Incerteza regulatória: fragmentação global eleva custos e exige novas habilidades dos executivos. (Getty Images)
Colunista
Publicado em 22 de junho de 2026 às 17h00.
Última atualização em 22 de junho de 2026 às 17h31.
Todo executivo que já ocupou uma posição sênior em uma multinacional passou por aquele momento clássico: explicar para a matriz por que, no Brasil, as coisas funcionam de maneira diferente do resto do mundo.
Um caso recente, com repercussão global, envolveu a Netflix. Em 21 de outubro de 2025, a empresa perdeu cerca de US$ 33 bilhões em valor de mercado — uma queda superior a 6%.
O movimento foi atribuído à obrigação de reconhecer intempestivamente uma decisão do STF que ampliou o alcance da CIDE para determinados serviços de tecnologia. Muitas empresas avaliam que não há fato gerador claro na legislação e interpretam a decisão como política. É o que, no Brasil, chamamos de “jabuticaba” — uma forma quase elegante de descrever a complexidade (ou confusão) do ambiente legal.
Não é preciso dizer que a governança — tanto de empresas quanto de países — funciona melhor quando há previsibilidade. Investimentos já carregam, por natureza, risco e incerteza. Quanto maior o horizonte de retorno e o volume investido, maior a necessidade de um arcabouço macroeconômico e jurídico estável, que permita planejamento de qualidade.
No Brasil, porém, vigora outra máxima: até o passado é incerto. Leis podem ser reinterpretadas ou alteradas de forma a impactar contratos previamente válidos, afetando diretamente a rentabilidade dos investimentos. As mudanças implementadas no setor elétrico durante o governo Dilma Rousseff são um exemplo emblemático, cujas consequências ainda reverberam, aumentando custos para todos os stakeholders.
Mas há uma reviravolta interessante em curso. Em 2026, a vida do executivo brasileiro em multinacionais pode, paradoxalmente, ficar mais fácil.
Mudanças frequentes de tarifas, decisões unilaterais e a saída de acordos internacionais sem grande cerimônia passaram a fazer parte também do comportamento de potências globais, como os Estados Unidos. É, em certa medida, o “abrasileiramento” da política econômica americana.
Diversos países vêm abandonando o padrão histórico de costurar grandes acordos multilaterais amplos, migrando para a chamada localização regulatória. Criam regras próprias para produtos e serviços essencialmente iguais — como inteligência artificial, meios de pagamento e ativos digitais — aumentando significativamente a complexidade operacional para as empresas globais.
O movimento de padronização das últimas décadas, que trouxe eficiência e escala, está sendo substituído por uma fragmentação que eleva custos e reduz previsibilidade.
Sempre foi natural que grandes potências utilizassem seu peso econômico para obter vantagens. A diferença agora é a intensidade e a frequência dessas intervenções.
A União Europeia ajusta regras de competição conforme sua conveniência, muitas vezes invocando ameaças externas questionáveis, especialmente no setor agrícola.
O contexto geopolítico tende a exacerbar essa dinâmica criando surpresas com impactos relevantes. A Alemanha, por exemplo, viu todo o seu planejamento energético ruir após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Como consequência, as empresas alemãs que haviam se preparado para um modelo energético previsível e de baixo custo, a partir do uso do gás russo, sofreram perda de competitividade, aumento de custos e ineficiência na cadeia logística.
A governança corporativa global está sendo forçada a ampliar seu radar de risco. Questões antes tratadas como exceção, — interferência política, mudanças abruptas de regras, protecionismo disfarçado — passam a ocupar posição de destaque na análise estratégica. Isso torna a alocação de capital mais seletiva, aumenta o prêmio de risco até em países desenvolvidos e reduz a previsibilidade de retorno.
Executivos ao redor do mundo terão que desenvolver habilidades que, até então, eram reconhecidamente pontos fortes dos executivos brasileiros: navegar incertezas, justificar o injustificável e traduzir o caos em narrativa compreensível para seus conselhos.
O Brasil deixou de ser exceção. Está virando referência — ainda que pelos motivos errados.