Negócios

O plano da Greentable para vender marmitas de R$ 19,90 dentro de centenas de escritórios

Empresa de marmitas congeladas colocou freezers em 400 escritórios e já faz do canal corporativo 35% da receita; parceria com iFood Benefícios acelera expansão

Pedro Semeoni, co-CEO da Greentable: “A chave desse mercado é produção” (Greentable/Divulgação)

Pedro Semeoni, co-CEO da Greentable: “A chave desse mercado é produção” (Greentable/Divulgação)

Isabela Rovaroto
Isabela Rovaroto

Repórter de Negócios

Publicado em 19 de agosto de 2026 às 10h42.

Na hora do almoço, uma refeição na Berrini ou na Faria Lima pode custar entre R$ 50 e R$ 60. É justamente nessa conta que uma nova disputa está sendo travada dentro dos escritórios: em vez de descer do prédio, enfrentar fila ou pedir delivery, o funcionário abre um freezer no corredor e encontra pratos a partir de R$ 19,90. Entre os mais vendidos estão baião de dois e fricassê de frango.

É assim que a Greentable tenta ganhar espaço no almoço corporativo. A empresa instala freezers abastecidos com refeições congeladas dentro de escritórios e vende diretamente ao funcionário. Em 15 meses, chegou a 400 operações.

Para acelerar a expansão, a Greentable passou a contar com uma parceria com o iFood Benefícios, que já levou seus freezers a 145 empresas. O canal corporativo responde hoje por cerca de 35% da receita e deve superar 60% até dezembro.

A mudança acontece depois de a companhia testar diferentes formas de chegar ao consumidor. Fundada há seis anos por Pedro Semeoni e Celso Guimarães, a Greentable começou com comida fresca, migrou para congelados, passou pelo e-commerce e entrou no varejo. Agora, cresce 150% ao ano, atingiu o breakeven há seis meses e prepara a produção para sair de 150 mil para 250 mil pratos por mês até o fim de 2026.

"Criamos uma solução que chamamos internamente de restaurante de um metro quadrado", diz Semeoni, fundador e CEO da Greentable. "Basicamente a gente instala um freezer com várias opções de pratos dentro."

O freezer resolveu parte da equação. Agora o desafio é provar que o modelo funciona fora da concentração de escritórios de São Paulo. O Rio de Janeiro foi a primeira expansão e a empresa pretende chegar a mais duas praças até o fim de 2027.

Como a Greentable transformou escritórios em pontos de venda

A Greentable levou alguns anos para encontrar o canal que hoje puxa seu crescimento.

No varejo tradicional, onde está presente há cerca de três anos, existe um intermediário entre a fábrica e o consumidor. O supermercado precisa colocar sua margem sobre o produto, o que aumenta o preço na prateleira. Semeoni diz que passou a enxergar esse canal mais como uma vitrine para a marca do que como motor de receita.

No escritório, a conta é diferente. A Greentable cede o freezer sem custo e abastece o equipamento com 21 opções. Os pratos custam entre R$ 19,90 e R$ 29,90. Sem um varejista no meio da operação, a companhia controla o preço final e ocupa justamente o lugar onde o consumidor começa a pensar no almoço.

A escala também vem de uma particularidade do modelo. A empresa conta cada laje comercial como uma operação. Um edifício com dezenas de empresas pode, portanto, receber vários freezers. Quanto mais próximos os clientes, menor o deslocamento necessário para reabastecê-los.

Parceria com iFood ajuda Greentable a chegar às empresas

A expansão ganhou outro empurrão com o iFood Benefícios.

Com a retomada do trabalho presencial, empresas clientes da plataforma passaram a relatar dificuldades no horário do almoço, como filas e preços altos em regiões de escritórios. A Greentable entrou como uma alternativa para manter a refeição dentro do prédio.

O iFood Benefícios tem mais de 65 mil empresas clientes e 1,5 milhão de usuários. Dentro dessa base, 165 empresas aderiram à parceria com a Greentable em São Paulo e no Rio de Janeiro. Dessas, 145 já têm freezer instalado.

Para quem usa o cartão do iFood Benefícios, há ainda desconto de 20% nos pratos.

A parceria também ajuda a Greentable a resolver uma das partes mais caras de qualquer expansão: encontrar clientes. Em vez de depender apenas de uma equipe comercial própria batendo à porta de cada empresa, a companhia acessa bases de parceiros que já têm relacionamento com o RH.

Marmita de R$ 19,90 disputa almoço com restaurante e delivery

O preço é uma das principais armas da Greentable, mas o mercado de marmitas também está mudando.

A pesquisa Alimentação Hoje, da consultoria Galunion, mostra que a parcela de consumidores que levava marmita ao trabalho ficou entre 75% e 77% de novembro de 2023 a agosto de 2025. Em abril de 2026, caiu para 61%. O levantamento ouviu 1.020 consumidores das classes A, B e C.

Ao mesmo tempo, os pedidos de marmitas congeladas pelo aplicativo do iFood cresceram quase 13% no primeiro semestre de 2026.

São indicadores diferentes, mas mostram uma disputa maior pela ocasião do almoço. A Greentable não concorre apenas com outras empresas de congelados. Disputa o dinheiro do funcionário com restaurante, delivery e a comida preparada em casa.

Os desafios para escalar marmitas congeladas

Para a Greentable, encurtar essa distância passa justamente pela capacidade de produzir e distribuir mais sem perder qualidade.

Colocar um freezer dentro de uma empresa é a parte simples. Mantê-lo abastecido em centenas de endereços é onde a operação começa a complicar. "A chave desse mercado é produção", diz Semeoni.

Segundo o executivo, uma das dificuldades de empresas de congelados é manter o padrão conforme o volume aumenta. "O consumidor sente muito rápido essa queda de qualidade, para de consumir e as empresas acabam quebrando", diz.

Para tentar evitar esse gargalo, a Greentable inaugurou em janeiro uma fábrica própria em Cotia, na Grande São Paulo. Segundo Semeoni, a unidade consegue produzir até oito vezes o volume atual. Hoje, saem cerca de 150 mil pratos por mês, e a meta é chegar a 250 mil até dezembro.

Ainda é uma escala pequena perto de quem lidera esse mercado. A Liv Up, líder no mercado de marmitas congeladas, produz cerca de 2,5 milhões de refeições por mês em uma fábrica de 10 mil metros quadrados. A empresa projeta faturar R$ 450 milhões neste ano e vem acelerando a expansão geográfica e a presença no varejo físico.

O segundo desafio é a logística. Em São Paulo, as entregas são feitas por frota refrigerada própria. A empresa também desenvolveu internamente o sistema usado para definir rotas e acompanhar temperatura e localização dos veículos. Fora do estado, os pratos seguem para um centro de distribuição e a última etapa, chamada de last mile, fica com um parceiro dedicado à operação.

"Logística também quebra empresa de congelados no Brasil", diz Semeoni.

A Greentable começou com investimento de R$ 3 milhões e captou outros R$ 5 milhões em uma rodada em 2021. Para Semeoni, controlar o caixa foi determinante para atravessar os primeiros anos.

"Se não tiver uma saúde financeira muito bem controlada, você quebra logo no primeiro ano", diz Semeoni.

A empresa diz ter atingido o breakeven há seis meses. A recompra de marmitas congeladas supera 50% e cerca de 30% dos 21 pratos disponíveis nos freezers são trocados a cada três meses.

Semeoni argumenta que a dificuldade está no que o consumidor não vê — fábrica, cadeia de frio, logística e capacidade de produzir em escala sem perder padrão. É justamente essa estrutura que será colocada à prova conforme a empresa entrar em outros estados.

Em 15 meses, a Greentable encontrou espaço para 400 "restaurantes de um metro quadrado". Agora precisa descobrir se o modelo que funciona em corredores de escritórios paulistanos consegue atravessar o país sem perder a conta que tornou a expansão possível.

"Agora a gente brinca que está um foguete sem ré", diz Semeoni. "Porque não tem mais como parar".

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