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Gringos compram Brasil esperando corte de juros — e se a Selic não cair?

Relatórios de bancos já começaram a recalcular rotas, adiando a previsão do início dos cortes da Selic de janeiro para março de 2026; mercado está mais cético quanto à queda dos juros

A expectativa de corte de juros é central para o investidor estrangeiro porque afeta diretamente o preço dos ativos.

A expectativa de corte de juros é central para o investidor estrangeiro porque afeta diretamente o preço dos ativos.

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 05h58.

O investidor estrangeiro resolveu apostar alto no Brasil, agindo como quem espera, ansiosamente, pelo clímax de um filme: a queda dos juros. O grande ponto é que essa empolgação toda parece estar ignorando que o enredo pode não terminar com a Taxa Selic em patamares tão menores assim e algumas projeções, dos mais céticos, já apontam para essa possibilidade.

A expectativa de corte de juros é central para o gringo porque pode afetar, diretamente, o preço dos ativos, o comportamento do câmbio e o diferencial dos juros em relação a outras economias. Se esse corte não vier — ou ocorrer em menor intensidade —, o risco é de frustração, com possível impacto sobre o câmbio, a curva de juros e o fluxo de capitais.

Em 2025, o investidor estrangeiro reverteu a debandada vista em 2024, quando retirou mais de R$ 24 bilhões do mercado brasileiro. O saldo do ano passado fechou no azul, com uma entrada líquida de R$ 25,5 bilhões na bolsa de valores brasileira (B3). Este ano, até o último dia 21 de janeiro, o saldo estava positivo em R$12,3 bilhões.

O movimento tem provado que o gringo voltou a ver o Brasil como uma peça relevante na alocação dos mercados emergentes.

A aposta dos juros e o risco de frustração

Um dos grandes combustíveis dos estrangeiros no país é a expectativa de que o Banco Central (BC) comece a baixar os juros logo, além da confiança na economia local e um movimento global de alocação em emergentes. Entretanto, o especialista em investimentos do grupo Axia Investing, Felipe Sant'Anna, está cético quanto à Selic e afirma que não vê um corte acontecendo tão cedo. O problema, segundo ele, é o risco de uma política fiscal expansionista por parte do governo em pleno ano eleitoral.

"Para mim, a Selic se mantém em 15% e, caso o Banco Central inicie um teste de 25 pontos-base ou meio ponto percentual, eu não acredito na continuidade desse ciclo de queda", detalha.

"Tem gente que acha que, ao cortar meio ponto, em todas as próximas reuniões nós cortaremos meio ponto até 10%. (...) Eu posso ser voto vencido, mas não acredito nisso. (...) E, se o governo não se comportar do ponto de vista fiscal, a gente ainda corre o risco de ver, até o final do ano — a depender dos dados que serão divulgados —, um aumento nesse prêmio", acrescenta Sant'Anna.

Analistas recalculam rota

Inter e Itaú BBA já começaram a recalcular rotas, adiando a previsão do início dos cortes de janeiro para março de 2026. A justificativa é que a inflação está desacelerando de um jeito muito preguiçoso e os riscos fiscais continuam acesos, segundo a economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória.

E mesmo quando as quedas começarem, a toada será lenta, com a Selic terminando 2026 em 12,75% e chegando a 11,75% apenas no fim de 2027, na previsão do BBA. A estratégia atual do Comitê de Política Monetária (Copom) está funcionando — com moderação do consumo e controle da inflação —, mas exige cautela para não afetar a moeda com cortes muito rápidos, afirma.

O Inter, inclusive, subiu sua estimativa da Selic para o fim de 2026, de 12% para 12,5%, prevendo que a economia continuará resiliente demais para permitir um alívio maior. "O cenário de maior incerteza deve impedir uma reancoragem mais rápida das expectativas de inflação e, com o tom de maior cautela adotado pelo Copom, vemos menor espaço para cortes na Selic."

Além disso, mesmo com o eventual início do ciclo de cortes, o Itaú BBA ressalta que a Taxa Selic permanecerá em patamar contracionista, ou seja, continuará atuando para frear a economia, apenas com um "grau de restrição" menor do que o atual. A percepção é de um BC que prefere uma queda gradual para não desestabilizar a moeda ou interromper o processo de controle inflacionário.

Ano de eleição e fluxo de gringos

Um dos grandes medos dos especialistas é o comportamento das contas públicas agora que as eleições batem à porta. O ano eleitoral costuma ser aquele período em que os problemas são "varridos para 2027", com aumento de benefícios e crédito subsidiado para estimular a economia no curto prazo, de acordo com Sant'Anna.

Caso o corte de juros no país seja menor do que o mercado espera, o especialista de renda variável do Inter, Matheus Amaral, considera que isso poderá atuar como um limitador para aproveitar os ventos favoráveis da alocação global na bolsa de valores brasileira. O Ibovespa surfou bem nesse movimento até agora, batendo recorde atrás de recorde e chegando aos 180 mil pontos.

Apesar dos juros serem um possível entravo, Amaral projeta que o fluxo positivo de capital estrangeiro, observado desde o final do ano passado, deve continuar sendo acompanhado. "A entrada que temos visto em bolsa não vem exclusivamente por conta da queda de juros, mas pelo movimento de desvalorização do dólar globalmente", detalha Amaral.

No buy side, o sócio da Apex Capital, Fabio Spinola, acredita que há chances, sim, de 2026 terminar com a Selic um pouco maior do que se previa anteriormente.

"Vejo dois elementos como riscos para não cortar os juros: a política fiscal ou um revés no fluxo externo, pala razão que for, o que faria com o que o real se depreciasse, já que isso afeta diretamente o Orçamento e nossa política monetária", diz o gestor.

"Mas vejo também o 'risco positivo' desse fluxo continuar e haver espaço para continuar cortando". A Apex calcula que os juros vão cair um total de 2,5 pontos percentuais este ano. "É o que está precificado na curva, mas pode ir além disso, a 3, 3,5 pontos, o que obviamente é bom para o lucro das empresas", diz Spinola.

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