Fábrica da Volkswagen em São José dos Pinhais, no Paraná: empresas criam alternativa de investimento para o aplicador
Da Redação
Publicado em 6 de janeiro de 2012 às 19h14.
A renda fixa ainda pode ser um bom investimento, apesar da queda da Selic, a taxa referencial de juros da economia. Quem quiser ganhar mais dinheiro nesse mercado, porém, deve se preparar para ir além dos tradicionais fundos DI e buscar alternativas mais sofisticadas e -- claro -- mais arriscadas. As preferidas dos especialistas consultados pelo Guia EXAME de Investimentos Pessoais são duas aplicações financeiras de nomes nada simpáticos, mas que prometem retornos atraentes: os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), como o próprio nome diz, ligados ao setor da construção, e os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), usados por bancos e companhias de todos os setores. Esses produtos são compostos de títulos que representam contas futuras que uma empresa tem a receber. Um exemplo comum são os empréstimos bancários. Muitos bancos transformam em FIDCs o fluxo futuro dos pagamentos de empréstimos que têm a receber de seus clientes. Depois, vendem esses FIDCs a investidores, que recebem um rendimento periódico. No caso dos CRIs, os melhores exemplos são de construtoras que convertem em títulos os aluguéis e as prestações da casa própria que têm a receber. São investimentos de prazo determinado, que geralmente duram de três a sete anos.
Para o investidor, a vantagem dessas aplicações é a possibilidade de obter retornos superiores aos juros do mercado (a taxa Selic), que estão em 11,25% ao ano. Hoje, a rentabilidade dos FIDCs varia de 12% a 17% ao ano. Já os CRIs costumam pagar juros mais a variação de um índice de inflação -- e são isentos de imposto de renda. Um exemplo é o CRI que a construtora WTorre fez da fábrica da Volkswagen em São José dos Pinhais, no Paraná. A remuneração, que é atrelada ao aluguel que a montadora paga para ocupar um espaço de 2 milhões de metros quadrados, é de 12,5% ao ano mais IGP-M -- o que soma quase 18%. "Os CRIs são ótimas alternativas para quem quer proteger seu patrimônio das perdas geradas pela inflação", diz Rogério Betti, sócio da consultoria financeira Beta Advisors, que atende clientes de alta renda.
| As opções de investimento | ||
| Dois tipos de papéis disponíveis no mercado | ||
| FIDC | CRI | |
| O que é | Investimento em créditos que as empresas têm a receber (como pagamentos de cartão de crédito, energia e factoring) | Investimento em títulos do setor imobiliário cujo retorno se dá por aluguéis ou outras formas de geração de caixa |
| Retorno anual médio | De 12% a 17% | De 8% a 13% mais a variação do IGP-M |
| Quem pode investir | Investidores qualificados (mais de 300 000 reais) e institucionais (fundos de pensão) | Investidores qualificados (mais de 300 000 reais) e institucionais (fundos de pensão) |
| Fontes: Uqbar, Beta Advisors e LLA | ||
Existem CRIs e FIDCs com retornos diferentes porque os rendimentos dependem do risco dos créditos que dão origem a esses produtos. "Vale a velha máxima do mercado financeiro, que diz que, quanto maior a rentabilidade, maior o risco", diz Eduardo Lisboa Rocha, presidente da BER Capital, empresa que estrutura esses investimentos. Produtos compostos de dívidas de companhias de grande porte, como Ambev, Gafisa e Vale do Rio Doce, são considerados seguros, porque o perigo de inadimplência é baixo. Já as operações das factorings, empresas que compram e administram cheques pré-datados, duplicatas e outros créditos de empresas de pequeno e médio porte, são mais arriscadas. Para ficar a par do risco que corre aplicando nesses produtos, o investidor pode consultar os relatórios das agências internacionais de classificação de risco, como Moody's e Standard & Poor's.
Até hoje, porém, nenhum CRI ou FIDC lançado no Brasil apresentou problemas sérios, como deixar de pagar os investidores. "Isso nunca ocorreu porque o risco da maioria dos produtos comercializados no país é baixo", diz o advogado Alexandre Tadeu Navarro, especializado em mercado de capitais. É diferente do que acontece no exterior. Paradoxalmente, em países com mercados financeiros mais desenvolvidos, como Estados Unidos e Japão, são comuns os fundos de recebíveis compostos de papéis de altíssimo risco, conhecidos como créditos podres, como dívidas de inadimplentes. Quando a aplicação dá certo, o investidor pode dobrar e até triplicar seus rendimentos. Quando dá errado, porém, as perdas costumam ser dolorosas. É o que está ocorrendo nos Estados Unidos nos últimos meses. Uma crise no mercado de hipotecas de alto risco -- nicho do setor imobiliário conhecido como subprime -- causou prejuízo aos investidores que aplicavam em papéis lastreados nesses créditos. Algumas instituições financeiras, como Bear Stearns e BNP Paribas, chegaram a suspender os resgates de seus fundos para evitar uma fuga de recursos. "O Brasil, porém, está longe de ver isso acontecer", diz Navarro.
Para o investidor brasileiro, o grande risco dos CRIs e dos FIDCs é a baixa liquidez -- ou seja, uma vez que se aplica num desses produtos, é difícil sair antes do vencimento. "O mercado secundário é incipiente", diz Chuck Spragins, sócio da Uqbar, empresa especializada no setor. "Além disso, alguns produtos restringem os saques antecipados, antes do vencimento, cobrando um pedágio." Isso significa que é preciso se planejar para deixar o dinheiro parado por alguns anos antes de partir para esse tipo de aplicação. "É um risco e, por isso, o ideal é aplicar no máximo 10% do patrimônio nesses produtos", diz Betti, da Beta Advisors. Seguir esse limite, no entanto, pode ser um problema. Isso porque a maioria dos CRIs e FIDCs do mercado exige aplicações mínimas elevadas, de mais de 300 000 reais. A boa notícia é que algumas empresas começam a criar produtos mais acessíveis, com investimento mínimo a partir de 10 000 reais. Ainda assim, é preciso ser um investidor qualificado, ou seja, ter mais de 300 000 reais no mercado financeiro, para aplicar nesses produtos.
| Atenção |
| Os FIDCs não são isentos de imposto de renda como os CRIs. Mas eles têm uma vantagem tributária em relação aos fundos de investimento tradicionais: o imposto é pago apenas no resgate, e não a cada seis meses. Isso aumenta a rentabilidade, já que o dinheiro que iria para os cofres do Fisco permanece na aplicação rendendo juros. A má notícia é que o benefício está com os dias contados. A Receita estuda estender o "come-cotas" -- como é conhecido o imposto semestral dos fundos - aos FIDCs. Os executivos do mercado estão desanimados. "Como a Receita faz o que pode para aumentar a arrecadação, acho que essa batalha está perdida", diz um deles. |