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Ben Rein, neurocientista de Stanford: 'Somos a primeira geração a interagir com sistemas de IA realistas' (Ben Rein/Divulgação)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 10h42.
Última atualização em 19 de agosto de 2026 às 10h43.
O cérebro humano processa a rejeição social nas mesmas regiões em que processa a dor física. Não é metáfora: quando alguém é excluído de um grupo, acendem no córtex as mesmas áreas que acenderiam se a pessoa tivesse levado um chute. É esse tipo de descoberta que fez a neurociência tratar a solidão como problema de saúde, e não de humor, um fator de risco comparável, em mortalidade, à obesidade.
A pergunta que ninguém ainda sabe responder é o que acontece com esse sistema quando o outro lado da conversa é uma máquina. Uma máquina, aliás, desenhada para estar sempre disponível, sempre atenta e para nunca discordar.
Quem levanta a questão é Ben Rein, neurocientista da Universidade Stanford e diretor científico da Mind Science Foundation, que passou mais de uma década estudando a biologia da interação social. Autor de Why Brains Need Friends ("Por que os cérebros precisam de amigos"), lançado no fim do ano passado, ele defende que conexão social é uma necessidade fisiológica na mesma categoria de sono, dieta e exercício.
Sua tese sobre inteligência artificial é incômoda justamente porque não é tecnofóbica: Rein reconhece que o vínculo com um chatbot pode, sim, ativar circuitos cerebrais parecidos com os de uma relação real. O problema, argumenta, é que isso funcione. "Somos a primeira geração de humanos a interagir com sistemas de IA realistas, e a forma como escolhermos abraçá-los vai estabelecer o precedente para as gerações seguintes", diz.
O amor na era dos tokens: por que tanta gente se apaixona, namora e até casa com IAsTraduzindo: se esta geração normalizar a amizade com máquinas, os netos dela terão companheiros de IA sem que ninguém ache aquilo estranho. Para Rein, esse não é um bom futuro.
Em entrevista à EXAME, ele explica por que considera a conveniência o verdadeiro risco, em que circunstâncias um chatbot pode ser útil, e qual conselho daria a quem hoje trata uma IA como parceiro romântico principal.
EXAME: No livro, o senhor mostra que a dor da exclusão social ativa as mesmas regiões cerebrais que a dor física. Uma IA de companhia, ao simular atenção e afeto constantes, consegue de fato acionar esse mesmo sistema de recompensa — ou o cérebro reage de forma diferente quando "sabe", ainda que racionalmente, que não há outra pessoa do outro lado?
Essa é uma pergunta fantástica para a qual ainda não temos respostas, pelo que sei. Suspeito que vá ser uma área de pesquisa ativa, e devemos ter mais dados nos próximos um ou dois anos.
Minha opinião pessoal é que somos nós que controlamos essa porta: se nos permitirmos acreditar que o chatbot de IA representa uma pessoa real e viva, talvez experimentemos benefícios maiores e atividade cerebral mais parecida com a social.
No entanto, não acho que isso seja necessariamente bom para a humanidade. Costumo dizer que somos hoje a primeira geração de humanos a interagir com sistemas de IA realistas, e a forma como escolhermos abraçá-los, ou não, vai estabelecer o precedente para as gerações seguintes.
Se permitirmos que chatbots sejam nossos amigos, é provável que nossos netos, e os filhos deles, tenham companheiros de IA, e isso será inteiramente aceitável socialmente. Não acho que esse seja necessariamente um bom futuro para a humanidade.
Acredito que devemos proteger com cuidado nossos relacionamentos humanos únicos, para preservar os vínculos belos e complexos que dão textura e sentido à vida.
Como escrevo no livro, mães e filhas conseguem até alcançar sincronia entre cérebros por meio de texto. É melhor que nada, mas o presencial sempre vence.
EXAME: O senhor lista relacionamentos fracos como fator de risco tão grave quanto a obesidade. Existe risco de que as pessoas usem a IA como companhia de longo prazo, mas nunca desenvolvam os vínculos humanos que, segundo sua pesquisa, protegem contra inflamação e mortalidade?
Sim, absolutamente, e é por isso que defendo que um futuro em que abraçamos sistemas de IA como companheiros humanoides seria seriamente prejudicial à saúde e ao florescimento da nossa espécie.
A tecnologia torna fácil e conveniente pular interações, táxis autônomos, caixas de autoatendimento, pedir comida por aplicativo em vez de entrar no restaurante. A IA é só mais uma ferramenta que vai além, imitando a própria interação.
É fácil, conveniente e bajuladora, o que a torna uma alternativa atraente. No entanto, isso nos isola ainda mais, empurrando-nos mais fundo nos riscos de saúde associados à solidão.
Acho que existe tempo e lugar para chatbots de IA, para quem tem ansiedade social extrema, por exemplo, ou outras circunstâncias que tornam a conexão desafiadora —, mas aceitá-los, de modo geral, como substituto do contato humano seria um erro, na minha opinião.
EXAME: Se pudesse dar um conselho baseado em neurociência para alguém que hoje trata uma IA como parceiro romântico principal, qual seria — abandonar o vínculo, mantê-lo como complemento, ou algo no meio-termo?
Eu diria: use como último recurso. Pode ser genuinamente útil ter um chatbot de IA num momento de necessidade, por exemplo, ao ter pensamentos de se machucar e não conseguir alcançar entes queridos.
Mas usá-lo como substituto total do contato humano tira boa parte do que dá sentido à vida. Uma humanidade sem relacionamentos interpessoais, só chatbots, seria um fracasso miserável, e um desperdício da vida e da autonomia que nos foram dadas pelo universo.