Mesmo com a Selic em alta, o financiamento pode continuar sendo uma alternativa racional, principalmente para quem precisa resolver uma demanda habitacional concreta ou sair do aluguel. (Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
Repórter de Mercados
Publicado em 6 de agosto de 2026 às 05h13.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central divulgou um corte de 0,25 ponto percentual sobre a taxa básica de juros. Com isso, a Selic cai de 14,25% para 14% ao ano, na quarta redução consecutiva. O patamar de 15%, onde a taxa Selic ficou de junho de 2025 até março deste ano, foi o mais alto desde 2006 e penalizou os financiamentos imobiliários fora do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida.
"Só acredito que veremos um arrefecimento nas taxas e nas parcelas quando a Selic romper a barreira dos 12,5%. É abaixo desse patamar que o financiamento começa a ficar efetivamente mais palatável para o consumidor", opina Fabrício Schveitzer, conselheiro de estratégia do Ecossistema Sienge.
Pelo cenário atual, isso deve acontecer apenas entre abril e junho do próximo ano. "Até lá, esse primeiro corte muda pouco a realidade do crédito imobiliário, mas começa a dar consistência ao ciclo de redução dos juros", complementa.
Peixoto Accyoli, CEO da rede de franquias imobiliárias Re/Max Brasil acredita que o quarto corte consecutivo da taxa básica de juros pode trazer consigo uma nova fase, em que a transmissão começa a aparecer no financiamento imobiliário.
Os cortes na taxa de juros, porém, não se traduzem automaticamente em uma queda proporcional das taxas de financiamento. Isso acontece porque os bancos consideram uma série de fatores além da Selic, como o custo de captação dos recursos, a disponibilidade de fontes de financiamento — como poupança, SBPE, FGTS, LCI e CRI —, a trajetória dos juros de longo prazo, as expectativas de inflação, o risco de inadimplência e os spreads bancários.
Além disso, apesar dos cortes, a Selic ainda permanece em um patamar elevado e deve terminar o ano assim. O Boletim Focus, por exemplo, aponta que a Selic deve terminar o ano em 13,75%.
Segundo Accyoli, mais importante do que o número isolado é a combinação que vem com ele: inflação sob controle, maior previsibilidade fiscal, queda dos juros de longo prazo, melhora da captação dos bancos, menor risco e mais concorrência.
"É essa combinação que acelera o tempo de transmissão ao consumidor. Quando isso acontece, a melhora deixa de aparecer apenas em campanhas pontuais e começa a chegar às taxas regulares, ao valor das parcelas, à renda exigida para aprovação e, finalmente, à capacidade de compra das famílias".
Além disso, com uma taxa básica ainda alta, os investimentos em renda fixa permanecem atrativos e parte dos investidores migra recursos que antes iriam para a poupança ou para setor imobiliário, reduzindo a base de captação dos bancos e pressionando a oferta de crédito.
“Como os financiamentos habitacionais no Brasil, especialmente os do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos), são sustentados majoritariamente por recursos da caderneta de poupança, essa migração para ativos mais rentáveis reduz a base de captação dos bancos”, afirma.
Mesmo com a Selic em alta, o financiamento pode continuar sendo uma alternativa racional, principalmente para quem precisa resolver uma demanda habitacional concreta ou sair do aluguel.
Isso porque o crédito imobiliário não opera no mesmo patamar da Selic. As taxas oferecidas pelos bancos são mais baixas, especialmente em instituições públicas.
Segundo Peixoto Accyoli, a decisão de financiar em um ciclo de juros altos não é, por si só, um erro. O risco maior está em assumir parcelas que comprometam excessivamente a renda ou comprar um imóvel fora da realidade de mercado.
“Com preço correto, entrada adequada e visão de longo prazo, financiar agora pode ser uma decisão racional e defensiva”, diz o CEO da Re/Max.
Tanto que, segundo Schveitzer, mesmo com uma taxa de juros elevada alguns segmentos continuam registrando demanda. Na alta renda, por exemplo, o custo do financiamento pesa menos.
"Esse público consegue dar uma entrada maior e, muitas vezes, acessar condições de crédito mais favoráveis. Em cidades onde o aluguel está muito caro, também existe uma substituição da parcela do aluguel pela parcela do financiamento, o que ajuda a explicar por que a compra de imóveis continua acontecendo mesmo em um cenário de juros elevados", diz.
Vale lembrar ainda que o sistema brasileiro permite portabilidade e renegociação do contrato, o que possibilita ao comprador ajustar a taxa, a parcela ou o saldo devedor no futuro, quando os juros caírem de forma mais consistente.
Para Accyoli, a escolha envolve uma equação mais ampla, que combina momento de vida, segurança financeira e qualidade do ativo.
A queda da Selic pode melhorar as condições de financiamento ao longo do tempo, mas também pode aumentar a demanda por imóveis, especialmente em regiões valorizadas. Nesse cenário, compradores que aguardam uma redução maior dos juros podem encontrar um ambiente mais competitivo, com menos margem de negociação e preços potencialmente mais elevados.
Para quem já encontrou um imóvel adequado, possui uma entrada consistente, renda estável e uma reserva financeira, o cenário atual não necessariamente impede a compra. A economia obtida com juros menores no futuro pode acabar sendo compensada por uma valorização do imóvel ou pela perda de uma oportunidade de aquisição.
Além disso, o financiamento imobiliário não precisa ser encarado como uma decisão definitiva. O comprador pode comparar diferentes instituições financeiras no momento da contratação e, caso as condições de crédito melhorem posteriormente, avaliar alternativas como renegociação ou portabilidade.
Isso não significa comprar a qualquer custo. Para quem ainda não tem uma reserva financeira, conta com pouca entrada ou precisaria comprometer uma parcela elevada da renda com a prestação, esperar pode ser uma decisão mais adequada.
A recomendação é que a compra seja guiada pela capacidade de pagamento, pela qualidade do imóvel e pelo horizonte de longo prazo — e não pela tentativa de prever exatamente o menor ponto dos juros. O crédito abre a porta, mas a segurança financeira e a escolha do ativo sustentam a decisão.