Executivo da Microsoft teme que a redução do incentivo governamental à pesquisa exporte talentos e novidades para outros países (Jim WATSON / AFP/Getty Images)
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Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 14h01.
Os cortes promovidos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no financiamento federal à pesquisa acadêmica podem ameaçar a liderança do país no setor de inteligência artificial, alertou Eric Horvitz, diretor científico da Microsoft. Em entrevista ao Financial Times, o executivo disse que a redução de verbas para universidades e agências federais pode empurrar talentos e inovação para o exterior e favorecer rivais, como a China, na corrida tecnológica.
Os Estados Unidos mantêm, há décadas, a liderança global no ensino superior e pesquisa, que impulsionam o avanço científico e econômico do país. No entanto, essa posição vem sendo cada vez mais pressionada pela gestão Trump, que já tirou bilhões de dólares do caminho de universidades e instituições federais — em alguns casos, os cortes chegam a comprometer quase metade dos recursos destinados à pesquisa acadêmica. Na maioria das vezes, o governo justificou a medida como parte da estratégia de corte de gastos ou por alinhamento ideológico, como o bloqueio de recursos para iniciativas de diversidade.
"Pessoalmente, acho difícil entender a lógica de tentar competir com países rivais ao mesmo tempo em que se fazem esses cortes", disse Horvitz, um dos únicos nomes do meio a se posicionar publicamente sobre o assunto. Ele argumenta que, sem o apoio do governo, os Estados Unidos estariam a "décadas de distância" do atual "momento" da IA.
Essa ação o coloca contra a maré da maioria dos executivos de tecnologia no geral, que têm buscado manter uma boa relação com Trump e evitado fazer críticas públicas. A própria Microsoft, inclusive, doou para o comitê de posse do republicano e para o novo salão de baile da Casa Branca.
Para Horvitz, o modelo norte-americano de financiamento público à ciência foi decisivo para o desenvolvimento acadêmico e tecnológico do país. Ele citou o período pós-Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos criaram, na década de 1950, a National Science Fundation (NSF). A agência passou a responder por mais de 1/4 do financiamento federal destinado à pesquisa em faculdades e outras instituições.
Segundo o executivo, "essa visão se mostrou uma maneira impressionante de investir no futuro". "Ao apostarmos no intelecto e nas ideias, podemos tornar o mundo melhor de maneiras surpreendentes", acrescentou. No entanto, desde 2025, a gestão Trump já cancelou mais de 1.600 bolsas da NSF, que equivaliam a quase US$ 1 bilhão (R$ 5,83 bi) em financiamento.
Como reação aos cortes de Trump, Horvitz se uniu à Margaret Martonosi, professora da Universidade de Princeton e ex-dirigente da área de ciência da computação da NSF, para reunir exemplos concretos de como o investimento público impulsionou avanços científicos importantes para o país.
Parte desse esforço reuniu vencedores do Prêmio Turing, que destacaram em publicação da Association for Computing Machinery (ACM) o papel do financiamento público em avanços centrais do ramo. Entre os exemplos estão Andrew Barto e Richard Sutton, relacionados ao desenvolvimento da aprendizagem por reforço — que hoje é a base do treinamento de sistemas de inteligência artificial de empresas como o Google, OpenAI e Microsoft.
Horvitz destaca que muitas das ideias que hoje baseiam os modelos de linguagem e sistemas multimodais surgiram em contextos acadêmicos, a partir de pesquisas teóricas sobre inteligência.
Martonosi, por sua vez, reforça que a transferência do conhecimento da universidade para a indústria é recorrente e mensuráveis, sobretudo na cadeia de semicondutores e eletrônicos. "Tive patentes licenciadas por grandes fabricantes de chips e vi minhas ideias serem implementadas em praticamente todos os laptops do mercado", disse ela.
A política de cortes de Trump tem forçado instituições acadêmicas a reavaliar sua governança e sustentabilidade financeira. Como resultado, pesquisadores e estudantes deixam o país ou migram para o setor privado, atraídos pelo acesso a recursos financeiros e técnicos oferecidos pelas gigantes da tecnologia.
É por isso que o resultado ultrapassa a questão da inteligência artificial. Universidades tradicionais, como Columbia e Penn, tiveram financiamentos suspensos após acusações do governo de falhas no combate ao antissemitismo ou de promoção de iniciativas de diversidades consideradas ilegais. No caso da Columbia, o governo bloqueou US$ 400 milhões (R$ 2.155 bi) até que a universidade aceite mudanças em sua política interna.
Com menos bolsas e financiamento, várias instituições já reduziram vagas em programas de pós-graduação, limitando o acesso a carreiras científicas e a formação de uma nova geração de pesquisadores.
Para Horvitz, o risco dessa postura é iminente. Ele argumenta que se os Estados Unidos abandonarem o modelo que, por décadas, atraiu talentos e fomeou o desenvolvimento científico por meio das universidades, esse ecossistema tende a se consolidar em outros países.
"Se não seguirmos esse modelo, a atração de talentos, o treinamento e os investimentos impulsionados pela curiosidade acontecerão em outros lugares. Mais do que aqui", concluiu.