Ações chinesas perderam US$ 2,4 trilhões em valor de mercado desde o pico recente (Imagem gerada por IA/Exame)
Editor de Invest
Publicado em 22 de outubro de 2026 às 09h09.
Em julho, a fabricante de chips de memória CXMT estreou na Bolsa de Xangai com alta de 466% e virou a empresa mais valiosa da China continental. Três meses depois, a euforia com a inteligência artificial deu lugar a uma das piores sequências da bolsa chinesa em anos.
O CSI 300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, fechou em queda de 1,8% nesta quinta-feira, 22, e passou a acumular perda de 20% desde a máxima de junho. É a marca que, por convenção do mercado, caracteriza um bear market. Desde o pico recente, US$ 2,4 trilhões em valor de mercado desapareceram das ações negociadas na China continental, segundo levantamento da Bloomberg.
Em Hong Kong, os índices das grandes empresas chinesas e de tecnologia também despencaram. O CSI 300 e o Hang Seng China Enterprises acumulam perdas de mais de 10% em 2026 e estão entre os piores índices de ações do mundo no ano, enquanto a maior parte das bolsas globais sobe.
A queda marca uma virada brusca em relação ao rali que começou no fim de 2024. Em setembro daquele ano, um amplo pacote de estímulos do governo chinês levou o CSI 300 à maior alta diária desde 2008. Depois vieram as apostas em inteligência artificial, embaladas pelo otimismo com os avanços da DeepSeek e pelo apoio do Estado ao setor.
As avaliações subiram rápido. Em agosto, o índice Star 50, que reúne as maiores empresas de tecnologia de Xangai, acumulava alta de 29% no ano, com as ações negociadas a mais de 150 vezes o lucro. Quando a onda global de vendas de ações de tecnologia chegou, o setor ficou exposto.
O Hang Seng Tech, índice de tecnologia de Hong Kong, cai 31% no ano e está perto de apagar todos os ganhos acumulados desde o pacote de setembro de 2024. Startups queridinhas dos investidores e gigantes como o Alibaba estão entre as maiores perdedoras, à medida que cresce a desconfiança sobre a demanda futura por IA e sobre a capacidade de os investimentos bilionários das empresas gerarem retorno.
"Embora a tecnologia chinesa seja negociada com um desconto significativo em relação aos pares globais, o crescimento fraco dos lucros e a possível diluição podem manter as ações andando de lado ou em queda sem um catalisador relevante", disse à Bloomberg Jeremy Tan, CEO da Tiger Fund Management, de Singapura.
Fora da tecnologia, o restante do mercado sofre com uma crise de confiança do consumidor e com a retração dos investimentos. Pequim mantém a preferência por estímulos pontuais e graduais, sem o grande pacote de gastos que os investidores esperavam.
O próprio crescimento da economia reduz a pressa do governo. O PIB chinês avançou 4,5% no terceiro trimestre, na comparação anual, acima das expectativas, e o acumulado dos nove primeiros meses ficou perto do piso da meta oficial, de 4,5% a 5% para o ano.
"Essa queda é rápida demais e pode anunciar novas baixas", afirmou à Bloomberg Fu Zhifeng, diretor de investimentos da Shanghai Chengzhou Investment Management. Para ele, sem mudanças na demanda doméstica fraca, na incerteza sobre como justificar os gastos com IA e nos juros dos títulos públicos americanos e europeus, os investidores dificilmente vão mudar de estratégia tão cedo.
A temporada de resultados adicionou pressão. As ações da CATL, maior fabricante de baterias para carros elétricos do mundo, ampliaram as perdas nesta quinta depois de despencarem 12% na quarta-feira, 21. O crescimento do lucro trimestral ficou abaixo do esperado, após a redução de incentivos do governo ao setor.
A Fuyao Glass, fabricante de vidros automotivos, também caiu depois de reportar queda no lucro, o que alimentou o temor de que outras decepções venham pela frente.
As autoridades chinesas tentam conter as vendas por meio da chamada "equipe nacional", o grupo de fundos estatais que compra ações via ETFs. O giro de uma cesta de nove ETFs usados por esses fundos chegou a 52 bilhões de yuans (US$ 7,79 bilhões) até as 14h45 no horário local desta quinta, o maior desde os 62,8 bilhões de yuans de 15 de outubro.
Para analistas da Bloomberg Intelligence, sem uma recuperação das bolsas globais em que se apoiar, a equipe nacional talvez precise comprar mais e por mais tempo do que nos dois resgates mais recentes, durante o choque tarifário de abril de 2025 e a liquidação de ações de tecnologia de julho de 2026.
Há um precedente. Em 2024, as compras estatais via ETFs seguraram as ações durante o verão, mas a virada só veio em setembro, com medidas mais amplas de política econômica.
Os sinais de apetite por risco seguem fracos. O volume de operações alavancadas, feitas com dinheiro emprestado, voltou ao nível do fim de 2025, e o giro diário das bolsas da China continental está perto do menor patamar em cerca de 15 meses.
"O sentimento do investidor continua muito ruim nos mercados chineses, dentro e fora do país. Sem novos catalisadores de política ou de tecnologia, esse ambiente volátil e sem direção pode persistir até o início de 2027", disse à Bloomberg Homin Lee, estrategista sênior de macroeconomia do Lombard Odier, em Singapura.
Bear market ("mercado de urso", em inglês) é o nome dado a uma queda de pelo menos 20% de um índice ou ativo em relação ao pico mais recente. A imagem vem do urso, que ataca com a pata de cima para baixo. O oposto é o bull market, o "mercado de touro", que designa períodos de alta. Uma queda de 10% a 20% costuma ser chamada de correção.
O CSI 300 acumula queda de 20% desde a máxima de junho. Pesam o consumo fraco, a retração dos investimentos, a falta de um grande pacote de estímulos do governo, as dúvidas sobre o retorno dos gastos das empresas com inteligência artificial e balanços abaixo do esperado. A alta dos juros dos títulos públicos nos Estados Unidos e na Europa também afasta investidores de ativos de risco.
A tecnologia lidera as perdas. O Hang Seng Tech recua 31% no ano, com o Alibaba e startups ligadas à IA entre os destaques negativos. Entre as empresas que decepcionaram nos balanços estão a CATL, de baterias para carros elétricos, que caiu 12% na quarta-feira, e a Fuyao Glass, de vidros automotivos. Setores ligados ao consumo doméstico também sofrem com a baixa confiança das famílias.
Sim. Fundos estatais compram ações via ETFs para conter as vendas, e o giro desses fundos nesta quinta foi o maior desde 15 de outubro. Analistas avaliam, porém, que as compras do Estado sozinhas podem não bastar para uma recuperação duradoura. Em 2024, a virada só aconteceu depois de um pacote amplo de estímulos.
A China é o principal destino das exportações brasileiras e respondeu por 29% das vendas externas do país no primeiro trimestre, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. De janeiro a setembro, as exportações para os chineses cresceram 12%, para US$ 84,64 bilhões, com superávit de US$ 26,05 bilhões para o Brasil, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O ritmo, no entanto, perdeu força. Em setembro, as vendas para a China recuaram 7,6% na comparação anual, puxadas por quedas em carne bovina, soja, minério de ferro e milho. A queda da bolsa não afeta o Brasil diretamente, mas o que está por trás dela, o consumo fraco e a economia em ritmo lento, mexe com a demanda por commodities brasileiras e com ações como a da Vale, uma das de maior peso no Ibovespa. A desaceleração interna também tem levado empresas chinesas a buscar mercados no exterior, acirrando a concorrência no Brasil.
Não há consenso. Para o Lombard Odier, sem novos estímulos ou novidades no setor de tecnologia, o mercado chinês pode seguir volátil e sem direção até o início de 2027.