Alfredo Menezes: previsão de Ibovespa aos 175 mil pontos no curto prazo
Repórter de Invest
Publicado em 25 de outubro de 2026 às 22h46.
Última atualização em 25 de outubro de 2026 às 23h08.
"Ela vai devolver tudo e mais um ponto." Foi assim que Alfredo Menezes, CEO da Armor Capital, resumiu sua expectativa para a bolsa brasileira (B3) após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo, 25.
Em entrevista à EXAME, durante a transmissão da apuração do segundo turno, o executivo projetou um cenário de forte volatilidade para o primeiro pregão após o 2º turno das eleições, com pressão sobre o Ibovespa, valorização do dólar e alta dos juros futuros.
Na avaliação de Menezes, o resultado eleitoral pode provocar uma reversão dos ganhos acumulados pelos ativos brasileiros entre o 1º e o 2º turno, período em que parte do mercado financeiro passou a considerar uma maior possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL).
Entre o último pregão antes do 1º turno, 2, e o último dia de negociação antes das eleições do 2º turno, ou seja, a sexta-feira, 23, o Ibovespa acumulou valorização de quase 7%, chegando a 205.082,56 pontos e ultrapassando, pela primeira vez, a marca dos 200 mil pontos.
O movimento mais expressivo foi no dia 5, primeiro pregão após a primeira votação, quando o Ibovespa disparou 7,70%, aos 206.911,89 pontos, estabelecendo recordes intradiário e de fechamento. O volume financeiro chegou a R$ 79,3 bilhões, cerca de três vezes o registrado em um pregão habitual.
A valorização foi intensa em setores sensíveis aos juros, como varejo e construção civil. Entre os dois turnos, Magazine Luiza (MGLU3) avançou 66,75%, enquanto MRV (MRVE3) subiu 46,18% e Smart Fit (SMFT3) ganhou 41,35%.
Mas o executivo trabalha com a possibilidade de o dólar alcançar a faixa de R$ 5,60 a R$ 5,65, enquanto o Ibovespa poderá perder facilmente o patamar dos 200 mil pontos. "Eu estou trabalhando com um cenário de índice de 175 mil, 180 mil para o ano que vem", disse.
A projeção de Menezes representa uma queda potencial de cerca de 12% a 15% em relação aos 205.082,56 pontos registrados no fechamento de sexta-feira, 23. O recuo, caso se concretize, apagaria não apenas a valorização acumulada entre os dois turnos, mas também parte dos ganhos anteriores.
Segundo o CEO da Armor Capital, a principal preocupação dos investidores está relacionada à trajetória das contas públicas. Ele diz que as propostas de ampliação de gastos podem tornar mais desafiadora a condução da política fiscal nos próximos anos.
Menezes ressaltou, porém, que essa preocupação não está restrita ao presidente reeleito. Os dois candidatos apresentaram propostas de despesas sem indicar claramente as respectivas fontes de financiamento.Para Menezes, a reação do câmbio deve ser um dos primeiros reflexos do resultado eleitoral. O executivo considera possível uma valorização expressiva da moeda americana diante da revisão das expectativas dos investidores.
O gestor mencionou a possibilidade de uma desvalorização do real de 10% a 12% no curto prazo, movimento que poderia levar o dólar à região de R$ 5,60.
Apesar dessa projeção, ele avalia que o câmbio poderá apresentar maior capacidade de recuperação do que outros ativos brasileiros, em razão da situação das contas externas do país.
Na visão de Menezes, o desempenho das exportações, especialmente de petróleo, contribui para a entrada de dólares na economia e pode ajudar a limitar a desvalorização do real após uma reação inicial mais intensa.
O executivo também chamou atenção para os efeitos de uma eventual alta do dólar sobre a inflação. Para ele, a valorização da moeda americana poderia encarecer produtos importados e ampliar as pressões sobre os juros.
Embora projete volatilidade para o dólar e a bolsa, Menezes considera que os títulos prefixados de longo prazo podem enfrentar os efeitos mais intensos de uma eventual revisão das expectativas econômicas, o que pode levar os investidores a exigirem taxas mais altas para financiar dívidas do governo.
Menezes citou ainda a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB) e o patamar dos juros reais como fatores que merecem atenção, bem como a composição de um Congresso Nacional de maioria oposicionista.
Para o gestor, medidas que sinalizem uma trajetória mais sustentável das contas públicas poderão ser importantes para reduzir as incertezas e influenciar o comportamento dos ativos financeiros.Ele fez, inclusive, uma distinção entre os títulos prefixados e aqueles atrelados à inflação. Os prefixados de longo prazo apresentam maior vulnerabilidade a uma eventual elevação das taxas, enquanto os papéis indexados ao IPCA também incorporam a variação da inflação à remuneração.
A eventual valorização da moeda americana também pode favorecer companhias brasileiras com receitas relevantes em dólar, especialmente as exportadoras. Menezes destacou a Vale e empresas do setor de papel e celulose como exemplos de companhias que poderiam se beneficiar desse movimento cambial.
O executivo ponderou, entretanto, que o desempenho dessas empresas pode não ser suficiente para compensar uma eventual queda mais ampla do Ibovespa.
No caso da Petrobras, Menezes avaliou que a companhia poderia se beneficiar do câmbio por sua atuação no mercado internacional de petróleo. Por outro lado, ressaltou que sua condição de estatal acrescenta fatores específicos à avaliação dos investidores.
O gestor ressalta que a intensidade e a duração desses movimentos dependerão das próximas sinalizações econômicas do governo, especialmente em relação à política fiscal e à trajetória da dívida pública.
*Colaboraram Mitchel Diniz e Clara Assunção