'Fundos de índice': quem mais se beneficia são as grandes empresas da bolsa (Deagreez/Getty Images)
Repórter de Invest
Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 06h00.
Sabe quando vai a um restaurante renomado e, em vez de ficar na dúvida sobre qual prato escolher, escolhe logo um menu degustação com tudo o que há de melhor no cardápio? É mais ou menos esse o papel que os fundos que acompanham índices (ETFs, na sigla em inglês) estão desempenhando para o investidor estrangeiro que montar posição no Brasil.
De acordo com relatório do BTG Pactual, assinado por analistas como Carlos Sequeira e Leonardo Correa, essa “passagem expressa” nunca foi tão usada: nas três primeiras semanas de 2026, o Índice Bovespa (Ibovespa) saltou 11% (ou 15% se contarmos em dólares). O motor desse crescimento foi a entrada líquida de R$ 15,8 bilhões vinda lá de fora.
O destaque vai para o EWZ, o principal ETF brasileiro negociado no exterior, que viu seu número de cotas disparar 78% em relação ao ano passado, superando até os níveis de 2019, antes da pandemia. Em 2025, o avanço foi de 53%. “O número de cotas em circulação da EWZ está em um recorde histórico”, observam os analistas.
Por ser um fundo replica o Ibovespa, os aportes feitos nesse ETF injetam liquidez nas empresas que compõem o índice.
O head de alocação da Ghia Multi Family Office, Tadeu Arantes, explica que, a partir de 2025, o gringo percebeu que o panorama norte-americano estava dando sinais de desgaste. A volta de Donald Trump à presidência trouxe instabilidade em relação a tarifas e embates geopolíticos, além de uma situação fiscal que colocou a força do dólar e as taxas de juros de longo prazo em xeque.
O investidor começou, assim, a buscar geografias que haviam ficado esquecidas, e o Brasil, com ativos bastante depreciados, tornou-se um destino óbvio. "Em 2026, pelo menos até o momento, a gente vê uma continuidade e uma intensificação desse movimento, que eu diria que segue o mesmo script, os mesmos motivos que continuam impulsionando essa rotação de capital", pontua Arantes.
A explicação para essa febre é simples: praticidade. Ao comprar um ETF como o EWZ ou o BOVA11, o gringo consegue uma exposição rápida e direta ao Brasil sem precisar mergulhar fundo nos balanços de cada empresa individualmente. É o jeito mais ágil de apostar no país como um todo.
Ressalta-se que esse atalho tem, em contrapartida, um efeito colateral bem claro nos preços: o dinheiro acaba indo, principalmente, para as blue chips, como Vale, Petrobras e Itaú, já que elas têm maior participação na carteira do Ibovespa. Para se ter uma ideia da força dessas companhias no desempenho do mercado, a Vale sozinha foi responsável por cerca de três mil pontos da subida do Ibovespa no início do ano.
Os analistas do BTG explicam que, como o volume de dinheiro que os gringos movimentam é astronômico, eles precisam de ações com muita liquidez para conseguir entrar e sair sem causar um terremoto nos preços. “No Brasil, há um número limitado de ações de grande capitalização com liquidez suficiente.”
Arantes concorda que Petrobras e Vale, representando mais de 20% do Ibovespa, são as primeiras a surfar essa onda, já que possuem a maior participação nesses índices e oferecem a liquidez necessária para grandes movimentações de capital.
“Ao longo de 2025, as principais compras líquidas se concentraram em algumas ações: VALE3 (Vale), ENEV3 (Eneva), SBSP3 (Sabesp) e AXIA3 (Axia Energia). Em 2026, Vale, Petrobras, MBRF (Marfrig-BRF), Prio e Eneva”, complementa o BTG. “As principais empresas do Ibovespa (Vale, Petrobras e Itaú) tendem a se beneficiar desproporcionalmente mais dos fluxos de capital estrangeiro.”
O relatório mostra que os investidores que estão cansados de ficar apenas nos Estados Unidos (EUA) estão rotacionando seus portfólios para os chamados Mercados Emergentes Globais (GEM, em inglês). Só em janeiro de 2026, esses fundos atraíram US$ 17,5 bilhões — o que é quase metade de tudo o que entrou durante o ano de 2025 inteiro.
“Investidores que buscam diversificação para além dos EUA estão rotacionando seus portfólios e aumentando a exposição a fundos GEM. A maioria das principais empresas comparáveis ao Brasil na América Latina também apresentou um desempenho muito bom em janeiro”, explica o relatório.
Nesse cenário, o Brasil virou o queridinho da vez: os fundos GEM encerraram dezembro com uma alocação de 6,4% no país, e o BTG estima que eles estejam com uma “sobreponderação” de 200 pontos-base, o que significa que os gringos estão apostando no Brasil muito mais do que o peso padrão recomendado.
O curioso dessa história é que, enquanto o gringo chega com o otimismo lá no alto, o investidor institucional local — os grandes fundos brasileiros — ainda está no modo defensivo. Esses fundos foram os principais vendedores no início de 2026, com saídas de R$ 2,1 bilhões. O movimento de retirada é visto como “persistente e doloroso” para o BTG.
Já o varejo tem mostrado uma resiliência surpreendente. Mesmo com os juros nas alturas, a pessoa física foi compradora líquida de R$ 8 bilhões em 2025, mas com um gosto bem diferente do gringo: enquanto o estrangeiro foca no índice e na liquidez, o investidor do varejo prefere diversificar em ações como Bradesco e Rede D’Or.
A grande aposta para que o mercado brasileiro ganhe ainda mais fôlego depende de uma “inflexão” no comportamento interno. O BTG aponta que, com a previsão da taxa básica de juros, Selic, cair dos atuais 15% para, em média, 12% até o final de 2026, seria natural que o dinheiro que hoje está “estacionado” na renda fixa comece a migrar de volta para as ações.
Apesar disso, o documento lembra que 2026 é um ano eleitoral, o que sempre traz uma dose de incerteza política que pode ajudar ou atrapalhar esse fluxo. “Os desdobramentos eleitorais podem reforçar ou prejudicar essa tendência, dependendo do impacto percebido no mercado”, de acordo com o BTG Pactual.
“Os fluxos para o mercado brasileiro são multifatoriais, impulsionados pelo contexto macroeconômico local e global, pelo apetite geral ao risco e pela dinâmica política, particularmente em um ano eleitoral como 2026. Acreditamos que um ciclo de afrouxamento monetário no Brasil seria favorável à manutenção do ritmo atual de entradas de capital em ações”, acrescenta o BTG.