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Seu próximo chefe pode ser um algoritmo: como a IA está mudando a gestão no trabalho (Magnific)
Jornalista
Publicado em 1 de outubro de 2026 às 11h56.
Imagine começar o expediente e receber as tarefas do dia de um sistema. Ao longo das horas, ele acompanha indicadores, identifica atrasos, compara resultados e sugere o que deve ser feito em seguida. No fim do período, também pode gerar uma avaliação sobre seu desempenho.
Não é apenas um cenário futurista. Esse modelo já existe em diferentes setores e está relacionado ao avanço da gestão algorítmica, conceito usado para descrever softwares que automatizam ou apoiam atividades tradicionalmente realizadas por gestores.
O algoritmo não precisa ter um rosto ou uma voz para exercer uma função de chefe. Basta que esteja envolvido em decisões como distribuição de tarefas, monitoramento, avaliação ou definição de prioridades.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a gestão algorítmica envolve softwares capazes de automatizar ou apoiar tarefas de gestão. Isso pode incluir instruir, monitorar e avaliar trabalhadores.
A inteligência artificial pode fazer parte desses sistemas, mas não é obrigatória. Um algoritmo baseado em regras fixas também pode definir a sequência de tarefas ou identificar quando determinado indicador foge do padrão.
Na prática, isso significa que algumas funções tradicionalmente desempenhadas por gestores podem ser parcialmente transferidas para sistemas digitais.
Uma pesquisa publicada pela OCDE em 2025, baseada em mais de 6 mil empresas de França, Alemanha, Itália, Japão, Espanha e Estados Unidos, identificou ampla adoção de ferramentas de gestão algorítmica nos países analisados.
Nos Estados Unidos, 90% dos gestores pesquisados disseram que suas empresas haviam adotado pelo menos uma ferramenta para instruir, monitorar ou avaliar trabalhadores. A média ficou em 79% nos quatro países europeus analisados e em 40% no Japão.
Isso não significa que essas empresas tenham substituído seus chefes por inteligências artificiais. Em muitos casos, o algoritmo funciona como uma camada de apoio à gestão, enquanto a decisão final permanece com uma pessoa.
Um estudo publicado em 2026 sobre organizações tradicionais também identificou a expansão da gestão algorítmica entre trabalhadores contratados diretamente pelas empresas, área que durante muito tempo foi mais associada às plataformas digitais.
A principal mudança pode estar menos na existência de um "chefe robô" e mais na quantidade de decisões sobre o trabalho que passam a ser mediadas por sistemas.
Um profissional pode, por exemplo, receber uma tarefa porque um sistema identificou que determinada atividade tem prioridade. Da mesma forma, um gestor pode receber um alerta indicando que um funcionário apresentou queda em determinado indicador.
Isso cria uma nova dinâmica: o trabalhador passa a interagir com decisões produzidas ou influenciadas por algoritmos, mesmo quando ainda existe um gestor humano responsável pela equipe.
Uma pesquisa da OCDE aponta que gestores percebem ganhos na qualidade das decisões com essas ferramentas, mas também relatam problemas como dificuldade para compreender a lógica dos sistemas, dúvidas sobre responsabilidade pelas decisões e preocupações com a proteção da saúde dos trabalhadores
Os estudos disponíveis não apontam para uma substituição generalizada dos gestores por algoritmos. O que aparece é uma transformação das funções de gestão.
Uma pesquisa publicada em 2026 com gestores e trabalhadores de organizações não relacionadas a plataformas digitais encontrou diferenças na forma como os dois grupos percebem a gestão algorítmica.
Outro estudo, realizado em empresas espanholas, identificou que gestores podem assumir uma nova função: interpretar os resultados produzidos pelos sistemas e traduzi-los para o trabalho cotidiano. Nesse modelo, o gestor não necessariamente deixa de existir. Ele pode passar a atuar como intermediário entre o algoritmo e a equipe.
Para o profissional, isso aumenta a importância de entender como ferramentas de inteligência artificial são utilizadas para medir produtividade, organizar tarefas e apoiar decisões.
A questão, portanto, não é apenas se um algoritmo poderá ocupar o lugar do chefe. Em muitos ambientes, ele já está ocupando parte das funções do chefe. O próximo passo é entender quais decisões podem ser automatizadas, quais exigem supervisão humana e como essas escolhas afetam quem está do outro lado do sistema.
A OCDE e a Organização Internacional do Trabalho destacam justamente a necessidade de transparência, governança e participação dos trabalhadores na implementação dessas tecnologias.