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Mais de 50% das faixas do Deezer foram geradas por IA em junho

Músicas de IA já são maioria nos novos uploads do Deezer, mas 85% das reproduções eram fraudes. Plataforma intensifica remoção e combate a prejuízos para artistas

Deezer: empresa anunciou que músicas de IA cresceram na plataforma (Imagem gerada por IA/Exame)

Deezer: empresa anunciou que músicas de IA cresceram na plataforma (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 21 de julho de 2026 às 15h00.

O Deezer anunciou nesta terça-feira, 21, que as faixas geradas por inteligência artificial (IA) ultrapassaram a metade do total de músicas adicionadas diariamente à plataforma pela primeira vez na história.

Segundo a empresa, as músicas de IA responderam por mais de 50% dos uploads de junho, com uma média de 90 mil novos registros por dia.

A plataforma informou que passará a remover as faixas sintéticas usadas para gerar streams fraudulentos, além das que ficarem seis meses ou mais sem nenhuma reprodução.

O objetivo raramente é musical

O dado que explica a medida não é o volume, e sim o destino dessas faixas. A música totalmente gerada por IA representa hoje entre 1% e 3% dos streams da plataforma — uma fração pequena. Mas, segundo a Deezer, até 85% das reproduções geradas por essas faixas em 2025 eram fraudulentas.

A lógica da fraude é simples: subir milhares de faixas sintéticas custa quase nada, e cada reprodução artificial desvia uma parcela do bolo de royalties que seria distribuído entre os demais artistas. Ao detectar manipulação de streams, a empresa afirma excluir essas reproduções dos pagamentos.

"Chegamos a um momento crucial, mas temos a tecnologia para acompanhar o desenvolvimento e a ambição de fazer o que é certo", afirmou Alexis Lanternier, presidente-executivo da Deezer.

Segundo ele, se a indústria conseguir se alinhar em torno de padrões comuns, será possível construir um ecossistema musical mais sustentável.

A ferramenta que identifica o sintético

A detecção é feita por uma tecnologia proprietária, em funcionamento desde o início de 2025, capaz de reconhecer conteúdo produzido pelos modelos generativos mais usados, como Suno e Udio. A empresa afirma ter avançado na criação de um sistema capaz de generalizar — ou seja, identificar material sintético sem precisar de um conjunto de dados de treinamento específico para cada ferramenta.

Em 2025, mais de 13,4 milhões de faixas geradas por IA foram detectadas e rotuladas na plataforma. Em junho, a Deezer tornou-se a primeira plataforma de streaming a marcar explicitamente essas músicas com etiquetas de identificação.

Todas as faixas totalmente sintéticas já são removidas automaticamente das recomendações algorítmicas e não entram em playlists editoriais.

A empresa protocolou duas patentes da tecnologia em dezembro de 2024, publicadas pelos escritórios da União Europeia e dos Estados Unidos em junho de 2026, e agora licencia a ferramenta para outras companhias do setor.

O que está em risco

O impacto financeiro sobre quem vive de música tem estimativa.

Segundo estudo da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (Cisac) com a consultoria PMP Strategy — do qual a própria Deezer participou —, quase 25% da receita dos criadores está em risco até 2028, o que pode chegar a 4 bilhões de euros.

Ninguém percebe a diferença

A pesquisa que a Deezer encomendou ao Ipsos em novembro de 2025 ouviu 9 mil pessoas em oito países — Estados Unidos, Canadá, Brasil, Reino Unido, França, Holanda, Alemanha e Japão.

Em um teste cego com duas composições, uma feita por IA e outra por humanos, 97% dos participantes não souberam distinguir qual era qual.

A incapacidade de identificar, porém, convive com o desejo de ser avisado. Entre os entrevistados, 80% concordam que a música totalmente gerada por IA deve ser claramente identificada para os ouvintes, e 73% gostariam de saber quando um serviço de streaming está recomendando uma faixa desse tipo.

O ouvinte brasileiro

No Brasil, o índice de quem não distinguiu uma música de IA de outra feita por humanos também foi de 97%, e 73% querem transparência nas recomendações.

A diferença aparece na curiosidade. O Brasil é o país com maior interesse pelo tema entre os pesquisados, com 65%, e 76% dos brasileiros afirmam ouvir música gerada por IA ao menos uma vez por curiosidade.

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