Em Davos, onde costumam circular presidentes, CEOs e discursos solenes, Elon Musk lançou uma previsão digna de ficção científica — mas com números na mão.
Segundo o homem mais rico do mundo, os robôs vão superar os humanos em quantidade no planeta nas próximas décadas. A aposta não é só dele: bancos e consultorias projetam que o mundo pode conviver com até 1 bilhão de robôs humanoides até 2050, espalhados por fábricas, hospitais e casas, executando tarefas que hoje ainda dependem de gente de carne e osso.
Essa visão é sustentada por dados recentes do Goldman Sachs Research, que revisou para cima suas estimativas para o setor. O mercado global de robôs humanoides pode atingir US$ 38 bilhões até 2035, mais de seis vezes acima da projeção anterior.
O volume de envios também foi ajustado: a expectativa agora é de 1,4 milhão de unidades no período, com uma trajetória de rentabilidade mais curta.
IA acelera salto tecnológico
O principal fator por trás da mudança é o avanço da inteligência artificial.
Segundo o relatório, publicado em 2024, progresso em modelos de linguagem aplicados à robótica e em sistemas de aprendizado de ponta a ponta reduziu a dependência de programação manual.
Na prática, isso permite que robôs aprendam novas tarefas com mais rapidez e se adaptem a ambientes fora das fábricas, como armazéns, hospitais e residências.
Outro elemento decisivo é a queda nos custos de produção. O custo de fabricação de um robô humanoide caiu cerca de 40% em apenas um ano.
Modelos que antes custavam entre US$ 50 mil e US$ 250 mil passaram para uma faixa de US$ 30 mil a US$ 150 mil. A redução foi impulsionada por componentes mais baratos, maior oferta na cadeia de suprimentos e ganhos de eficiência em design e manufatura.
Indústria lidera a adoção
No curto prazo, o uso seguirá concentrado na indústria, segundo as análises.
O Goldman Sachs estima mais de 250 mil robôs humanoides em operação até 2030, quase todos em ambientes industriais. Montagem de veículos elétricos, separação de componentes e logística são algumas das aplicações mais avançadas.
Esses robôs são especialmente indicados para tarefas classificadas como “perigosas, sujas e repetitivas”, como mineração, manutenção de reatores nucleares, resgate em desastres e operação em indústrias químicas.
A flexibilidade física dos humanoides amplia o alcance da automação, inclusive em terrenos complexos onde máquinas tradicionais não operam bem.
Da fábrica para dentro de casa
O uso doméstico deve ganhar tração a partir da próxima década.
Projeções do Morgan Stanley indicam que, até 2050, 10% das residências nos Estados Unidos terão ao menos um robô humanoide. Entre famílias com renda anual acima de US$ 200 mil, a proporção pode chegar a 33%.
O custo anual estimado para manter um robô gira em torno de US$ 10 mil, valor comparável ao de um automóvel, segundo estimativas do setor. As funções previstas incluem tarefas domésticas, cuidado de idosos, vigilância e manutenção, além de apoio em contextos de escassez de mão de obra.
Limites técnicos e dilemas sociais
Apesar do avanço, ainda existem gargalos. A produção de componentes de alta precisão enfrenta restrições industriais, e o desenvolvimento de IA generalista — capaz de executar múltiplas tarefas complexas — segue em estágio inicial. A maioria dos robôs atuais opera com funções específicas e bem delimitadas.
A expansão também traz questionamentos sociais. Especialistas alertam para impactos sobre o mercado de trabalho, além de debates sobre uso de robôs em segurança, vigilância e serviços públicos. Há ainda preocupações psicológicas, como a robofobia, e discussões emergentes sobre limites éticos no uso dessas máquinas.
De protótipo a item essencial
Empresas como a Tesla apostam que a transição será rápida. Musk afirmou que o robô Optimus já executa tarefas simples em fábricas e pode chegar ao mercado em 2026 ou 2027.
Para o Barclays, o mercado global pode alcançar entre US$ 40 bilhões e US$ 200 bilhões até 2035, dependendo da velocidade da inovação.
No cenário mais otimista, os humanoides deixariam de ser curiosidades tecnológicas para se tornar um dispositivo essencial, assim como smartphones e veículos elétricos. A diferença é que, desta vez, a próxima revolução não cabe no bolso. Ela caminha, fala e trabalha ao lado dos humanos.
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