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(Google/Divulgação)
Colaboradora
Publicado em 19 de setembro de 2026 às 10h53.
Última atualização em 19 de setembro de 2026 às 11h12.
O Gemini, modelo de inteligência artificial do Google, acessou e invadiu os sistemas de três empresas reais durante testes de cibersegurança realizados em maio pela Irregular, startup israelense especializada na avaliação de segurança de modelos avançados de IA. O episódio é o primeiro caso conhecido em que um sistema de IA do Google ultrapassou o ambiente de testes e realizou acessos não autorizados a empresas reais.
Os testes deveriam ocorrer em um ambiente isolado da internet e utilizavam empresas fictícias para avaliar as capacidades de cibersegurança do Gemini. No entanto, segundo a Irregular, o acesso à rede foi disponibilizado acidentalmente. Com a conexão, o modelo passou a encontrar informações e credenciais de organizações reais na internet.
Em um dos episódios, o Gemini recebeu a tarefa de obter informações de um software pertencente a uma empresa fictícia. O nome utilizado na simulação, porém, era o mesmo de uma companhia real. Depois de acessar a internet, o modelo identificou a empresa verdadeira e conseguiu adivinhar a senha de um sistema protegido, obtendo acesso à infraestrutura.
Nos outros dois casos, o Gemini encontrou na internet repositórios públicos que continham credenciais de duas empresas reais. O modelo utilizou essas informações para acessar os sistemas das companhias.
Nos três episódios, o Gemini interrompeu as ações depois de identificar que havia acessado empresas reais, e não os ambientes simulados previstos no teste. Segundo o Google, nenhuma das companhias sofreu danos em decorrência dos acessos.
Heather Adkins, vice-presidente de engenharia de segurança do Google, afirmou que o modelo encontrou informações públicas e tentou utilizar credenciais para acessar sites que acreditava fazerem parte da avaliação. Segundo ela, o Gemini parou nos três casos assim que identificou que os sistemas pertenciam a empresas reais.
“Esses eventos destacam a importância de treinar modelos poderosos de IA para agir de maneira responsável”, afirmou Adkins em comunicado. O Google também informou que as três empresas afetadas foram comunicadas e que trabalhou com a Irregular para modificar os procedimentos utilizados nos testes.
A Irregular informou que identificou o problema, notificou os laboratórios envolvidos e comunicou as empresas afetadas. A companhia afirmou ainda que o acesso indevido à internet foi corrigido e que os problemas identificados em seus processos de avaliação foram solucionados semanas antes da divulgação dos casos.
A startup comunicou os incidentes ao Google no fim de julho, depois de descobrir que um modelo da OpenAI havia acessado a plataforma de software Hugging Face durante outro teste. A Irregular também esteve envolvida em avaliações que resultaram em incidentes semelhantes envolvendo modelos da OpenAI, Anthropic e Meta.
Apesar de ter sido informado sobre os episódios em julho, o Google não os anunciou voluntariamente ao público. A empresa confirmou os incidentes somente depois que o Wall Street Journal questionou a companhia sobre os acessos. Segundo o Google, a decisão de não divulgar anteriormente os casos levou em conta que o modelo havia interrompido as ações e não causado danos às empresas.
A postura foi diferente da adotada por OpenAI e Anthropic, que divulgaram publicamente incidentes semelhantes envolvendo seus modelos durante testes de segurança. Os episódios vêm aumentando a discussão sobre como testar sistemas de IA capazes de operar de maneira mais autônoma e com acesso a ferramentas digitais.
Os casos envolvendo diferentes empresas fazem parte de uma sequência de incidentes em que modelos de IA, durante avaliações de segurança, obtiveram acesso a sistemas externos e passaram a realizar ações fora do ambiente originalmente previsto. Para especialistas e empresas do setor, os episódios colocam em evidência a necessidade de estabelecer barreiras mais robustas para modelos que recebem autonomia e capacidades de cibersegurança.
Após incidentes envolvendo OpenAI e Anthropic, o senador independente Bernie Sanders pediu uma pausa no desenvolvimento dessas tecnologias, argumentando que os episódios demonstrariam dificuldades de controle sobre modelos avançados. A OpenAI interrompeu o desenvolvimento de modelos por duas semanas, enquanto o CEO da Anthropic, Dario Amodei, defendeu uma desaceleração coletiva no desenvolvimento de IA para garantir a implementação de salvaguardas.
O debate, porém, não é consensual entre executivos do setor. Enquanto alguns defendem desacelerar o desenvolvimento para priorizar medidas de segurança, outros, como Jensen Huang, CEO da Nvidia, defendem a continuidade do ritmo de avanço da tecnologia.
No caso do Gemini, a Irregular afirma que a causa central dos incidentes foi a disponibilização acidental de acesso à internet durante os testes — uma falha que, segundo a empresa, já foi corrigida. O Google, por sua vez, destaca que o episódio reforça a necessidade de desenvolver e treinar modelos avançados para agir de maneira responsável, especialmente quando recebem capacidades para executar tarefas de cibersegurança.
Com informações de The Guardian