Infraestrutura como serviço: empresas priorizam eficiência e desempenho em vez da posse de ativos. (Pexels)
Colunista
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 11h00.
Durante décadas, possuir ativos foi sinônimo de força. Quanto maior o imobilizado no balanço, maior a percepção de solidez.
Esse raciocínio, no entanto, vem sendo rapidamente revisado. Em um ambiente de transformação constante, ativos intensivos em capital podem comprometer a agilidade das empresas, reduzir a eficiência financeira e dificultar a adaptação a novas demandas.
A mudança já é evidente em diferentes setores. No software, licenças deram lugar a assinaturas e servidores migraram para a nuvem. Na mobilidade, a posse de frotas cedeu espaço a modelos de locação e gestão integrada, por exemplo.
Esse deslocamento começa a se consolidar também na infraestrutura física. Em vez de investir na construção e manutenção de ativos próprios, empresas passam a priorizar acesso, flexibilidade e previsibilidade operacional.
Nos data centers, por exemplo, a infraestrutura dedicada vem sendo substituída por capacidade sob demanda. Na energia, modelos baseados em performance avançam com rapidez. Na iluminação corporativa, o foco já não está no equipamento instalado, mas no nível de serviço entregue.
Quando a infraestrutura não está diretamente ligada ao core business, o que pesa na decisão deixa de ser a propriedade e passa a ser o resultado.
Essa lógica ganha ainda mais relevância quando olhamos para a infraestrutura térmica.
Segundo a International Energy Agency (IEA), a demanda global por ar-condicionado deve mais do que triplicar até 2050, impulsionada pelo aumento das temperaturas e pela urbanização. No Brasil, eventos de calor extremo se tornam mais frequentes, tornando o conforto térmico um requisito básico para a continuidade das operações.
Há uma afirmação frequentemente atribuída a Lee Kuan Yew, ex-primeiro-ministro de Singapura, de que o ar-condicionado foi uma das invenções mais relevantes para o desenvolvimento do país. Sem controle térmico adequado, a produtividade ficaria restrita às primeiras horas da manhã e ao fim do dia.
Esse entendimento encontra respaldo em evidências. Um estudo da Harvard T.H. Chan School of Public Health mostrou que trabalhadores expostos a ambientes mais quentes apresentam queda significativa no desempenho cognitivo em comparação àqueles em ambientes devidamente climatizados.
Nesse contexto, a climatização assume uma dimensão estratégica. Ela influencia produtividade, experiência do cliente e a estabilidade de operações críticas, como hospitais e data centers.
Apesar disso, a gestão dessa infraestrutura ainda é majoritariamente conduzida sob a lógica da posse. Equipamentos são adquiridos, instalados e, muitas vezes, operados de forma reativa.
O resultado costuma ser conhecido: baixa utilização, recorrência de falhas e pouca visibilidade sobre o desempenho real dos sistemas.
Modelos orientados a serviço oferecem uma resposta mais alinhada às demandas atuais. Ao incorporar métricas de desempenho e uso de dados, permitem maior previsibilidade, melhor alocação de capital e uma operação mais eficiente.
Nesse cenário, o valor deixa de estar concentrado no ativo e passa a estar na gestão.
A principal barreira para essa transição ainda é cultural. Existe uma percepção consolidada de que possuir garante controle. Na prática, controle está associado à capacidade de monitorar, ajustar e otimizar continuamente a operação.
Empresas que reconhecem essa mudança passam a estruturar suas decisões com base em desempenho e eficiência. As demais permanecem expostas a estruturas rígidas, com alto custo de capital e menor capacidade de resposta.
A discussão, portanto, evolui. Não se trata mais de decidir qual equipamento adquirir, mas de como garantir que a infraestrutura opere de forma contínua, eficiente e alinhada à estratégia do negócio.
Em um ambiente de capital mais caro e condições climáticas mais exigentes, infraestrutura deixa de ser patrimônio. Torna-se serviço.