Campo de Marte: vista do rooftop do Union Braz Leme, da AW Realty (AW Realty/Divulgação)
Repórter de Mercados
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 22 de janeiro de 2026 às 09h20.
O aeroporto Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo, está prestes a se tornar um polo da mobilidade aérea urbana no Brasil. A concessionária PAX Aeroportos firmou uma parceria com a UrbanV, empresa internacional especializada na implantação e operação de vertiportos, para desenvolver a infraestrutura necessária à operação de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical, os chamados eVTOLs, ou “carros voadores”.
O acordo prevê a instalação dos primeiros vertiportos urbanos do país no Campo de Marte e no aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. A iniciativa integra o sandbox regulatório conduzido pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que busca definir normas e procedimentos para o novo modal.
Para o CEO da PAX, Rogério Augusto Prado, a parceria com a UrbanV posiciona os dois aeroportos como futuros hubs de Mobilidade Aérea Avançada (AAM) no Brasil. “Estamos construindo as bases para futuras redes de mobilidade aérea no Brasil, a partir de aeroportos que já desempenham papel central na aviação urbana”, disse.
Com localização estratégica e estrutura dedicada à aviação executiva, o Campo de Marte deve oferecer conexões com Congonhas, Guarulhos, Faria Lima, Alphaville, Campinas e Baixada Santista. A concessão à PAX Aeroportos, iniciada em 2023, prevê obras de infraestrutura — já em fase final — para permitir operações noturnas.
A nova função do Campo de Marte pode ter efeito direto sobre o mercado imobiliário da Zona Norte. Claudio Carvalho, sócio da incorporadora AW Realty, afirma que a implantação do vertiporto deve fomentar ainda mais o setor.
“Se ocorrer de fato, a operação de eVTOLs possibilitará conexão com outros aeroportos e com a Faria Lima. A Zona Norte vem passando por avanços importantes, como a revitalização da Braz Leme [uma das principais avenidas da região]. Há demanda por mais infraestrutura e o vertiporto acelera esse processo”, diz.
A região já conta com novos empreendimentos residenciais e comerciais. A AW Realty iniciou as vendas do Union Braz Leme, projeto com VGV (valor geral de vendas) de R$ 130 milhões, em parceria com a Nord Inc. O metro quadrado será vendido por R$ 16 mil em um empreendimento que inclui apartamentos, escritórios e lojas. Com arquitetura do escritório Athié Wohnrath, o projeto oferece vista de 360 graus a partir do rooftop, com destaque para o próprio Campo de Marte.
“A partir do acordo entre a concessionária PAX Aeroportos e a UrbanV para a instalação do vertiporto no Campo de Marte, a demanda potencial por imóveis de alto padrão na Zona Norte, principalmente nas proximidades do aeroporto, tende a crescer ainda mais”, opina Claudio.
Segundo ele, há também procura por unidades compactas na região, com um ou dois dormitórios e áreas entre 35 e 63 metros quadrados.
Em 2025, a companhia ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 1 bilhão em lançamentos. Para 2026, a expectativa é crescer 20%, com atuação também nas zonas Sul e Oeste de São Paulo.
A PAX destaca que o Campo de Marte deve se tornar referência em infraestrutura para operações de mobilidade aérea urbana no país. A empresa ressalta, porém, que não tem ligação com o Parque Campo de Marte — projeto municipal localizado fora da área sob concessão aeroportuária.
A área também passará por uma transformação urbana de grande escala, com a implantação do Parque Municipal Campo de Marte. O parque ocupará cerca de 406 mil metros quadrados, equivalentes a 20% do terreno total, sob responsabilidade do município. Os outros 80% seguem sob domínio da União e abrigam o aeroporto.
A concessão foi assinada em janeiro de 2025 pelo prefeito Ricardo Nunes com o Consórcio Cântaro SP, que ficará responsável pela implantação e operação do espaço por 35 anos.
Claudio Carvalho, sócio da AW Realty e morador da Zona Norte, descreve o projeto como um divisor de águas para a região. “Serão 400 mil metros quadrados de parque. É um projeto bem conceituado, muito parecido com o modelo do Ibirapuera”, afirma.
Trata-se de um parque essencialmente público. O projeto prevê bares e restaurantes internos, centros esportivos, áreas de lazer e uma nova relação urbana com a Braz Leme. “Aquele muro vai embora. Vai ficar só uma grade, para que as pessoas consigam ver o parque e o movimento”, diz.
A proposta inclui ainda a abertura de uma via interna ligando a Braz Leme à Olavo Fontoura, além de bolsões de descanso ao longo da avenida, com bancos e áreas de permanência voltadas ao lazer e à observação da operação aérea.
Segundo a Prefeitura de São Paulo, o investimento estimado é de R$ 202 milhões, sem uso de recursos públicos. O projeto prevê centros esportivos para futebol e modalidades olímpicas, área de apoio ao Carnaval e empreendimentos associados, como lojas, centro gastronômico, coworking, academia e rooftop aberto ao público.
Elefante branco? Por que o Jockey Club pode ser desapropriado após 80 anosDo total da área, 60% — cerca de 267 mil metros quadrados — serão destinados à preservação da vegetação e a atividades ao ar livre. A concessão exige ainda a oferta de atividades gratuitas para diferentes faixas etárias.
As obras serão entregues em duas fases: a primeira, até 18 meses após a ordem de início, com os centros de convivência e área de apoio ao Carnaval; a segunda, com a conclusão total do parque, até 48 meses após o início das obras.
Para Carvalho, a combinação entre parque, aeroporto modernizado e novos projetos imobiliários cria um ciclo virtuoso. “Isso tudo está documentado, com investimento e prazo definidos. Somado às outras obras da região, garante a valorização da Zona Norte”, afirma.
A ideia de transformar o Campo de Marte, no entanto, não é nova: remonta a pelo menos os anos 1990. Em 2017, o então prefeito João Doria chegou a firmar um acordo com Michel Temer, então presidente da República, para o parque e um museu aeroespacial, mas o projeto parou em estudos de viabilidade inviáveis em 2018.
A história do Campo de Marte começa em 1906, quando a área passou a ser utilizada pela Força Pública do Estado de São Paulo para treinamentos militares. O nome veio dos instrutores franceses contratados para treinar os soldados paulistas, que chamavam a região de Champs de Mars — referência a campos militares europeus. A tradução literal, Campo de Marte, permanece até hoje.
Em 1920, o local tornou-se o primeiro aeródromo da cidade, com a instalação de uma pista de treinamento para pilotos da Força Pública. A partir dali, consolidou-se como um dos principais polos da aviação militar e civil paulista ao longo do século 20.
A criação do parque urbano no local é resultado de uma longa disputa judicial entre a Prefeitura de São Paulo e a União pela posse de uma área de aproximadamente 2 milhões de metros quadrados — conflito que remonta à Revolução Constitucionalista de 1932.
Após 64 anos de disputa na Justiça, um acordo entre os governos permitiu, segundo a Prefeitura, uma economia anual de R$ 3 bilhões aos cofres municipais. O terreno foi dividido entre 1,7 milhão de metros quadrados sob domínio federal — onde continua operando o aeroporto — e 405 mil metros quadrados destinados ao município, onde será implantado o parque.