Comprado em emergentes: estrangeiro topa receber prêmios menores (Sertac Kayar/Reuters)
Repórter de Invest
Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 06h00.
Os investimentos de estrangeiros em dívidas de países emergentes têm alcançado os patamares mais otimistas em 13 anos, segundo análise do JPMorgan Chase & Co, divulgada pela Bloomberg. Apesar dos eventuais riscos geopolíticos, os estrangeiros vêm demonstrando confiança em títulos soberanos fora das super potências.
O prêmio de risco, isto é, a diferença entre o rendimento de um título de dívida emergente e o dos títulos do tesouro americano (treasuries) caiu para o nível mais baixo desde janeiro de 2013, indo para cerca de 2,2 pontos percentuais em 2025. Quanto menor o spread, menor é a percepção de risco desses ativos por parte do investidor.
O movimento é apoiado pela maior confiança fiscal, reestruturação de dívidas e pelos cortes de juros do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), o que por sua vez diminui a rentabilidade dos treasuries.
O crescimento econômico dos países em desenvolvimento deve superar o de nações de "primeiro mundo" em pelo menos, 2,4 pontos percentuais em 2025 e em 2026, de acordo com reportagem da Bloomberg. Enquanto economias em desenvolvimento agora apresentam superávits em conta corrente, as nações mais ricas estão em déficit.
“Embora os spreads estejam apertados, se o Fed continuar cortando as taxas, os ativos de longa duração dos mercados emergentes ainda poderão ter ganhos de capital à medida que os rendimentos caem”, acrescentou o gestor de recursos da William Blair, Luis Olguin, à agência de notícias.
Os cortes e a expectativa de novos movimentos como este nos juros americanos contribuíram, ainda, para o enfraquecimento do dólar globalmente, o que, para o especialista de investimentos de Research e Estratégia da Bloxs, Gabriel Santos, indica que o capital do mundo tem migrado para onde a remuneração é robusta.
No cenário brasileiro, o movimento teve suporte de uma melhora de fundamentos decorrente da “inflação mais bem-comportada”, das “reservas internacionais robustas” e da “atividade econômica resiliente”, explicou o economista e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri.
Entretanto, a maior confiança em títulos de emergentes em meio ao ambiente global mais favorável não significa, necessariamente, que os riscos fiscais ou políticos desses países desapareceram. Para Santos, a demanda elevada por esses títulos locais influi os preços dos papéis — um maior valor de face, via de regra, implica em prêmios menores, e vice-versa.
“Pela dinâmica do mercado financeiro, quando o preço do título sobe devido à alta demanda, a taxa de retorno (o prêmio) cai proporcionalmente. Portanto, o mercado está precificando o diferencial de juros atrativo, mas há uma linha tênue entre fundamentos e uma possível complacência com os riscos estruturais”, explicou.
“É menos uma melhora institucional e mais uma janela de oportunidade financeira”, adicionou Santos.
“Parece refletir muito mais um ambiente global favorável ao risco do que, propriamente, uma melhora estrutural homogênea dos mercados emergentes”, complementa o chefe de pesquisa e estratégia da HMC Capital, Rodrigo Aloi.
No ano passado, o fluxo estrangeiro ficou positivo em R$ 25,5 bilhões no mercado de ações brasileiro no ano passado, conforme relatório do Itaú BBA. Esse fluxo foi impulsionado por um forte apetite concentrado nos meses de maio e junho, que sozinhos somaram R$ 16 bilhões em entradas.
A disposição dos gringos em aportar recursos no Brasil, apesar dos riscos, fundamentou-se no desempenho superior das empresas de grande capitalização e na resiliência de setores estratégicos, como o financeiro, que liderou as altas recentes do mercado, afirmou a equipe de analistas, liderada por Daniel Gewehr.
Os ativos brasileiros foram considerados competitivos em relação a outros pares e mercados desenvolvidos, atraindo capital em busca de valorização, justamente em um cenário em que os spreads estão mais apertados.