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A prisão do fundador do Telegram na França expõe até onde democracias estão dispostas a ir para controlar a informação — e o alerta já chegou ao Brasil

Miguel Fernandes
Miguel Fernandes

Chief Artificial Intelligence Officer da Exame

Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 16h01.

Última atualização em 2 de fevereiro de 2026 às 11h47.

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Pavel Durov estava sentado em uma cela francesa sem janelas quando percebeu: o jogo havia mudado. Não era mais sobre construir empresas ou acumular bilhões. Era sobre até onde um governo democrático iria para controlar a informação.

Quatro dias em concreto frio. Sem travesseiro. Sem acusação formal.

O fundador do Telegram, avaliado em US$ 15,5 bilhões, enfrentava uma escolha que poucos executivos brasileiros conseguem imaginar: entregar chaves de criptografia de 1 bilhão de usuários ou permanecer preso. Sua decisão expõe uma tensão crescente entre Big Tech e governos, uma tensão que já chegou ao Brasil.

A Barganha Francesa

Agentes de inteligência da França foram diretos. Durante as eleições na Romênia, vozes políticas circulavam no Telegram. O governo queria acesso. Queria moderação. Queria controle.
"Colabore e facilitamos sua situação", disseram.

Durov recusou publicamente. A prisão veio em agosto de 2024. As acusações permaneceram vagas — cumplicidade em crimes cometidos por usuários da plataforma. O mesmo argumento que poderia implicar qualquer CEO de rede social.

Enquanto isso, Meta reportou US$ 134 bilhões em receita anual. Google, US$ 307 bilhões. Ambos entregam dados a governos rotineiramente sob ordens judiciais. Ninguém foi preso.

A diferença? Telegram usa "reproducible builds", código auditável por qualquer pessoa. WhatsApp e Instagram não. Você simplesmente confia.

O Experimento Brasileiro

No Brasil, a questão não é teórica. O Supremo Tribunal Federal bloqueou o X (ex-Twitter) por 38 dias em 2024, impactando 40 milhões de usuários. Empresas brasileiras perderam canais de atendimento da noite para o dia. Startups viram estratégias de marketing evaporarem.

O Telegram não foi tocado, ainda. Mas executivos brasileiros deveriam prestar atenção.

"Quando governos ganham poder de decidir o que é desinformação, quem vigia os vigilantes?", questionou Durov em entrevista recente.

No Brasil, bancos digitais dependem de WhatsApp para onboarding. Varejistas usam Instagram para vendas. Toda a infraestrutura de comunicação corporativa brasileira está em plataformas que podem desaparecer com uma decisão judicial.

O Paradoxo da Conveniência

Durov diz que faz 300 flexões diariamente. Não porque precisa, mas porque escolheu a dificuldade. Acho que é uma metáfora.

Em uma entrevista recente, ouvi ele citar o "experimento do paraíso dos ratos". Cientistas criaram o ambiente perfeito: comida ilimitada, sem predadores, temperatura ideal. Resultado: extinção total. Ratos pararam de se reproduzir, desenvolveram comportamentos autodestrutivos, desapareceram mesmo cercados de abundância.

"Taxas de natalidade despencando. Depressão em alta. Pessoas perdendo propósito", ele observa sobre sociedades modernas.

O Custo Real da Privacidade

Durov não pode viajar livremente. Seu negócio está sob ataque constante. Ele acredita ter sobrevivido a tentativa de envenenamento.

Esse é o preço da resistência.

A maioria dos executivos não pagaria. Preferem a ilusão de liberdade com a realidade da conveniência. Assinam termos de serviço sem ler. Entregam dados de clientes para algoritmos que não entendem.

Mas reconhecer isso já é um primeiro passo.

O Processo Kafkiano Digital

No livro "O Processo", de Kafka, o protagonista é preso por crime nunca especificado. Passa por julgamento que nunca acontece. Eventualmente desiste.

"A vitória da tirania não é te matar, é te exaurir até você aceitar a faca sem resistência", disse Durov.

Quantas empresas brasileiras vivem processo kafkiano permanente? Sempre esperando aprovação de algoritmos. Sempre julgadas por métricas invisíveis. Sempre sob escrutínio de sistemas que não compreendem.

A questão não é se você valoriza privacidade. É se valoriza o suficiente para agir diferente do mainstream.

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