Colunista da EXAME
Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 14h21.
Começo de ano é aquele momento difícil em que o brasileiro olha para a conta bancária, muitas vezes vazia, e pensa: "o que foi que aconteceu aqui? Onde foi parar meu dinheiro? E agora, o que faço da minha vida?".
A realidade é que, entre as festas de dezembro, os presentes, viagens e excessos, tudo parece justo, afinal é fim de ano. Mas a conta sempre chega — e quem a traz são os primeiros meses do ano.
Além dos gastos do fim de ano, outras despesas aparecem juntas: IPTU, IPVA, material escolar, matrículas e os boletos que ficaram para trás. Tudo ao mesmo tempo, como se fosse uma formação de paredão com combinação de votos, onde você é o alvo da casa.
Desesperador? Pode ser. Mas entrar em pânico não vai resolver. O que ajuda é entender o que a pesquisa na área nos mostra.
O trabalho de Thaler e Sunstein em Nudge e estudos sobre "mental accounting" indicam que a maneira como categorizamos e planejamos nossas despesas influencia diretamente nossa capacidade de lidar com elas.
O começo do ano não precisa e não deve ser um período de sufoco. Com o passo a passo certo e dedicação, esses primeiros meses podem ser o momento em que você retoma o controle e adquire sua saúde financeira.
Parece simples, mas muita gente não sabe por onde começar. A resposta é direta: coloque no papel absolutamente tudo o que precisa ser pago nos próximos 60 dias.
Parcelas do cartão de crédito, boletos pendentes, IPTU, IPVA, gastos com escola. Tudo mesmo, sem exceção.
Muita gente evita esse exercício porque dói encarar a realidade, ou porque acha que só métodos sofisticados trazem resultados. Mas às vezes o simples é o que funciona.
Pesquisas em finanças comportamentais mostram isso com clareza: a aversão à informação financeira negativa, documentada em estudos como os de Karlsson, Loewenstein e Seppi, só piora a situação.
Você precisa saber exatamente quanto você deve e para quando é o vencimento. É isso que possibilita negociar prazos, priorizar pagamentos e evitar juros desnecessários — e muitas vezes abusivos.
Conseguiu mapear sua situação? Independentemente de quão desesperador pareça, agora vem o segundo passo: separar o urgente do importante.
O desafio aqui é que tudo parece urgente. Mas calma.
Nem toda conta do início do ano precisa ser paga à vista, e nem toda conta parcelada é uma armadilha. É preciso ser estratégico.
IPTU e IPVA, por exemplo, costumam oferecer descontos significativos para pagamento à vista, às vezes superiores a 10%. Se você fez uma reserva de emergência e tem esse dinheiro disponível, pode valer a pena.
Mas se o dinheiro está curto (a realidade da maioria), parcelar essas despesas e manter um fluxo de caixa saudável ao longo dos meses é uma decisão racional. Não é derrota.
Pagar à vista para ter desconto e deixar outras dívidas de lado pode custar muito mais caro no fim das contas, por conta dos juros acumulados.
Mas existe um segredo para decidir o que fazer? Sim: fazer a conta.
Qual é o real custo de parcelar versus o real benefício de manter liquidez? Parece coisa de economista, mas é o que qualquer pessoa pode — e deveria — fazer antes de decidir.
Definiu o que é urgente e o que é importante? Agora vem o terceiro passo: criar um plano de recuperação para os próximos três meses.
O início do ano é o período mais pesado, mas os meses seguintes podem ser aliados se você usar esse tempo a seu favor.
Estabeleça um teto de gastos variáveis reduzido para este período. Por que variáveis? Porque os gastos fixos (aluguel, parcela do seguro do carro, conta de água, luz, internet) são difíceis de mexer no curto prazo.
Já os variáveis, como aplicativos de transporte e delivery, você consegue controlar.
Corte o supérfluo temporariamente e direcione qualquer sobra para quitar os compromissos mais caros, especialmente aqueles com juros altos, como o rotativo do cartão de crédito. Isso vira bola de neve rápido.
A literatura sobre endividamento mostra que consumidores que adotam estratégias ativas de quitação de dívidas têm menor probabilidade de entrar em inadimplência prolongada.
Não é sobre sofrer. É sobre ter um plano claro e executá-lo com consistência.
O começo do ano também é o momento ideal para criar um mecanismo de defesa a longo prazo. Não apenas para a recuperação da sua saúde financeira, mas uma organização pontual já para o próximo fim de ano.
Fique atento: se essa situação de sufoco se repetir, é triste, mas também um sinal de que falta uma reserva específica para despesas sazonais — aquelas de períodos com gastos naturalmente mais elevados.
Qual seria a solução neste caso? Simples.
Ao longo do ano, busque sempre separar um valor mensal, mesmo que pequeno, exclusivamente para os gastos de dezembro e do início do ano seguinte. Pense nisso como um "13º planejado" que você constrói sozinho.
Isso ajuda a organizar sua vida financeira e torna o começo do ano leve, não assustador.