Smartphones: serviços financeiros e novos modelos de acesso ampliam o valor do varejo de eletrônicos.
Colunista
Publicado em 16 de setembro de 2026 às 14h00.
Os brasileiros já têm 272 milhões de smartphones em uso no país, o equivalente a 1,3 aparelho por habitante, segundo levantamento da FGVcia de 2025. Ao mesmo tempo, 48% pretendem trocar de celular nos próximos 12 meses, de acordo com pesquisa da Mobile Time e da Opinion Box. O dado ajuda a explicar o tamanho de um mercado que continua crescendo, mas revela uma mudança mais profunda: o smartphone deixou de ser apenas um produto de consumo. Hoje, ele funciona como infraestrutura pessoal, financeira e profissional.
O problema é que boa parte do varejo de eletrônicos ainda opera sob uma lógica majoritariamente mercantil, de venda de produtos, baseada em volume, preço e giro de estoque. Essa equação ficou mais difícil nos últimos anos. A pressão sobre as margens aumentou com a consolidação dos marketplaces. A competição online reduziu a diferenciação e a cadeia global passou a conviver com volatilidade cambial, tensões geopolíticas e instabilidade logística. Ou seja, o setor vive uma transformação estrutural, não apenas conjuntural.
A disputa entre China e Estados Unidos pela liderança tecnológica, especialmente na indústria de semicondutores, elevou a percepção global sobre dependência produtiva e risco de abastecimento. Ao mesmo tempo, o custo de atualização tecnológica passou a pesar mais no orçamento de consumidores e empresas. O resultado é um mercado em que o acesso à tecnologia continua essencial, mas a lógica de compra tradicional já não responde sozinha às necessidades do consumidor nem às demandas financeiras do varejo.
Esse movimento não é exclusivo dos eletrônicos. Diversos setores passaram por uma migração semelhante nas últimas décadas. A indústria automotiva ampliou receitas com serviços financeiros. O software trocou licenças perpétuas por assinaturas recorrentes. O entretenimento abandonou a posse física em favor do acesso contínuo. Em todos esses casos, o valor deixou de estar na venda do produto e passou a se concentrar na construção de relacionamento, previsibilidade de receita e serviços agregados.
O varejo de eletrônicos começa agora a entrar nessa mesma lógica. O smartphone se transformou no principal centro operacional da vida digital. Segundo a pesquisa da Mobile Time e da Opinion Box, 50% dos brasileiros utilizam o aparelho para pagamentos por aproximação e 47% usam o celular como carteira de documentos digitais. O dispositivo concentra comunicação, autenticação bancária, produtividade, acesso a serviços públicos, trabalho remoto e consumo de conteúdo. Em muitos casos, perder o celular significa perder temporariamente acesso à própria vida financeira.
Quando um produto assume esse nível de centralidade, a relação entre posse e uso inevitavelmente muda. O consumidor não avalia apenas o preço de compra. Ele passa a considerar atualização constante, previsibilidade de gasto, proteção, manutenção e flexibilidade financeira.
É justamente nesse ponto que surgem novas oportunidades para o varejo. Não apenas na comercialização do aparelho, mas nos serviços construídos ao redor dele.
Em um ambiente pressionado por margem, os serviços financeiros passam a ter um papel estratégico. O smartphone possui características que o tornam um ativo particularmente interessante nesse contexto, com alto valor agregado, rastreabilidade, demanda permanente e mercado secundário ativo. Isso abre espaço para modelos em que o próprio dispositivo funcione como garantia em operações de crédito, financiamento ou acesso facilitado à tecnologia.
A discussão sobre acesso versus posse também ganha força dentro das empresas. Segundo a FGVcia, os gastos e investimentos em tecnologia representam, em média, 10% da receita das médias e grandes companhias brasileiras. Em paralelo, cresce a necessidade de atualização constante de dispositivos, especialmente em operações comerciais, logísticas e híbridas. Em muitos casos, imobilizar capital na compra integral de equipamentos deixa de ser a decisão mais eficiente financeiramente.
Portanto, o debate deixa de ser tecnológico e passa a ser econômico. Em vez de assumir todo o custo, obsolescência e risco operacional de um ativo que envelhece rapidamente, empresas começam a priorizar modelos mais flexíveis, previsíveis e adaptáveis às oscilações do mercado.
Existe ainda uma camada pouco explorada nessa transformação, que é a circularidade. Segundo a pesquisa da Mobile Time e da Opinion Box, 64% dos brasileiros têm pelo menos um celular antigo guardado em casa, enquanto apenas 41% afirmam ter descartado corretamente um smartphone como lixo eletrônico. Isso revela uma cadeia de reaproveitamento subdesenvolvida em um mercado que movimenta milhões de aparelhos todos os anos.
A circularidade não é mais uma pauta ambiental. Ela começa a se consolidar como uma discussão de eficiência econômica, valor residual e reaproveitamento de ativos tecnológicos. O crescimento do mercado de usados, recondicionados e modelos de acesso mais flexíveis tende a acelerar conforme o custo global da tecnologia aumenta e o consumidor busca alternativas mais inteligentes para atualização constante.
O varejo de eletrônicos continuará vendendo aparelhos. Mas a geração de valor do setor deve migrar cada vez mais para serviços financeiros, recorrência, proteção, gestão de ciclo de vida e relacionamento contínuo com o consumidor.
Diante da pressão crescente de margem, vence quem consegue transformar uma transação em uma relação de longo prazo. E essa talvez seja a principal mudança em curso no setor de eletrônicos.