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Como funcionam as velas que reduzem consumo de combustível dos navios da Vale

Estruturas metálicas de até 35 metros usam o vento para cortar combustível e emissões na rota Brasil–China

Velas rotativas: são estruturas cilíndricas metálicas instaladas no convés dos navios, que funcionam como um sistema de propulsão assistida pelo vento. (Leandro Fonseca /Exame)

Velas rotativas: são estruturas cilíndricas metálicas instaladas no convés dos navios, que funcionam como um sistema de propulsão assistida pelo vento. (Leandro Fonseca /Exame)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 2 de maio de 2026 às 08h00.

Quem olha de longe pode até estranhar: grandes cilindros metálicos girando no convés de navios cargueiros. Não são antenas nem elementos decorativos. Essas estruturas são velas rotativas, uma tecnologia que transforma o vento em economia de combustível e redução de emissões.

Também conhecidas como rotor sails, as velas são cilindros verticais instalados nos navios que giram sobre o próprio eixo. Diferente das velas tradicionais, não capturam o vento de forma passiva. Elas usam um princípio físico chamado efeito Magnus — o mesmo que faz uma bola de futebol “fazer curva”.

Na prática, motores elétricos fazem o cilindro girar. Quando o vento passa por ele, cria-se uma diferença de pressão entre os lados, gerando uma força que empurra o navio para frente. É essa força adicional que permite manter a mesma velocidade com menor uso do motor principal. [grifar]O objetivo não é fazer o navio andar mais rápido — mas gastar menos.

Segundo a Vale, a tecnologia pode reduzir em até 8% o consumo de combustível e as emissões de gases de efeito estufa por embarcação. Em alguns casos, esse ganho pode chegar perto de 10%, dependendo das condições de vento e da rota.

As dimensões ajudam a entender a escala. Cada vela pode ter até 35 metros de altura — o equivalente a um prédio de 10 andares — e cerca de 5 metros de diâmetro. Em alguns tipos de navios, são cinco dessas estruturas operando ao mesmo tempo.

A tecnologia começou a ser usada pela Vale em 2021 e já está presente em oito navios — cerca de 40% da frota global com esse tipo de equipamento[/grifar]. O movimento faz parte do programa Ecoshipping, que busca reduzir em 15% as emissões da cadeia logística até 2035.

A estratégia da Vale

Mais do que uma inovação isolada, as velas rotativas fazem parte de uma estratégia mais ampla. Como mostrou a EXAME, o transporte marítimo representa uma fatia relevante dos custos e das emissões da mineradora — cerca de um terço do custo total por tonelada entregue à China.

Esse peso ajuda a explicar o foco da companhia em reduzir a dependência do óleo bunker, combustível diretamente ligado ao preço do petróleo e, por consequência, à volatilidade do mercado global.

Nesse contexto, as velas entram como uma das frentes de eficiência. Mas não são a única.

Recentemente, a Vale fechou um acordo com a chinesa Shandong Shipping para afretar navios transoceânicos movidos a etanol, com entrega prevista a partir de 2029. Segundo a empresa, será a primeira vez que o etanol será usado como combustível principal em embarcações desse porte.

O potencial de redução de emissões é significativo. Considerando todo o ciclo do combustível, o etanol pode cortar até 90% das emissões de carbono em comparação com o óleo pesado, a depender da origem.

Os novos navios serão do tipo Guaibamax de segunda geração, com capacidade de até 325 mil toneladas. Além disso, serão triple fuel: poderão operar com etanol, metanol ou bunker tradicional, com possibilidade de adaptação futura para gás natural liquefeito e amônia.

A lógica é manter flexibilidade tecnológica em um momento em que ainda não há consenso sobre qual combustível vai prevalecer na transição energética.

Ao combinar o uso do vento com novas alternativas de combustível, a Vale busca reduzir a exposição a custos voláteis e melhorar a eficiência da operação.

O objetivo é atacar simultaneamente custo, emissões e risco operacional.

No fim, a estratégia reúne diferentes frentes — eficiência energética, novos combustíveis e adaptação tecnológica. Em um setor onde a distância até o cliente pesa no balanço, ganhos incrementais — mesmo que de um dígito — podem fazer diferença relevante.

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