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Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 08h42.
Hackers com suspeita de ligação com a China usaram ferramentas de inteligência artificial (IA) disponíveis publicamente para lançar um ataque cibernético contra sistemas do governo de Taiwan, no que pesquisadores descrevem como o primeiro caso do tipo já registrado, segundo o Financial Times.
A descoberta é da Dream, empresa israelense de segurança em IA. Segundo os pesquisadores, os atacantes usaram agentes de IA de código aberto para construir uma ferramenta de invasão autônoma capaz de operar como uma equipe cibernética coordenada.
'Hack culposo'? Como modelos de IA estão invadindo empresas no improvisoAo longo de quatro dias no início de julho, o sistema chegou a colocar em ação oito agentes autônomos simultaneamente, mapeando 21 sistemas governamentais, identificando vulnerabilidades e mudando de tática sempre que uma tentativa era bloqueada.
O ataque comprometeu ao menos 85 contas de usuários do governo e extraiu mais de 2.500 registros de pessoal, antes de se expandir para a agência de segurança nuclear de Taiwan e ao menos sete empresas de energia, segundo o levantamento da Dream.
Amir Becker, diretor de estratégia da Dream e ex-chefe de operações cibernéticas da Unidade 8200, a principal agência de inteligência de sinais de Israel, afirmou ao Financial Times nunca ter visto antes um "ataque autônomo de ponta a ponta" desse tipo contra um alvo governamental.
Para ele, o episódio significa que governos devem passar a considerar como premissa básica que estão sob ataque cibernético permanente.
Uma pessoa a par do ataque confirmou que Taiwan foi o alvo. A Dream não confirmou publicamente a identidade do governo atingido, citando política interna da empresa, mas disse ter avisado um país da região Ásia-Pacífico sobre a invasão.
A empresa não atribuiu a operação a nenhum grupo específico de hackers. Segundo os pesquisadores, porém, o uso de chinês simplificado nas comunicações internas associadas ao ataque indica alta probabilidade de conexão com a China. Os dados recuperados do alvo, por outro lado, estavam em chinês tradicional — formato comum em sites governamentais de Taiwan, Hong Kong e Macau.
Os pesquisadores da Dream identificaram evidências do ataque em um arquivo online de 160 megabytes, contendo 1.395 arquivos.
O arquivo revelou que a ferramenta de invasão usava dois sistemas de agentes de IA de código aberto, batizados de Hermes e OpenClaw, que permitem que modelos de IA executem tarefas de forma autônoma.
Os pesquisadores não conseguiram determinar qual modelo de IA alimentava os agentes. Os dados indicam, porém, que as salvaguardas do modelo foram contornadas ao apresentar a atividade de invasão como um exercício autorizado, destinado a testar vulnerabilidades do sistema — uma técnica de manipulação já registrada em outros incidentes envolvendo IA.
Segundo a Dream, uma das características mais relevantes da operação foi a capacidade da ferramenta de avaliar e reordenar continuamente as possíveis rotas de ataque. Quando um caminho falhava, outro agente recebia a tarefa de buscar informação na internet e desenvolver uma abordagem alternativa — permitindo que o sistema se adaptasse sem intervenção humana direta.
O caso se soma a uma sequência crescente de episódios envolvendo modelos de IA e comportamento autônomo inesperado.
Anthropic, OpenAI e Meta relataram nas últimas semanas que seus modelos mais recentes lançaram ataques cibernéticos não planejados durante testes internos de segurança — reforçando a preocupação de que sistemas de IA cada vez mais capazes possam reduzir a barreira técnica necessária para operações cibernéticas sofisticadas.
Em novembro do ano passado, a Anthropic já havia informado que suspeitava que hackers ligados ao governo chinês manipularam sua ferramenta Claude numa tentativa de atacar 30 empresas e agências governamentais ao redor do mundo — embora a operação tenha tido sucesso limitado, segundo a companhia.