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Fábio Coelho: presidente do Google Brasil está há 15 anos no cargo (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter
Publicado em 29 de abril de 2026 às 05h32.
A inteligência artificial (IA) não é uma bolha nem uma tendência passageira, segundo Fábio Coelho, presidente do Google Brasil. Para ele, a IA é uma tecnologia de propósito geral com potencial para elevar a produtividade das empresas e criar abundância em setores críticos como habitação, alimentação, energia e logística.
Segundo o executivo, a IA inaugura um novo ciclo econômico ao ampliar a capacidade humana de resolver problemas complexos. “A inteligência artificial pode criar abundância. Olha o nosso déficit habitacional”, afirma em entrevista à EXAME.
Coelho está à frente da operação brasileira do Google há 15 anos, desde 2011, período em que acompanhou a transformação da tecnologia no país.
Nesse intervalo, ele identifica três fases distintas: a tecnologia como elemento acessório, depois complementar — especialmente durante a pandemia — e, agora, preponderante, impulsionada justamente pela inteligência artificial.
“Mudou tudo. Mudou a relação do brasileiro com a tecnologia, o entendimento de que a tecnologia, naquela época, era acessória na vida das pessoas; depois ela passou a ser complementar e importante”, diz. “Isso significa que o Google hoje é um player digital que é importante para as empresas buscarem eficiência, seja pela da parte de anúncio, seja na parte de nuvem também, porque a gente também começou a entender que havia a possibilidade de ter uma infraestrutura mais escalável."
Para Coelho, a inteligência artificial difere de ciclos anteriores de tecnologia porque chega com uma base já consolidada. A combinação de data centers, chips avançados, cabos submarinos e modelos robustos cria um ambiente pronto para escala.
“Não é uma bolha”, afirma. “A inteligência artificial passa a ser o nosso segundo cérebro ou o nosso assistente pessoal turbinado, fazendo com que a gente possa exercer funções de uma maneira como a gente não exercia antes.”
O impacto vai além de melhorias incrementais. A IA permite resolver problemas que antes eram considerados insolúveis ou inacessíveis. “Não é só uma busca melhor. É a capacidade de resolver problemas de formas que não existiam.”
Esse avanço também descentraliza o acesso à inteligência. Cada indivíduo passa a operar com múltiplos assistentes digitais, ampliando sua capacidade de decisão e execução.
A avaliação do executivo converge com a visão global da companhia. Segundo ele, o CEO do Google, Sundar Pichai, considera a IA “a transformação mais importante que vamos viver”. Ao lado da computação quântica, para Coelho, a tecnologia deve conduzir os próximos 20 a 25 anos de inovação.
No cotidiano, Coelho já incorporou a inteligência artificial como ferramenta central de trabalho. O uso, segundo ele, vai da organização pessoal à interação com clientes.
“Passo o meu dia inteirinho perguntando e conversando com a inteligência artificial”, afirma.
A tecnologia é usada para estruturar agendas, documentar reuniões automaticamente e apoiar decisões comerciais. Também funciona como complemento em conversas estratégicas.
Segundo ele, o salto recente é significativo. “Já está num nível de avanço absurdamente melhor do que era há três, quatro anos atrás.”
A adoção prática da IA reflete uma mudança mais ampla no perfil dos executivos. A tecnologia deixa de ser suporte e passa a integrar o processo decisório em tempo real.
O debate sobre substituição de empregos acompanha cada nova onda tecnológica. Coelho reconhece que algumas funções, especialmente de entrada, podem ser impactadas, mas rejeita a visão de ruptura inédita.
“Isso não começou agora. Começou na Revolução Industrial”, afirma.
Para ele, o foco deve ir além da substituição e considerar o potencial de geração de valor. A IA pode reduzir custos estruturais e ampliar acesso a bens essenciais.
No setor de habitação, por exemplo, a automação pode viabilizar construções mais baratas e sustentáveis. “Você já imaginou robôs construindo casas mais acessíveis? Isso não está longe.”
Na alimentação, a tecnologia pode reduzir desperdícios ao longo da cadeia produtiva. Coelho cita iniciativas na Europa, como supermercados na Dinamarca que vendem produtos próximos ao vencimento a preços mais baixos.
“Se a gente conseguir produzir mais alimento, usar melhor a energia, reduzir desperdício, isso é abundância”, afirma.
A lógica se estende à energia e à logística, com potencial de otimização e redução de custos em larga escala. O desafio, segundo ele, está em escalar soluções que hoje ainda operam de forma isolada.
Coelho vê o Brasil como um ambiente propício para aplicação de inteligência artificial, especialmente em setores onde o país já possui vantagem competitiva, como agronegócio, energia e logística.
A tecnologia também pode atuar como ferramenta de inclusão. O executivo cita o caso de um estudante da Bahia que conquistou o primeiro lugar em medicina após estudar pelo YouTube.
“Cada vez mais o YouTube pode ajudar”, afirma. “A gente precisa transformar menos casos de um em mais casos de muitos.”
A ampliação do acesso a conhecimento e ferramentas digitais pode reduzir desigualdades estruturais. O desafio, para o executivo, está em escalar essas oportunidades para além de exemplos isolados.
Ao olhar para sua trajetória, o executivo identifica mudanças relevantes no modelo de gestão. A principal delas é a transição de estruturas hierárquicas para decisões mais distribuídas.
“Ouça mais e aprenda mais. A receita de sucesso de outras empresas não é necessariamente a receita dessa empresa”, afirma.
Segundo ele, o modelo de “comando e controle” perdeu espaço para abordagens mais colaborativas. Envolver diferentes perspectivas no processo decisório tende a gerar resultados mais consistentes.
A mudança reflete um ambiente corporativo mais transparente e dinâmico, em que profissionais têm maior autonomia e capacidade de escolha.
Após 15 anos no comando do Google Brasil, Coelho resume sua filosofia de liderança em um princípio central. “Pessoas seguem pessoas”.
A construção de equipes baseadas em confiança, respeito e visão compartilhada é, segundo ele, o principal diferencial competitivo. “Passa por ter as pessoas certas, construir relações de confiança e trabalhar com uma visão de futuro.”
Para Coelho, o impacto será abrangente: mais produtividade, mais acesso e, potencialmente, menos desigualdade. A tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser infraestrutura central do desenvolvimento econômico.
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