Investir no exterior não é comprar imóvel em Miami, diz CFP

Para planejador financeiro, investir no exterior não é para qualquer um, e diversificar lá fora é mais do que apenas comprar uma casa nos Estados Unidos

	Piscina em condomínio em Miami: imóveis podem concentrar demais o investimento lá fora
 (Divulgação)
Piscina em condomínio em Miami: imóveis podem concentrar demais o investimento lá fora (Divulgação)
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Julia WiltgenPublicado em 12/05/2014 às 16:46.

São Paulo – Os brasileiros estão cada vez mais olhando para o investimento no exterior e para a possibilidade de comprar imóveis fora. Mas é preciso ter cuidado: o ganho com aplicações financeiras e imóveis pode ser ilusório, e esse tipo de investimento não é para todo mundo.

Em palestra no 5º Seminário IBCPF de planejamento financeiro pessoal na última sexta-feira, em São Paulo, o responsável pela área de investimentos do Itaú Private Bank Charles Nogueira Ferraz disparou:

“Para o investidor que está pensando em investir globalmente, a melhor estratégia não é comprar um apartamento em Miami”.

Investir no exterior pode fazer sentido para quem tem uma grande fortuna para diversificar ou para quem tem objetivos no exterior – como morar ou estudar fora, ainda que temporariamente.

Afinal, a economia brasileira vive um momento difícil, uma crise de produtividade, os riscos de uma desaceleração chinesa e uma inflação persistente.

Por outro lado, segundo os planejadores financeiros presentes na palestra, o investidor brasileiro precisa ter em mente que, por ora, o CDI – taxa de juros que baliza as aplicações de renda fixa conservadora, e que se aproxima da taxa básica de juros da economia – ainda ganha de boa parte das aplicações no exterior, notadamente aquelas dos países desenvolvidos.

Além disso, há os riscos do câmbio. É possível ganhar lá fora e perder tudo numa eventual conversão para reais. É por isso que o investimento no exterior depende muito dos objetivos e do patrimônio do investidor.

Hoje, as duas formas mais acessíveis de investir no exterior são os fundos multimercados que destinam parte da carteira a investimentos lá fora ou aplicam em estruturas que replicam o desempenho de investimentos no exterior; e a compra de imóveis em outros países, como os EUA.

Em entrevista a EXAME.com, Charles Nogueira Ferraz, que também é planejador financeiro certificado (CFP) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF), falou sobre sua opinião sobre investir em imóveis fora, sobre para quem é o investimento no exterior e os riscos dessa prática. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

EXAME.com - Quais devem ser as principais motivações para um investidor pessoa física começar a investir no exterior, sem que ele seja, necessariamente, do segmento Private?

Ferraz – Se o investidor tem planos de estudar fora ou mandar o filho para estudar fora algum dia pode fazer sentido ter uma poupança alocada no exterior. O desafio é que esse investidor vai continuar olhando para o retorno do CDI [que pode frequentemente ser mais alto que o retorno lá fora].

A concentração em CDI para investimentos de longo prazo foi uma estratégia bem-sucedida no passado, principalmente para quem tem renda gerada no Brasil. Mas a economia brasileira pode não se sair bem no futuro.

O importante é que, ao montar uma carteira de investimentos, o investidor tenha objetivos claros e que não fique tentando operar o mercado. É melhor ter uma assessoria profissional.

EXAME.com – Qual a sua opinião sobre o investimento em imóveis no exterior, agora que tantos brasileiros compraram apartamentos em Miami e outras cidades onde há estratégia de vendas especialmente voltada para brasileiros?

Ferraz – Ao fazer um investimento, é preciso deixar a emoção de lado. A compra de um apartamento em Miami meio que confunde a emoção com a decisão de investimento. Não é que não se possa comprar um apartamento em Miami, mas não se deve misturar as coisas.

Se a intenção é investir para o longo prazo, comprar um apartamento em um prédio é concentrar demais os investimentos.

Além disso, muita gente compra imóvel lá fora sem ter noção das regras locais. Por exemplo, estrangeiros devem pagar 40% de imposto sobre a herança nos Estados Unidos.

As questões tributárias são as que mais complicam nos investimentos no exterior, principalmente porque o investidor precisa recolher o imposto de renda sobre rendimentos por conta própria.

Antes de comprar um imóvel no exterior como segunda residência, confiando na sua valorização, é importante fazer as contas de quanto se vai gastar com a manutenção do apartamento e comparar com o gasto de ficar em um bom hotel ao viajar. A segunda opção pode fazer mais sentido.

EXAME.com – Então quais seriam os melhores veículos para se investir no exterior, para quem o desejar?

Ferraz – Qualquer brasileiro pode abrir uma conta em uma instituição financeira no exterior para investir diretamente, mas dependendo do montante a ser investido, não vale a pena por causa dos custos.

Mas está aumentando o espaço para os fundos brasileiros investirem no exterior. Há os fundos multimercados que investem parte do patrimônio fora.

É importante lembrar que as alternativas de investimento dentro do Brasil também melhoraram bastante nos últimos tempos. Hoje o investidor pessoa física tem acesso às NTN-Bs [títulos do Tesouro Nacional] que pagam um pouco acima da inflação no longo prazo, apesar de oscilarem muito no curto prazo.

Há também as debêntures de infraestrutura, que têm um rendimento semelhante ao das NTN-Bs, mas com isenção de imposto de renda. Só precisa ir com calma, tomar cuidado com o emissor e diversificar.

Mesmo os fundos multimercados e fundos de ações hoje em dia têm gestores muito mais qualificados no Brasil. Só é preciso ter cuidado para pôr apenas uma pequena parcela em ações. E se o objetivo de uso do dinheiro for de curto prazo, melhor deixar em caixa, em aplicações conservadoras.