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Para o Santander, essas ações não estão tendo a atenção que merecem

Relatório aponta oportunidades em ações pouco acompanhadas, com fundamentos melhores do que os preços indicam

Ações neglicenciadas: Santander aponta que há pelo oito empresas que seguem com pouca atenção dos investidores (b3/Divulgação)

Ações neglicenciadas: Santander aponta que há pelo oito empresas que seguem com pouca atenção dos investidores (b3/Divulgação)

Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 06h00.

O mercado financeiro não está dando o devido valor a algumas empresas. Mesmo com bons números, geração de caixa, melhora operacional ou posição competitiva sólida, as ações de algumas companhias listadas na bolsa brasileira continuam baratas ou fora do radar dos investidores. É o que defende Aline de Souza Cardoso, estrategista institucional de ações para Brasil do Santander.

A especialista assina a terceira edição do relatório The Contrarian Investor da instituição, onde aponta que há pelo menos oito empresas que seguem com pouca atenção dos investidores, seja por terem potencial de crescimento subestimado ou pelo peso de problemas do passado, que já começam a ser superados.

O diagnóstico do banco parte de uma leitura mais ampla do cenário global. Na visão do Santander, com o dólar mais fraco, investidores passam a buscar alternativas fora dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, cresce a cautela em relação a ações de crescimento rápido, especialmente ligadas à inteligência artificial.

Nesse contexto, empresas mais baratas e com geração de caixa previsível ganham espaço, e o Brasil aparece como um dos mercados que tendem a atrair mais capital estrangeiro.

No mercado doméstico, o Santander observa que o desempenho recente da Bolsa tem sido sustentado principalmente pelos investidores gringos, enquanto os fundos locais seguem registrando resgates, ainda que em ritmo mais moderado.

Apesar disso, o banco destaca que, dentro do Brasil, a preferência continua sendo por ações que estão crescendo e aquelas que já vêm se valorizando na Bolsa, mesmo diante da volatilidade de curto prazo.

A leitura da curva de juros reforça esse cenário. O mercado passou a precificar menos de 240 pontos-base de cortes na taxa até 2026, ante cerca de 350 pontos-base anteriormente, o que sugere expectativas mais contidas de flexibilização monetária.

Com a valorização do real, o Santander vê espaço para o fechamento da curva de juros, movimento que tende a favorecer ações mais ligadas ao crescimento doméstico.

Outro sinal considerado positivo é a melhora da amplitude do mercado. Com o retorno do desempenho de ações de valor nas últimas semanas, cerca de 69% dos papéis do Ibovespa já negociam acima da média móvel de 200 dias. Para o banco, isso indica uma recuperação mais saudável e disseminada do índice, sustentada por um conjunto mais amplo de ações, e não apenas por poucos líderes.

Orizon, Suzano e Totvs: as subvalorizadas

É nesse contexto que o Santander revisita suas apostas fora do consenso. No relatório, a estrategista organiza as recomendações em diferentes categorias, com destaque para empresas consideradas subvalorizadas ou negligenciadas pelo mercado.

Entre as chamadas "subvalorizadas com potencial de crescimento", o banco aponta Orizon (ORVR3), Suzano (SUZB3) e Totvs (TOTS3).

No caso da Orizon, a avaliação é de que o mercado ainda não precificou adequadamente a combinação de crescimento com geração de caixa defensiva.

"Consideramos a recente aquisição da Vital como transformadora: ela posiciona a Orizon como a maior empresa dentro de nossa cobertura de serviços públicos e uma das consolidadoras mais bem posicionadas em um mercado de tratamento de resíduos privado ainda incipiente, com concorrência limitada", diz Cardoso.

A estrategista também destaca a capacidade da empresa de ampliar sua atuação em segmentos de maior margem, como gestão integrada de resíduos, biometano, biogás e créditos de carbono.

A Suzano, por sua vez, segue sendo negociada sob uma narrativa pessimista ligada ao setor de celulose, especialmente em relação à China e ao suposto excesso de capacidade.

O Santander avalia que essas preocupações ignoram restrições estruturais de oferta, custos marginais elevados e a saída de produtores menos eficientes. Além disso, o crescimento da demanda por papéis tissue, fluff e especiais, somado aos recentes aumentos de preços anunciados pela companhia, reforça a tese de que as expectativas do mercado permanecem excessivamente conservadoras.

"A escala, a liderança em custos e a disciplina de fornecimento da Suzano a posicionam como uma concorrente para capturar o próximo reequilíbrio do mercado", afirma no documento.

Já a Totvs aparece como "um caso em que a execução continua superando a percepção dos investidores". Apesar de muitos enxergarem a empresa como madura e cara, o banco destaca a aceleração do crescimento dos lucros, a expansão das margens e a forte geração de caixa livre.

O aumento da participação das receitas recorrentes e a eficiência no reinvestimento sustentam a avaliação de que o preço atual ainda é razoável, especialmente diante das oportunidades de crescimento e da expectativa de aprovação da aquisição da Linx.

Empresas negligenciadas pelo mercado

O relatório também chama atenção para empresas classificadas como "não acompanhadas" pelo mercado, muitas delas de menor capitalização ou com histórico de execução problemático.

Nesse grupo estão Brava (BRAV3), Cogna (COGN3), IRB (IRBR3), Randon (RAPT4) e Ser Educacional (SEER3).

A Brava, segundo o Santander, continua subvalorizada por dúvidas em relação à execução, mas a recente mudança no comando executivo tende a melhorar o alinhamento estratégico, com foco em desalavancagem e geração de valor ao acionista. O banco projeta uma redução relevante do endividamento até 2026, apoiada por forte fluxo de caixa operacional.

"Esperamos uma desalavancagem significativa até 2026, apoiada por um fluxo de caixa operacional de cerca de US$ 1 bilhão, mais do que suficiente para financiar despesas de capital de cerca de US$ 530 milhões e despesas financeiras anuais de cerca de US$ 190 milhões", afirma Cardoso.

No caso da Cogna, a análise aponta uma recuperação gradual após anos de frustrações operacionais. A diversificação entre ensino superior e educação básica reduz riscos regulatórios, enquanto a melhora no desempenho da Vasta e da Saber deve sustentar revisões positivas de lucro, em um contexto de avaliação considerada atraente.

A IRB ainda carrega os efeitos reputacionais da crise de 2020, mas o Santander destaca avanços relevantes em governança e disciplina operacional. A normalização do balanço, a eliminação de prejuízos fiscais acumulados e a perspectiva de retomada de dividendos reforçam a tese de recuperação gradual da companhia.

A Randon é descrita como um caso de profundo valor, com fundamentos que não se refletem no preço das ações. Apesar da baixa liquidez e das incertezas setoriais, o banco vê potencial relevante de geração de caixa, apoiado por redução de custos, melhorias operacionais e menor necessidade de investimentos.

Já a Ser Educacional aparece como uma das apostas de maior convicção dentro desse grupo. O Santander destaca o momentum positivo dos lucros, a forte geração de fluxo de caixa, a baixa alavancagem e uma política de dividendos atrativa, além de uma avaliação considerada barata frente às perspectivas para os próximos anos.

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