Inteligência Artificial

Entenda o que o encontro entre a medicina tradicional chinesa e a IA está criando

Governo chinês financia o uso de IA para diagnósticos e prescrições e pensa em expandir negócio para outros países

Pequim utiliza inteligência artificial para levar a medicina tradicional chinesa para o futuro (Lam Yik Fei/Getty Images)

Pequim utiliza inteligência artificial para levar a medicina tradicional chinesa para o futuro (Lam Yik Fei/Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 14h08.

A China está utilizando a inteligência artificial (IA) para turbinar a Medicina Tradicional Chinesa (MTC). O recurso é aplicado em várias frentes do setor e tem apoio direto do governo, que quer expandir o negócio para outros países.

Pesquisadores, profissionais da saúde e empresas passaram a empregar IA em diagnósticos clínicos, prescrições automatizadas, robôs para acupuntura e massagens, até wearables baseados em princípios da MTC.

Em Nanjing, a empresa Que Tang Yu Fang, por exemplo, utiliza leitores automatizados de língua e sensores de pulso para avaliar níveis de yin, yang e qi antes de fornecer misturas personalizadas de chá, com todo o processo conduzido por dispositivos de IA.

Apoio governamental

Considerada um patrimônio cultural da China, a MTC atende cerca de 1 bilhão de pessoas por ano no país. O número de profissionais, no entanto, tem diminuído com o envelhecimento da população. Em 2022, a proporção era de 0,75 praticante por 10 mil habitantes, segundo estudo publicado na China General Practice.

Diante desse cenário, a China ampliou o apoio à prática secular. Desde 2012, quase 30 políticas relacionadas à MTC foram lançadas. Em 2021, uma diretriz para fortalecer o desenvolvimento da área foi acompanhada por aumento de financiamento, que superou 22 bilhões de yuans (US$ 3 bi) em 2024.

Com esse impulso institucional, mais de 1.200 laboratórios foram criados em diferentes províncias do país, onde equipes combinam a IA com métodos científicos para selecionar compostos, mapear interações moleculares e avaliar efeitos farmacológicos da prática.

O governo chinês também estabeleceu cerca de 30 centros de MTC no exterior e firmou acordos com mais de 40 países e organizações para cooperação internacional. Na Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra, a China coorganizou um evento sobre avanços da MTC.

Essas iniciativas integram a estratégia oficial Rota da Seda da Saúde, lançada em 2017. Documentos do governo chinês preveem a promoção internacional da MTC, que quer equiparar à medicina ocidental, e o fortalecimento de seu status como provedor mundial de serviços de saúde.

OpenTCM

A IA também foi usada para criar um "banco de dados" sobre a MTC. Na Universidade Chinesa de Hong Kong, especialistas extraíram mais de 48 mil conceitos de livros clássicos para desenvolver o OpenTCM, sistema voltado a educadores e alunos para pesquisar sobre a prática.

Apesar dos avanços, a IA ainda apresenta limitações na MTC. A prática se baseia em conceitos abstratos, difíceis de adaptar e quantificar para a ciência moderna. Os textos clássicos da MTC utilizam linguagem concisa e antiga, que dificulta sua interpretação.

Outro problema da linguagem da MTC é que ela é difícil de simplificar e padronizar, como exigem os sistemas de IA. Esse fator pode comprometer aspectos do diagnóstico e do tratamento, que dependem da integração de informações relacionadas ao paciente como um todo — sintomas, emoções e estilo de vida.

Diante dessas restrições, especialistas afirmam que a supervisão humana permanece necessária. A IA deve se limitar, por ora, à função auxiliar em pesquisa, educação e triagem preliminar.

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