Desfile da coleção outono-inverno 2026-2027 da Dior: moda começa a usar IA nas campanhas (Divulgação)
Estrategista de Comunicação
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 10h57.
Última atualização em 11 de agosto de 2026 às 11h17.
Agosto de 2025. Uma leitora folheia a Vogue americana e para numa campanha da Guess: duas modelos de pele impecável e simetria perfeita, bonitas a ponto de parecerem irreais. E eram. No rodapé, em corpo minúsculo, uma linha que quase ninguém se daria ao trabalho de ler dizia “Produzido com IA”.
Só que muita gente leu. O resultado foi que leitores ameaçaram cancelar assinaturas, criadores gravaram vídeos indignados, e a Guess virou estudo de caso.
A informação estava lá o tempo todo, quase escondida, e foi essa letra miúda que traiu a confiança.
No último dia 2 de agosto, a Europa transformou esse desconforto em regra. O Artigo 50 do AI Act passou a exigir avisos nas interações com sistemas de IA, marcações detectáveis em conteúdo sintético e identificação clara quando a fabricação pode enganar.
Para o marketing, começa aí uma conversa que ultrapassa o compliance. Quando um rosto, uma voz ou um depoimento parece verdadeiro, a maneira como foi produzido interfere na confiança depositada naquela marca.
Uma pesquisa com 9.869 consumidores em sete mercados ajuda a medir o tamanho disso: 86% querem que conteúdo gerado por IA seja identificado, 58% acreditam saber reconhecer uma criação sintética, e 32% confiariam menos numa marca que usasse esse material sem avisar (Meltwater e YouGov, Trust in the Age of Generative AI, 2026).
São três leituras distintas de um mesmo receio.
A publicidade sempre escolheu enquadramentos, tratou fotografias e contratou personagens. A Inteligência Artificial mudou a escala, a velocidade e o custo dessa fabricação.
Hoje, uma empresa cria modelos que não existem, clona vozes, simula ambientes e inventa depoimentos numa tarde. E o público começou a julgar a origem daquilo que vê. Assim como a embalagem informa ingredientes, composição e fabricante, a comunicação entra no mesmo território: a procedência da mensagem passa a integrar a própria mensagem.
O risco tem nome e sobrenome. Quando a Coca-Cola refez seu clássico comercial de Natal com IA, boa parte do público chamou o resultado de “sem alma” (NBC News, 2024).
Muita gente associa criação sintética a algo preguiçoso, genérico, emocionalmente vazio. Não à toa, para 28% dos consumidores (Meltwater/YouGov), publicar conteúdo produzido por IA sem identificação lidera a lista de práticas que as marcas deveriam abandonar em 2026. O incômodo nasce da sensação de ter acreditado em algo cuja natureza foi escondida.
Rotular tudo, no entanto, seria uma resposta ruim. Uma revisão gramatical, um ajuste de cor e a fabricação de um depoimento ocupam andares éticos distintos. Tratar qualquer assistência tecnológica como distorção da realidade produziria fadiga e esvaziaria o aviso.
O IAB propõe um critério guiado por risco e materialidade: a identificação ganha sentido quando a IA interfere na autenticidade, na identidade ou na representação a ponto de induzir o consumidor ao erro.
Daí nasce a pergunta mais útil que um time de marca pode se fazer antes de publicar: o consumidor entenderia a mensagem da mesma forma se soubesse como ela foi produzida? Quando a resposta é não, houve alteração de significado. A transparência deixa o rodapé jurídico e entra no posicionamento.
A IA divide a autoria entre muitas ferramentas. A responsabilidade da marca, essa, permanece inteira. Pouco importa quantos modelos participaram da criação quando a campanha carrega um nome e procura influenciar uma decisão.
No Brasil, as regras eleitorais de 2026 já exigem identificação explícita, destacada e acessível para conteúdos sintéticos na propaganda política. O campo é específico, mas revela uma expectativa social mais ampla: quando a fabricação mexe na percepção da realidade, o público quer saber.
E há motivo para se preocupar. No Projeto Brief 2026, 54,2% dos 2.483 brasileiros ouvidos tiveram dificuldade de distinguir vídeos reais de vídeos gerados por IA (amostra recrutada em redes sociais, não representativa da população, mas reveladora do desafio perceptivo).
Antes que cada campanha vire um improviso, as marcas precisarão definir as próprias regras: quais usos ficam nos bastidores? Quais alterações mudam a interpretação do público? Quem assina o conteúdo no fim? A transparência começa antes da etiqueta. Começa na governança da criação.
Por décadas, o marketing disputou o direito de contar histórias.
A IA entregou às marcas a capacidade de fabricar cada elemento dessas histórias, e uma responsabilidade do mesmo tamanho veio junto.
Em um mercado capaz de inventar qualquer realidade, o “Feito por IA” funciona como selo de procedência.