Inteligência Artificial

Quando a IA era gente: startup ocultou 700 programadores para simular tecnologia automação

Builder.ai captou US$ 445 milhões com discurso de “no-code”, mas usava centenas de engenheiros na Índia para escrever código manualmente

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 17h19.

Última atualização em 29 de dezembro de 2025 às 17h20.

A startup britânica Builder.ai entrou em insolvência após vir à tona que sua suposta plataforma de inteligência artificial dependia, na prática, de cerca de 700 engenheiros na Índia escrevendo código manualmente, enquanto a empresa vendia o serviço como automação.

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A companhia havia captado mais de US$ 445 milhões de investidores, entre eles a Microsoft, com a promessa de simplificar o desenvolvimento de aplicativos sem necessidade de programação.

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Criada em 2015, a Builder.ai se apresentava como uma plataforma no-code, termo usado para ferramentas que permitem criar software sem escrever código, operada por uma assistente virtual chamada Natasha. Segundo o discurso comercial, o sistema montava aplicativos de forma automática, como se fossem peças de Lego.

Na prática, porém, solicitações de clientes eram encaminhadas para equipes humanas na Índia, que desenvolviam os aplicativos manualmente. O trabalho era entregue como se fosse resultado direto de automação, ocultando o uso intensivo de mão de obra especializada.

O número de cerca de 700 engenheiros foi estimado a partir de denúncias públicas, análises de especialistas do setor e relatos internos vazados. Esses materiais indicam que a escala da operação humana era incompatível com a narrativa de uma plataforma amplamente automatizada.

Fraudes contábeis e pressão de credores


Além da falsa automação, a Builder.ai passou a ser associada a práticas contábeis irregulares. Documentos obtidos pela Bloomberg apontam que a empresa participou de um esquema de round-tripping, prática em que empresas trocam faturas de valores semelhantes para inflar artificialmente receitas, com a startup indiana VerSe Innovation.

Entre 2021 e 2024, a Builder.ai teria superestimado suas vendas em até 300% ao apresentar resultados a investidores e credores. Em 2023, a gestora Viola Credit congelou US$ 37 milhões da empresa após o não pagamento de dívidas, aprofundando a crise financeira.

Desde então, a companhia entrou em processo formal de insolvência no Reino Unido, com a nomeação de um administrador judicial para tentar preservar ativos e avaliar responsabilidades. Autoridades dos Estados Unidos também abriram investigação e emitiram intimações para obtenção de documentos financeiros, políticas contábeis e listas de clientes.

A Builder.ai reconheceu a existência de inconsistências em suas vendas históricas, mas não detalhou a extensão das irregularidades nem comentou as acusações sobre a dependência de trabalho humano.

Promessas de automação sob escrutínio

O caso se soma a outros episódios recentes que colocam em xeque promessas de automação total no setor de tecnologia. Em 2024, a Amazon anunciou o fim gradual do sistema Just Walk Out, tecnologia que prometia eliminar caixas em lojas físicas por meio de câmeras e sensores.

Investigações mostraram que o sistema dependia de mais de 1.000 funcionários, também na Índia, para revisar imagens e corrigir falhas nas compras. Diante dos custos e limitações, a empresa passou a adotar carrinhos com leitores de código de barras e caixas de autoatendimento.

Os episódios reforçam um padrão no mercado: soluções vendidas como altamente automatizadas frequentemente escondem operações manuais de alto custo, o que compromete escala, rentabilidade e credibilidade.
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