o presidente Trump nos Estados Unidos.

E devo observar que ela já não era muito popular antes: uma porcentagem muito pequena de americanos disse ter apoiado essa ação, segundo pesquisas recentes. Espero que este número caia ainda mais, caso haja consequências significativas decorrentes disso. Isso pode restringir ainda mais as ações do presidente no futuro. 

Acho que o aparente sucesso na captura do presidente Maduro da Venezuela levou Trump a tomar outra ação. Mas acho que ele não percebeu realmente o quão difícil seria essa opção militar contra o Irã, em comparação com a pequena operação de capturar Maduro. Era relativamente simples, comparada ao que estamos fazendo com o Irã.

Como vê a ação da oposição nos EUA neste momento? É possível que os democratas consigam aproveitar esta situação para ter um desempenho melhor nas midterms, em novembro?

A liderança democrata no Congresso, em sua maioria, esperou que as ações de Trump fizessem com que as pessoas se voltassem contra ele. E eles têm sido relativamente tímidos ou receosos de tomar uma posição muito forte e de apresentar alternativas em termos de políticas ou críticas contundentes. 

Dito isso, acho que eles estão em posição de tirar proveito das mudanças na opinião pública que as ações do presidente provocam nos Estados Unidos. É uma situação em que os democratas seriam ainda mais fortes se pudessem apresentar com força uma alternativa positiva que as pessoas desejam, em vez de apenas se beneficiarem da impopularidade de Trump. No entanto, parece que as eleições de meio de mandato serão muito, muito ruins para os republicanos. E os democratas têm um ponto a ganhar. Mesmo que seja apenas porque são a única alternativa disponível.

Em dezembro, os EUA publicaram uma nova estratégia de segurança nacional que defende que o país deve se concentrar na América Latina e aumentar seu domínio na região, no que foi apelidado de "Doutrina Donroe". Essa nova doutrina teve algum efeito na política americana?

A doutrina em si provavelmente não ressoa muito com as pessoas comuns, porque elas não estão prestando atenção ao tema. No entanto, as ações que o governo está tomando, consistentes com esse tipo de doutrina, chamam a atenção. Não acho que os americanos queiram esse tipo de envolvimento militar no exterior regularmente. Essas ações são tomadas, em geral, sem a aprovação do Congresso. Elas envolvem os Estados Unidos militarmente de maneiras que as pessoas consideram questionáveis. Por que gastar dinheiro e tropas americanas para propósitos que não parecem muito claros? 

Politicamente, essas coisas terão repercussão, em parte porque vão contra o que Trump parecia prometer quando estava concorrendo ao cargo. Ele disse que era o tipo de pessoa que acabaria com as guerras, não que as iniciaria. Mas agora vimos, nos últimos meses, duas grandes ações militares que contradizem isso e, honestamente, levantam questionamentos dentro de sua própria base política, de pessoas que se sentem traídas porque pensavam que não era isso que esperavam quando reelegeram Donald Trump. 

Como vê a relação entre Trump e países aliados?

Estamos vendo uma ruptura em nossas alianças militares, com os Estados Unidos demonstrando, no mínimo, um apoio muito morno à Aliança da Otan. Estamos mudando de rumo para um modelo que poderíamos chamar de modelo de esferas de influência, onde as grandes potências mundiais controlam suas regiões e forças agressivas. Podemos ver isso com a Rússia em relação à Ucrânia. Podemos ver isso com os EUA em relação à chamada Doutrina Donroe, essa é uma mudança importante, e suas implicações são muito reais. Isso pode significar uma ordem internacional muito diferente nos próximos anos.

Como os outros países podem lidar com este novo cenário?

É difícil para a maioria dos países desenvolver capacidade militar suficiente para, de fato, deter uma potência como os Estados Unidos. No entanto, eles podem tomar medidas para aumentar o custo das ações dos EUA de uma forma que faça o presidente dos EUA decidir não tomar essas ações. Vemos o Irã fazendo isso com o Estreito de Ormuz.

Há pouco que o Irã possa fazer para impedir os bombardeios e neutralizar o poder da Marinha dos EUA, mas eles têm esse imenso poder de paralisar grande parte do comércio global e do petróleo. 

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