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DUV: tecnologia está no centro da disputa comercial com os Estados Unidos (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 28 de julho de 2026 às 08h38.
Todo chip de computador, celular ou carro nasce de um processo que lembra, de longe, a revelação de uma fotografia.
Bilhões de circuitos microscópicos precisam ser "impressos" sobre uma pastilha de silício, em camadas, com precisão de bilionésimos de metro. A máquina que faz isso se chama equipamento de litografia — e a versão mais usada hoje é a DUV.
Poucas tecnologias são tão decisivas e tão pouco conhecidas fora da indústria. É por isso que a litografia virou o ponto mais sensível da disputa por semicondutores entre Estados Unidos e China.
DUV é a sigla em inglês para ultravioleta profundo, o tipo de luz que a máquina usa para trabalhar.
O processo funciona assim: a pastilha de silício recebe uma camada de material sensível à luz; sobre ela, o equipamento projeta um padrão, como um projetor de slides projeta uma imagem numa parede, só que reduzida a uma escala minúscula; onde a luz incide, o material reage, e o circuito fica gravado.
Quanto menor o comprimento de onda da luz, menores os detalhes que se conseguem desenhar — e menores os transistores, o que torna o chip mais rápido e eficiente.
A DUV trabalha com um comprimento de onda de 193 nanômetros e, em sua versão mais avançada, chamada de imersão, usa uma fina camada de água entre a lente e a pastilha para "enxergar" detalhes ainda menores.
Existe uma tecnologia superior à DUV, a EUV, ou ultravioleta extremo. Ela usa luz de comprimento de onda muito menor, de 13,5 nanômetros, o que permite gravar os chips mais avançados do mundo — os de 5 nanômetros ou menos, presentes em celulares de ponta e nos processadores de inteligência artificial (IA).
A diferença prática é grande. Com a DUV, ainda é possível fabricar chips avançados, mas de forma indireta: a máquina precisa passar várias vezes sobre a mesma pastilha, numa técnica chamada de multipatterning, que aumenta o custo, alonga a produção e desperdiça mais material. A EUV faz em uma passagem o que a DUV faz em várias.
Uma única empresa no mundo fabrica as máquinas EUV, a holandesa ASML. E é justamente aí que a geopolítica entra.
Desde 2019, sob pressão dos Estados Unidos, a Holanda proíbe a venda de máquinas EUV para a China. Sem elas, os fabricantes chineses ficaram presos à DUV — que, embora inferior, é hoje o caminho mais avançado que o país pode acessar legalmente para produzir chips em escala.
Por isso a DUV se tornou tão estratégica. Ela é a fronteira do que a China consegue comprar, e também a fronteira do que os Estados Unidos tentam bloquear.
Nos últimos anos, as restrições americanas e holandesas passaram a mirar não só a EUV, mas também as versões mais sofisticadas de DUV, num cerco progressivo.
A ASML domina os dois mercados. A empresa planeja despachar cerca de 130 máquinas DUV de imersão em 2026, e a China chegou a representar um terço de suas vendas — fatia que caiu para cerca de 20% neste ano, à medida que os controles apertaram.
O motivo da litografia estar em evidência agora é que a China começou a produzir suas próprias máquinas DUV de imersão, num esforço para depender menos da ASML.
É um avanço significativo, porque a litografia sempre foi considerada o gargalo mais difícil de toda a cadeia de semicondutores — a peça que muitos julgavam que a China levaria muitos anos para replicar.
O feito, porém, não elimina a distância. As máquinas chinesas ainda produzem em volume pequeno, dependem de algumas peças importadas e não alcançam a precisão nem a confiabilidade das da ASML.