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Na Riachuelo, funcionários criam IAs sem saber programar — e liberam 3.600 horas de trabalho

Programa interno da varejista capacita colaboradores de áreas como RH a desenvolverem ferramentas de IA em poucos dias, mirando eficiência e milhões em economia

Riachuelo: empresa pretende economizar horas (e dinheiro) com IA de funcionários (Riachuelo/Divulgação)

Riachuelo: empresa pretende economizar horas (e dinheiro) com IA de funcionários (Riachuelo/Divulgação)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 14 de outubro de 2026 às 09h01.

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Dois funcionários do RH da Riachuelo criaram em 12 dias uma plataforma para automatizar etapas das avaliações de desempenho, sem experiência prévia em programação. O projeto faz parte do Builders, programa que reúne soluções de inteligência artificial desenvolvidas por funcionários. A empresa estima que dez projetos gerem, em 2026, retorno potencial de R$ 16 para cada R$ 1 investido, mas não informou quanto desse valor já se concretizou.

Em 12 dias, dois funcionários da área de recursos humanos da Riachuelo criaram uma plataforma para automatizar etapas das avaliações de desempenho — e nenhum dos dois tinha experiência prévia em programação.

O projeto nasceu no Builders, programa que capacita funcionários a desenvolver soluções para problemas de suas próprias áreas, e o piloto foi usado por 52 colaboradores, segundo a empresa.

A Riachuelo estima que dez iniciativas do programa gerem, ainda neste ano, retorno potencial de R$ 16 para cada R$ 1 investido. A empresa não informou quanto desse valor já se concretizou.

Ney Santos, diretor executivo de tecnologia e inovação da Riachuelo, afirma em entrevista exclusiva à EXAME que o programa permite “tirar das planilhas manuais aqueles processos que antes não teriam a chance de se tornarem sistemas automatizados”.

Funcionários de áreas como RH, lojas, fábrica e finanças desenvolvem ferramentas para problemas de suas próprias rotinas, com apoio da equipe de tecnologia. “A velocidade que o negócio precisa exige uma nova forma de trabalhar com tecnologia", diz Santos.

A companhia já utiliza inteligência artificial em operações como precificação e gestão da cadeia produtiva. Em comunicado divulgado em setembro, a Riachuelo afirmou que o programa reunia 30 projetos em desenvolvimento, dos quais 20 estavam em fase piloto. As iniciativas abrangiam áreas como RH, operação de lojas, prevenção a fraudes, crédito e comércio eletrônico.

Como funcionam os projetos?

Um dos projetos é o WFM Hub, plataforma para organizar as escalas de funcionários nas lojas. Segundo Santos, a ferramenta foi implantada em todas as unidades em agosto e substituiu planilhas que permitiam aos gerentes visualizar apenas uma semana de operação. Agora, a plataforma reúne informações do mês, identifica picos de demanda e envia alertas.

A Riachuelo projeta que a mudança no modelo de escalas possa gerar entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões em economia. Santos afirma que a estimativa está ligada à distribuição mais eficiente das equipes e à possibilidade de evitar um aumento proporcional nas contratações. Segundo ele, a projeção não decorre apenas do software. “O foco absoluto está na maximização da eficiência e na melhor distribuição da força de trabalho, e não na redução do atual quadro de funcionários”, afirma.

Outro projeto, voltado à gestão de carreira e desempenho, está disponível para cerca de 33 mil colaboradores. A Riachuelo estima que a automação de etapas administrativas dos ciclos de avaliação possa liberar 3.600 horas de trabalho. O processo ocorre duas vezes por ano e inclui formulários, calibrações, lembretes e consolidação de relatórios.

A inteligência artificial não escreve avaliações por conta própria nem decide sobre a carreira dos funcionários, afirmou Santos. A ferramenta pode sugerir ajustes de tom em textos escritos por gestores, recomendar contribuições para planos de desenvolvimento individual e automatizar tarefas administrativas. A avaliação e as decisões continuam sob responsabilidade humana.

Na área de crédito, um agente de IA cruza informações cadastrais e societárias para sinalizar inconsistências e riscos. A companhia afirma que a ferramenta analisa cerca de 3 mil propostas por dia e tem potencial de proteger R$ 6 milhões em riscos. A IA não aprova nem recusa pedidos — a decisão final permanece com o analista. A iniciativa está ligada à operação de crédito consignado da Midway, braço financeiro da Riachuelo.

Funcionários sem formação técnica

O Builders começou depois que funcionários criaram, por iniciativa própria, mais de 1.500 agentes de inteligência artificial, segundo Ney Santos, diretor executivo de Tecnologia e Inovação da Riachuelo. As ferramentas ajudavam em tarefas individuais, mas não tinham escala para mudar processos de equipes inteiras. Esse uso espontâneo levou a empresa a estruturar um programa para desenvolver soluções com alcance maior.

Os participantes usam ferramentas de IA para criar interfaces, painéis e automações. A equipe de tecnologia entra quando o projeto precisa se conectar aos sistemas centrais da companhia, envolve dados sensíveis ou esbarra em um problema técnico. Na primeira turma, a incubadora interna ofereceu 120 sessões individuais de mentoria.

A capacitação também toca em uma dificuldade mais ampla do varejo: a falta de conhecimento interno sobre inteligência artificial. Esse foi o principal obstáculo à adoção da tecnologia para 46% dos executivos ouvidos em levantamento recente. Outras aplicações da tecnologia no setor, como automação de processos e previsão de demanda, foram abordadas nesta reportagem sobre IA no varejo.

Um dos exemplos do programa é a Plataforma de Carreira e Performance, criada por Melissa e Filipe, especialistas da área. Antes, os ciclos de avaliação exigiam tempo de lideranças e do RH. Uma solução pronta do mercado custaria à companhia mais de R$ 1,5 milhão por ano, sem contar os meses de implantação. Nenhum dos dois tinha experiência prévia com programação.

“O grande diferencial que une os nossos builders não é a formação técnica pregressa, mas sim o profundo domínio sobre os processos de negócios aliado à genuína vontade de otimizá-los”, afirma Santos.


Perguntas frequentes

Como a Riachuelo calcula o retorno potencial do Builders?

A empresa considera o impacto estimado de dez projetos em automação de tarefas, mitigação de riscos, recuperação de receita e substituição de licenças de terceiros. A conta compara esses impactos com cerca de R$ 300 mil em investimento direto previsto para 2026. A Riachuelo não informou quanto do retorno já foi realizado.

O que os funcionários podem desenvolver no programa?

Os participantes criam ferramentas para processos de suas próprias áreas, como interfaces, painéis e automações. Projetos que exigem integração com sistemas centrais, tratamento de dados sensíveis ou suporte técnico recebem apoio da equipe de tecnologia.

Quem toma as decisões em avaliações de desempenho e pedidos de crédito?

As decisões permanecem com pessoas. No RH, a IA pode apoiar a redação de feedbacks e tarefas administrativas, mas não avalia funcionários por conta própria. No crédito, sinaliza riscos, mas a aprovação ou recusa cabe ao analista.

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