Invest

Carro próprio, alugado ou apps de corrida: o que pesa menos no bolso?

Análise comparativa feito a pedido da EXAME mostra o custo diário de cada opção

Além do carro próprio: Combustível, manutenção e estacionamento entram na conta

Além do carro próprio: Combustível, manutenção e estacionamento entram na conta

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 17 de março de 2026 às 13h58.

Última atualização em 30 de março de 2026 às 15h40.

Ter carro próprio é o sonho de muitos brasileiros, mas será que ele é mesmo a forma mais econômica de se locomover? Escolher o transporte do dia a dia é também uma decisão financeira. Não basta olhar apenas para o preço do combustível: é preciso considerar manutenção, seguro, IPVA, estacionamento e até a perda de valor do veículo ao longo do tempo.

Algumas alternativas surgem na escolha, como aluguéis de carros ou aplicativos de viagens, como 99 e Uber. Mas eles não estão isentos de questões, como as tarifas dinâmicas ou os contratos de aluguéis elevados. No meio disso tudo, o combustível também pode pesar.

Para entender melhor qual seria a opção mais adequada para economizar, a pedido da EXAME, Kalume Neto, diretor executivo da K.LUME Consultoria, elaborou um estudo comparando o que é mais benéfico para o bolso do consumidor.

Carro próprio

Para entender quanto custa, de fato, ir e voltar do trabalho de carro, vamos imaginar que a pessoa tenha um Volkswagen Polo Track, o modelo mais vendido do Brasil em 2024. No mercado de usados, um Polo Track com três anos de uso custa hoje cerca de R$ 69.484, de acordo com a tabela Fipe de março de 2026 – mas, no exemplo a seguir, ele já está quitado.

Agora, precisamos definir o tamanho do trajeto diário. Estatísticas de trânsito da prefeitura ajudam a chegar na estimativa: um percurso diário de trabalho em São Paulo é, em média, 22,5 km entre ida e volta. Uma distância semelhante à que separa o Theatro Municipal de São Paulo do Aeroporto de Congonhas (22 km).

Com essa distância em mente, chegamos ao combustível. Considerando o preço médio da gasolina em São Paulo de R$ 6,17 por litro, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis em 11 de março de 2026, se o motorista percorre 22,5 km por dia no trajeto casa-trabalho, um tanque seria suficiente para cerca de 33 dias de deslocamento.

Dividindo o valor total do abastecimento (R$ 320,84 para um tanque) por esse número de viagens, o custo diário apenas com combustível fica em aproximadamente R$ 9,73 para ir e voltar do trabalho.

Mas a gasolina está longe de ser o único gasto de quem tem carro. Em uma cidade como São Paulo, o estacionamento pode facilmente custar cerca de R$ 300 por mês, o equivalente a cerca de R$ 10 por dia. O seguro anual para um veículo desse tipo gira em torno de R$ 3.474,20, o que representa aproximadamente R$ 289 por mês ou R$ 9,65 por dia.

Há também a manutenção. Considerando revisões e eventuais reparos ao longo do ano — para um carro que roda cerca de 15 mil km anuais — é possível estimar um gasto de cerca de R$ 1.000 por mês, ou R$ 33,33 por dia. Esse cálculo não inclui itens como troca de pneus, que costumam ocorrer a cada 30 mil ou 40 mil km e podem custar cerca de R$ 1.000 o par.

Outro ponto muitas vezes ignorado é a depreciação. Um carro perde valor ao longo do tempo, e isso também entra na conta do custo de propriedade. De acordo com a própria Fipe, a queda de valor estimada de um Polo Track ao passar de três para quatro anos de uso é de cerca de 6,3%. Na prática, isso significa uma perda de aproximadamente R$ 4.352 no período de um ano — ou cerca de R$ 362,67 por mês, o equivalente a R$ 12,09 por dia.

Por fim, entram os impostos obrigatórios. O IPVA em São Paulo corresponde a 4% do valor do veículo. Para um carro de R$ 69.484, isso significa R$ 2.779,36 por ano, ou cerca de R$ 231,61 por mês ou R$ 7,72 por dia. Somado ao licenciamento anual de R$ 174,08, o custo médio diário com taxas e impostos chega a cerca de R$ 8,20.

Quando todos esses gastos são colocados na ponta do lápis, considerando gasolina, estacionamento, seguro, manutenção, depreciação e impostos, no fim das contas, ir e voltar do trabalho de carro pode chegar a aproximadamente R$ 83 por dia.

E apps de corrida?

Partindo da mesma distância de cerca de 11 km, o equivalente ao Theatro Municipal de São Paulo e o Aeroporto de Congonhas, em condições normais, esse trajeto custa aproximadamente R$ 65 na corrida por aplicativo, o que significa que, para ir e voltar do trabalho, o gasto diário chegaria a cerca de R$ 130 ida e volta.

O estudo considera ainda que, caso haja aumento no preço da gasolina, esse valor pode subir entre 10% e 15%, elevando a corrida para algo em torno de R$ 74,75 por trecho, ou R$ 149,50 no trajeto completo de ida e volta.

Dependendo da modalidade escolhida dentro do aplicativo (carro maior, categoria mais confortável), os preços também podem variar, alcançando até R$ 116 por viagem, o que representaria R$ 232 no percurso diário.

Em situações específicas, como chuva, horários de pico ou alta demanda, entra em cena a chamada tarifa dinâmica, que pode elevar o valor em até 70%. Nesse contexto, a mesma corrida poderia custar entre R$ 110,50 e R$ 197,20 por trecho, chegando a algo entre R$ 221 e R$ 394,40 para ir e retornar.

Aluguel de carro pode ser um meio-termo

No cenário em que o deslocamento é feito com carro alugado, o cálculo parte da diária cobrada pelas locadoras. Considerando o valor mais baixo para se alugar um carro, de R$ 88, e a incidência de 12% de impostos — além da premissa de locação em loja física e com quilometragem livre — a diária sobe para R$ 98,56. Esse valor, porém, ainda não inclui o combustível.

Mantendo a mesma referência de trajeto adotada no estudo, de aproximadamente 22 km por dia, com a gasolina a R$ 6,17 por litro, o gasto com combustível seria de aproximadamente R$ 9,44 por dia. Somando aluguel e abastecimento, o custo total diário chega a R$ 108 ida e volta.

Mesmo com uma eventual alta de 15% no preço da gasolina, o impacto sobre o valor final seria relativamente pequeno, já que o combustível representa parcela reduzida do total. Nesse caso, o custo diário subiria cerca de 1,31%, para aproximadamente R$ 109,42.

Ainda assim, o estudo destaca que o preço do aluguel de veículos não depende apenas do combustível: ele é influenciado por fatores como custo de aquisição da frota, juros, valor residual do carro, seguro, manutenção, taxa de ocupação, sazonalidade e concorrência.

Nesse contexto, caso a gasolina suba e aumente a demanda por modelos mais econômicos, as diárias poderiam também sofrer reajustes estimados entre 5% e 8%, refletindo mudanças no mercado de locação.

No fim, o que vale mais?

Considerando os resultados do carro próprio, da viagem por aplicativos e do aluguel de veículo, os números mostram diferenças relevantes entre as opções.

No caso do carro próprio, o custo diário estimado para ir e voltar do trabalho ficou em R$ 83, já incluindo combustível, seguro, manutenção, impostos, estacionamento e depreciação.

Nas corridas por aplicativo, o valor pode variar bastante: em condições normais, a ida e volta custariam cerca de R$ 130, mas, com aumentos de tarifa, pode oscilar entre aproximadamente R$ 149,50 e R$ 394,40, dependendo de reajustes no combustível, categoria escolhida e tarifa dinâmica.

Já no aluguel de automóvel, o custo diário calculado foi de cerca de R$ 108, considerando diária com impostos e combustível.

Como a gasolina pode subir?

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, explica que o preço dos combustíveis é determinado primariamente pelo custo repassado pela Petrobras (referência), pelas margens de refino e pelos tributos que incidem sobre gasolina, diesel e etanol, além de fatores como câmbio, estrutura logística e capacidade de refino doméstica.

“Choques de oferta em grandes produtores ou regiões estratégicas, alterações na demanda global, mudanças nos estoques de petróleo e riscos geopolíticos tendem a ser incorporados rapidamente nas cotações do petróleo Brent e do WTI, que servem de referência para os preços finais no varejo”, explica.

Um exemplo é o atual confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã. Com o conflito atingindo o Estreito de Ormuz (por onde passa cerca de 25% da produção mundial de petróleo), o prêmio de risco embutido nas cotações internacionais do petróleo bruto se elevaram significativamente, refletindo temores de interrupção de oferta, o que impulsionou os preços do Brent e de derivados globalmente.

“Isso começou a pressionar os preços da gasolina e do diesel em diversos mercados, inclusive com aumentos já detectados nos Estados Unidos e início de repasse a mercados consumidores como o brasileiro”, diz Lima.

Como resultado, a alta persistente dos combustíveis pode reconfigurar a relação dos consumidores com o transporte motor-dependente. O custo total de propriedade de um veículo próprio pode se elevar, ou haver a absorção do impacto nas tarifas dos apps de corrida e aluguéis. Por isso seria fundamental uma reorganização do orçamento familiar em relação aos meios de transporte.

Acompanhe tudo sobre:CarrosCombustíveisGasolinaUber99taxis

Mais de Invest

Fim da taxa das blusinhas preocupa indústria calçadista, diz CFO da Grendene

Comprei com taxa das blusinhas, regra mudou, mas meu pedido está a caminho: e agora?

Sites fora do Remessa Conforme estão isentos da 'taxa das blusinhas'?

Ibovespa perde os 180 mil pontos e dólar ultrapassa R$ 4,90: o que faz preço hoje?