Venezuela: Choque político reforça tese do ouro e da Aura Minerals (Sven Hoppe/picture alliance/Getty Images)
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 16h39.
O choque geopolítico do movimento dos Estados Unidos na Venezuela, com a captura do presidente Nicolás Maduro, vem reaquecendo a busca global por ativos de proteção e reforçando a estratégia do ouro como investimento atrativo, com forte momento operacional para a Aura Minerals, mineradora canadense com operações no Brasil.
Os analistas do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) estimam preço-alvo de US$ 74 para a ação da empresa, equivalente a um potencial de valorização de 48% em relação ao fechamento de ontem. A companhia negocia desde julho de 2025 ações na Nasdaq, em Nova York, e possui BDRs no Brasil (AURA33).
Nesta segunda-feira, 5, por volta das 15h15 no horário de Brasília, os papéis da Aura (AUGO) na bolsa americana subiam 6,35%, cotados a US$ 53,18 a unidade, na esteira dos últimos acontecimentos geopolíticos na América Latina.
O BTG trabalha com a previsão de que a companhia eleverá seus volumes de produção em 39% em 2026 na comparação anual, impulsionada, principalmente, pelo ramp-up do projeto Borborema, mina de ouro a céu aberto no Rio Grande do Nort. Também pela consolidação da integração e da expansão da Mineração Serra Grande (MSG), comprada em dezembro de 2025.
Para os analistas do banco, a ação dos EUA na Venezuela desencadeou uma reprecificação ampla do risco político nos mercados emergentes, em um momento em que o ambiente global já era descrito como frágil.
Todavia, a tese de investimento no ouro e, especificamente, na Aura permanece inalterada.
O modelo observado no relatório considera, também, o preço do ouro de US$ 4.000 por onça em 2026. O preço à vista do ouro já gira em torno de US$ 4.400, acima da estimativa, o que é interpretado como sinal de que o ciclo de revisões positivas do BTG para a Aura ainda não está encerrado.
No plano macroeconômico, a redução de juros, a tendência gradual de desdolarização, além de compras recorrentes de ouro por bancos centrais, em um ambiente persistente de risco geopolítico elevado, podem reforçar a tese do ouro e da própria empresa.
Os múltiplos apresentados no relatório reforçam essa leitura. A Aura poderia ser negociada a cerca de 3,9 vezes o Ebitda projetado para 2026, com um preço equivalente a 0,68 vez o valor patrimonial líquido (price to NAV), conforme o relatório.
Já o fluxo de caixa livre (free cash flow, FCF) indicaria um yield de 11%, mesmo após a inclusão dos investimentos em crescimento, além de um dividend yield considerado sustentável entre 7% e 8%, de acordo com o BTG.
O impacto do evento na Venezuela vai além do simbolismo político, pois traz novas percepções sobre a estabilidade regional, os fluxos de energia e as relações diplomáticas na América Latina, fatores que tendem a influenciar o apetite por risco de investidores globais.
Para os analistas Leonardo Correa e Marcelo Arazi, que assinam o documento, a reação imediata foi um movimento clássico de “risk-off”, com o ouro avançando cerca de 1,9%, refletindo a demanda por ativos considerados como um porto seguro.
O ouro voltou, assim, a ser o canal mais rápido e líquido para proteção de portfólios, reforçando sua função como seguro em momentos de estresse. O desempenho da Aura e do ouro está conectado a tendências amplas do mercado global.
Os analistas veem que o cenário reforça o papel do ouro não apenas como reação a eventos específicos, mas como componente central em estratégias de alocação em um mundo marcado por maior incerteza geopolítica e macroeconômica.
O suporte ao ouro não deve se limitar a uma reação pontual aos acontecimentos na Venezuela, segundo os analistas do BTG, já que a avaliação é que três forças estruturais seguem sustentando o metal precioso.
A primeira é o risco geopolítico elevado ter se tornado uma espécie de novo normal, deixou de ser um evento extremo e passou a fazer parte do cenário base, aumentando o valor de ativos usados como proteção.
A segunda é a persistente incerteza de políticas econômicas e geopolíticas nos Estados Unidos, na China e em mercados emergentes, o que reforça a demanda por ativos sem risco de crédito ou político.
Já a terceira é a mudança na construção de portfólios, com maior peso para diversificação e proteção, em detrimento de estratégias focadas exclusivamente em retorno ou crescimento.