Para o investidor bilionário Ray Dalio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode causar uma "guerra de capitais" global — e transformar o dinheiro em uma "arma" usada pelos países para vencê-la.
Segundo Dalio, em vez de apenas impor tarifas ou restringir mercadorias, países agora bloqueiam investimentos, congelam ativos estrangeiros e excluem rivais de sistemas de pagamento, usando táticas típicas de uma guerra de capitais.
Na prática, isso significa questionar a confiança no dólar como moeda global. Com os Estados Unidos concentrando quase 60% das reservas cambiais globais, o risco, segundo Dalio, é que aliados e adversários deixem de comprar títulos americanos para evitar ficar vulneráveis a sanções ou confiscos.
“Do outro lado dos déficits comerciais e das guerras comerciais, há o capital e as guerras de capital”, disse Dalio à CNBC no Fórum Econômico Mundial de Davos. “Se considerarmos os conflitos, não podemos ignorar a possibilidade de guerras de capital. Em outras palavras, talvez não haja a mesma inclinação para comprar dívida americana e assim por diante.”
Esse movimento ameaça diretamente a capacidade dos EUA de financiar seu próprio déficit. Atualmente, cerca de 25% da dívida americana — estimada em US$ 38 trilhões — está nas mãos de governos estrangeiros como China e Japão. Uma reversão nesse fluxo, mesmo que gradual, pressionaria os juros e aumentaria o custo de financiamento interno.
O cenário favorece a busca por ativos alternativos. Às 5h09, no horário de Brasília, o ouro, por exemplo, era cotado a US$ 4.862,61, em alta de 2,03%.
Mas o que é uma guerra de capital?
Uma guerra de capital ocorre quando países usam o sistema financeiro como instrumento de pressão geopolítica. Em vez de atuar apenas sobre bens e serviços, como nas guerras comerciais, o foco recai sobre o fluxo de dinheiro que sustenta o comércio, o investimento e o financiamento dos Estados.
Esse tipo de conflito envolve medidas como congelamento ou confisco de ativos estrangeiros, restrições à compra de títulos públicos, bloqueio de investimentos, limitação de crédito e exclusão de países de sistemas globais de pagamento. O objetivo é reduzir a capacidade do adversário de financiar déficits, manter gastos públicos ou sustentar sua economia.
Em economias com déficits comerciais, o impacto tende a ser maior. Esses países dependem da entrada de capital externo para fechar suas contas. Quando investidores estrangeiros reduzem ou interrompem esse financiamento, o custo da dívida sobe e a estabilidade financeira fica ameaçada.
A preocupação não é nova. Dalio desenvolve essa tese desde 2018 e aprofundou o conceito no livro Principles for Dealing With the Changing World Order, publicado em 2021. A obra identifica ciclos históricos em que desequilíbrios econômicos, polarização política e conflitos militares caminham juntos e nos quais o controle sobre o capital desempenha papel central.
A ascensão de sanções como ferramenta diplomática reforça a tese. Países como Rússia, Irã e Coreia do Norte enfrentam bloqueios que vão além do comércio: incluem exclusão de sistemas de pagamento como o Swift, congelamento de reservas internacionais e restrições a investimentos. Essas medidas afetam diretamente a capacidade desses governos de operar no mercado global.
No atual ambiente geopolítico, em que as tensões entre Estados Unidos e China se intensificam e o uso estratégico do sistema financeiro se expande, a perspectiva de uma guerra de capitais pode deixar de ser teórica, de acordo com o investidor. Para Dalio, é uma repetição histórica em curso. E que pode redefinir as bases da economia global.