Exportações avançam, aportes recuam: China muda de marcha e acirra concorrência no Brasil
UBS projeta que mercados externos responderão por 25% da receita das empresas não financeiras listadas na China continental até 2030; automação e escala industrial mudam a natureza da competição


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 08:00.
RESUMO +
A concorrência chinesa no Brasil entra em uma nova fase, com empresas do país ampliando exportações, fábricas e parcerias internacionais além da estratégia de preços baixos. Segundo o UBS, mercados externos devem responder por 25% da receita das companhias não financeiras listadas na China continental em 2030, impulsionadas por automação, escala industrial e tecnologia. Para empresas brasileiras, o movimento aumenta a disputa por clientes, mas também abre oportunidades em cadeias de fornecedores e parcerias industriais.
A próxima onda de concorrência chinesa no Brasil vai além dos produtos baratos. Impulsionadas por automação, escala industrial e pela busca de maior rentabilidade no exterior, empresas do país ampliam sua presença internacional com exportações, fábricas e parcerias. Em relatório, o UBS estima que os mercados externos responderão por 25% da receita das companhias não financeiras listadas nas bolsas da China continental em 2030, ante 18% no primeiro semestre deste ano.
O avanço tem consequências para empresas brasileiras tanto na disputa por clientes quanto nas relações com fornecedores. Para Anderson Brito, head de banco de investimento do UBS BB, a transformação exige olhar para a China além de seu papel como compradora de commodities ou fornecedora de manufaturados. “A vantagem competitiva da China não está desaparecendo; ela está mudando de natureza”, afirma. “A próxima fase da economia chinesa será cada vez mais baseada em energia, automação, escala industrial, produtividade e internacionalização das empresas.”
O relatório do UBS mostra que a participação dos mercados externos na receita dessas companhias passou de 15% no primeiro semestre de 2025 para 18% no mesmo período de 2026. As operações externas também apresentaram margens brutas superiores às domésticas. No recorte utilizado pelo banco, Hong Kong, Macau e Taiwan são contabilizados como mercados externos.
Essa diferença de rentabilidade ajuda a explicar por que a internacionalização ocupa um lugar central na estratégia das empresas chinesas. Vender e produzir fora do país permite ampliar o mercado atendido e buscar retornos maiores para uma capacidade industrial construída em grande escala. “Outro ponto central é que o movimento de internacionalização das empresas chinesas deixou de ser pontual e passou a ser estrutural”, diz Brito.
O movimento já aparece no comércio internacional. O valor das exportações chinesas cresceu 19% nos primeiros sete meses de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo o relatório. Os setores ligados à tecnologia foram os principais responsáveis pelo aumento. O banco aponta que indústrias de maior valor agregado lideram o crescimento das exportações em valores absolutos desde 2025, reforçando a mudança no perfil da oferta chinesa.
A BYD é o exemplo mais conhecido dessa expansão. Na América do Sul, o setor automotivo registrou o crescimento mais rápido das exportações chinesas nos primeiros sete meses de 2026 e foi o maior responsável pelo aumento em valor, seguido pelo setor industrial. Automóveis e produtos de consumo também aparecem como os dois principais componentes das vendas chinesas à região.
Tecnologia substitui parte da vantagem salarial
A mudança também responde ao desgaste dos motores que sustentaram o crescimento chinês nas últimas décadas. Segundo Brito, a oferta abundante de mão de obra, a migração do campo para as cidades e os investimentos em infraestrutura perderam parte de sua força. Com salários maiores e uma força de trabalho em retração, o país acelera o uso de robótica, software e inteligência artificial para compensar essas mudanças. “A demografia é um dos principais motores dessa transformação”, afirma o executivo. “A resposta chinesa tem sido acelerar a substituição de trabalho por tecnologia, através de robótica, software, inteligência artificial e equipamentos.”
Para empresas brasileiras, a consequência é enfrentar concorrentes cuja competitividade depende cada vez mais de produtividade, equipamentos e escala. Ao mesmo tempo, a expansão abre oportunidades para fornecedores, parceiros industriais e empresas que participam do comércio entre os dois países. “A China deve ser entendida como um verdadeiro sistema industrial”, diz Brito. Sua concentração em metais, energia e manufatura, avalia, afeta commodities, fretes, câmbio e cadeias de suprimentos — fatores que chegam aos custos e às margens das companhias brasileiras.
Mais negócios, menos investimento
O avanço internacional, porém, não ocorre de maneira uniforme. No primeiro semestre de 2026, o número de investimentos das companhias listadas na China continental na América Latina aumentou, mas o valor aplicado caiu 30% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o UBS.
O relatório registra novos investimentos de empresas de saúde, consumo, materiais básicos e indústria, enquanto destaca uma forte queda no valor dos aportes ligados ao setor automotivo. O levantamento se restringe às companhias listadas na China continental e não permite atribuir a redução especificamente ao Brasil.
Os recortes geográficos são diferentes: as exportações de veículos analisadas pelo banco abrangem a América do Sul, enquanto os investimentos incluem toda a América Latina. Ainda assim, os indicadores mostram duas tendências na presença chinesa na região: avanço das vendas de automóveis e redução do capital aplicado pelas empresas desse setor.
Perguntas frequentes
Como mudou a concorrência chinesa no Brasil?
A concorrência chinesa deixou de estar concentrada apenas em produtos baratos. Empresas chinesas passaram a ampliar sua presença internacional com exportações, fábricas e parcerias, apoiadas por automação, escala industrial e tecnologia.
Por que as empresas chinesas estão se internacionalizando mais?
Segundo o UBS, a internacionalização permite ampliar mercados e buscar maior rentabilidade para uma capacidade industrial construída em grande escala. O banco estima que os mercados externos responderão por 25% da receita das companhias não financeiras listadas na China continental em 2030.
Qual é a vantagem competitiva atual da China?
Segundo Anderson Brito, head de banco de investimento do UBS BB, a vantagem competitiva chinesa está mudando de natureza e passa a depender mais de energia, automação, escala industrial, produtividade e internacionalização das empresas.
Quanto cresceram as exportações chinesas em 2026?
Segundo o relatório do UBS, o valor das exportações chinesas cresceu 19% nos primeiros sete meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Setores ligados à tecnologia lideraram o aumento.
Qual empresa chinesa simboliza essa expansão internacional?
A BYD é apontada como um dos principais exemplos dessa expansão. Na América do Sul, o setor automotivo teve o crescimento mais rápido das exportações chinesas nos primeiros sete meses de 2026, segundo o UBS.
Como a tecnologia mudou a indústria chinesa?
Com salários maiores e uma força de trabalho em retração, empresas chinesas passaram a acelerar o uso de robótica, software e inteligência artificial para aumentar produtividade e substituir parte do trabalho manual.
Como a expansão chinesa afeta empresas brasileiras?
O avanço chinês aumenta a competição por clientes e fornecedores, mas também pode criar oportunidades para empresas brasileiras integradas às cadeias industriais e comerciais entre os dois países.
Os investimentos chineses na América Latina cresceram em 2026?
Segundo o UBS, no primeiro semestre de 2026 o número de investimentos de companhias listadas na China continental na América Latina aumentou, mas o valor aplicado caiu 30% em relação ao mesmo período de 2025.
Quais setores chineses mais avançam na América do Sul?
Segundo o relatório, automóveis e produtos de consumo estão entre os principais componentes das vendas chinesas para a região. O setor automotivo teve o crescimento mais rápido das exportações chinesas na América do Sul no período analisado.
A China ainda compete apenas pelo preço?
Não. Segundo o UBS, a competitividade chinesa está cada vez mais associada a produtividade, automação, tecnologia, escala industrial e capacidade de internacionalização.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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