Pedro Semeoni, co-CEO da Greentable: “A chave desse mercado é produção” (Greentable/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 10h42.
Na hora do almoço, uma refeição na Berrini ou na Faria Lima pode custar entre R$ 50 e R$ 60. É justamente nessa conta que uma nova disputa está sendo travada dentro dos escritórios: em vez de descer do prédio, enfrentar fila ou pedir delivery, o funcionário abre um freezer no corredor e encontra pratos a partir de R$ 19,90. Entre os mais vendidos estão baião de dois e fricassê de frango.
É assim que a Greentable tenta ganhar espaço no almoço corporativo. A empresa instala freezers abastecidos com refeições congeladas dentro de escritórios e vende diretamente ao funcionário. Em 15 meses, chegou a 400 operações.
Para acelerar a expansão, a Greentable passou a contar com uma parceria com o iFood Benefícios, que já levou seus freezers a 145 empresas. O canal corporativo responde hoje por cerca de 35% da receita e deve superar 60% até dezembro.
A mudança acontece depois de a companhia testar diferentes formas de chegar ao consumidor. Fundada há seis anos por Pedro Semeoni e Celso Guimarães, a Greentable começou com comida fresca, migrou para congelados, passou pelo e-commerce e entrou no varejo. Agora, cresce 150% ao ano, atingiu o breakeven há seis meses e prepara a produção para sair de 150 mil para 250 mil pratos por mês até o fim de 2026.
"Criamos uma solução que chamamos internamente de restaurante de um metro quadrado", diz Semeoni, fundador e CEO da Greentable. "Basicamente a gente instala um freezer com várias opções de pratos dentro."
O freezer resolveu parte da equação. Agora o desafio é provar que o modelo funciona fora da concentração de escritórios de São Paulo. O Rio de Janeiro foi a primeira expansão e a empresa pretende chegar a mais duas praças até o fim de 2027.
A Greentable levou alguns anos para encontrar o canal que hoje puxa seu crescimento.
No varejo tradicional, onde está presente há cerca de três anos, existe um intermediário entre a fábrica e o consumidor. O supermercado precisa colocar sua margem sobre o produto, o que aumenta o preço na prateleira. Semeoni diz que passou a enxergar esse canal mais como uma vitrine para a marca do que como motor de receita.
No escritório, a conta é diferente. A Greentable cede o freezer sem custo e abastece o equipamento com 21 opções. Os pratos custam entre R$ 19,90 e R$ 29,90. Sem um varejista no meio da operação, a companhia controla o preço final e ocupa justamente o lugar onde o consumidor começa a pensar no almoço.
A escala também vem de uma particularidade do modelo. A empresa conta cada laje comercial como uma operação. Um edifício com dezenas de empresas pode, portanto, receber vários freezers. Quanto mais próximos os clientes, menor o deslocamento necessário para reabastecê-los.
A expansão ganhou outro empurrão com o iFood Benefícios.
Com a retomada do trabalho presencial, empresas clientes da plataforma passaram a relatar dificuldades no horário do almoço, como filas e preços altos em regiões de escritórios. A Greentable entrou como uma alternativa para manter a refeição dentro do prédio.
O iFood Benefícios tem mais de 65 mil empresas clientes e 1,5 milhão de usuários. Dentro dessa base, 165 empresas aderiram à parceria com a Greentable em São Paulo e no Rio de Janeiro. Dessas, 145 já têm freezer instalado.
Para quem usa o cartão do iFood Benefícios, há ainda desconto de 20% nos pratos.
A parceria também ajuda a Greentable a resolver uma das partes mais caras de qualquer expansão: encontrar clientes. Em vez de depender apenas de uma equipe comercial própria batendo à porta de cada empresa, a companhia acessa bases de parceiros que já têm relacionamento com o RH.
O preço é uma das principais armas da Greentable, mas o mercado de marmitas também está mudando.
A pesquisa Alimentação Hoje, da consultoria Galunion, mostra que a parcela de consumidores que levava marmita ao trabalho ficou entre 75% e 77% de novembro de 2023 a agosto de 2025. Em abril de 2026, caiu para 61%. O levantamento ouviu 1.020 consumidores das classes A, B e C.
Ao mesmo tempo, os pedidos de marmitas congeladas pelo aplicativo do iFood cresceram quase 13% no primeiro semestre de 2026.
São indicadores diferentes, mas mostram uma disputa maior pela ocasião do almoço. A Greentable não concorre apenas com outras empresas de congelados. Disputa o dinheiro do funcionário com restaurante, delivery e a comida preparada em casa.
Para a Greentable, encurtar essa distância passa justamente pela capacidade de produzir e distribuir mais sem perder qualidade.
Colocar um freezer dentro de uma empresa é a parte simples. Mantê-lo abastecido em centenas de endereços é onde a operação começa a complicar. "A chave desse mercado é produção", diz Semeoni.
Segundo o executivo, uma das dificuldades de empresas de congelados é manter o padrão conforme o volume aumenta. "O consumidor sente muito rápido essa queda de qualidade, para de consumir e as empresas acabam quebrando", diz.
Para tentar evitar esse gargalo, a Greentable inaugurou em janeiro uma fábrica própria em Cotia, na Grande São Paulo. Segundo Semeoni, a unidade consegue produzir até oito vezes o volume atual. Hoje, saem cerca de 150 mil pratos por mês, e a meta é chegar a 250 mil até dezembro.
Ainda é uma escala pequena perto de quem lidera esse mercado. A Liv Up, líder no mercado de marmitas congeladas, produz cerca de 2,5 milhões de refeições por mês em uma fábrica de 10 mil metros quadrados. A empresa projeta faturar R$ 450 milhões neste ano e vem acelerando a expansão geográfica e a presença no varejo físico.
O segundo desafio é a logística. Em São Paulo, as entregas são feitas por frota refrigerada própria. A empresa também desenvolveu internamente o sistema usado para definir rotas e acompanhar temperatura e localização dos veículos. Fora do estado, os pratos seguem para um centro de distribuição e a última etapa, chamada de last mile, fica com um parceiro dedicado à operação.
"Logística também quebra empresa de congelados no Brasil", diz Semeoni.
A Greentable começou com investimento de R$ 3 milhões e captou outros R$ 5 milhões em uma rodada em 2021. Para Semeoni, controlar o caixa foi determinante para atravessar os primeiros anos.
"Se não tiver uma saúde financeira muito bem controlada, você quebra logo no primeiro ano", diz Semeoni.
A empresa diz ter atingido o breakeven há seis meses. A recompra de marmitas congeladas supera 50% e cerca de 30% dos 21 pratos disponíveis nos freezers são trocados a cada três meses.
Semeoni argumenta que a dificuldade está no que o consumidor não vê — fábrica, cadeia de frio, logística e capacidade de produzir em escala sem perder padrão. É justamente essa estrutura que será colocada à prova conforme a empresa entrar em outros estados.
Em 15 meses, a Greentable encontrou espaço para 400 "restaurantes de um metro quadrado". Agora precisa descobrir se o modelo que funciona em corredores de escritórios paulistanos consegue atravessar o país sem perder a conta que tornou a expansão possível.
"Agora a gente brinca que está um foguete sem ré", diz Semeoni. "Porque não tem mais como parar".