Inteligência Artificial

Como o Google mudou a estratégia e se recolocou na disputa pela liderança da IA

Após perder espaço para o ChatGPT, empresa investiu na reformulação de mecanismos de busca, lançou o Gemini e voltou ao topo do setor de inteligência artificial

Google muda estratégia, acelera IA e pressiona OpenAI (CAMILLE COHEN / Colaborador/Getty Images)

Google muda estratégia, acelera IA e pressiona OpenAI (CAMILLE COHEN / Colaborador/Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 14h30.

O crescimento acelerado da inteligência artificial nos últimos anos teve como pano de fundo uma disputa direta pela liderança tecnológica do setor, com o Google assumindo a dianteira em desempenho e integração após o lançamento do Nano Banana em agosto e do Gemini 3 em novembro de 2025. A novidade superou o ChatGPT e outros concorrentes em testes para geração de texto, processamento de imagens e codificação, o que também impulsionou as ações da empresa após o anúncio.

O topo do ranking, no entanto, nem sempre pertenceu ao gigante da tecnologia: ele foi passado para trás na corrida dos chatbots em 2022, com o sucesso estrondoso do ChatGPT, da OpenAI. A reação foi planejada e executada pelos três anos seguintes, em que o Google reorganizou sua estratégia por meio da aceleração de investimentos e o desenvolvimento de modelos e aplicações de IA.

Um artigo assinado pela jornalista Katherine Blunt e publicado no Wall Street Journal detalha esse processo de ascensão do Google no setor. A reportagem indica que a "virada" veio com o aprimoramento do Gemini, a maior reformulação do mecanismo de busca em anos e uma estratégia que incluiu desde pesquisas a longo prazo até mudanças na liderança — que só foram possíveis a partir de bases construídas em mais de uma década.

14 anos de desenvolvimento

A infraestrutura tecnológica do Google foi um diferencial estratégico central na corrida da IA. A criação do Google Brain em 2011, somada à compra da DeepMind nos anos seguintes, possibilitou o investimento no desenvolvimento de chips próprios de IA, as unidades de processamento tensorial (TPUs), voltadas para reduzir consumo energético e operacional. Quando a demanda por computação disparou com a popularização dos modelos generativos, o Google já tinha uma base sólida para competir.

Em 2015, sob a liderança de Sundair Pichai, a empresa colocou a IA como eixo central da estratégia corporativa. Na época, ele chegou a declarar que a empresa deixaria de priorizar apenas dispositivos móveis para apostar em modelos "AI-first". Essa nova diretriz foi o guia da integração entre pesquisa científica e produtos comerciais, ainda que, nos primeiros anos, o avanço tenha sido mais cuidadoso que o dos concorrentes.

Foi esse "cuidado" que marcou a atuação inicial do Google no setor: existia a preocupação de executivos e pesquisadores em relação à geração de informações imprecisas, enviesadas ou problemáticas. Testes internos indicavam que modelos iniciais poderiam ser induzidos a respostas racistas, sexistas e sem embasamento científico, o que levou a restrições de uso e atrasou lançamentos ao público.

Pressão da concorrência

Em 2022, a empresa seguia com sua postura cautelosa em relação à inteligência artificial. Em agosto daquele ano, apresentou o LaMDA a um grupo limitado de usuários, por meio do aplicativo AI Test Kitchen.

Mas tudo mudaria três meses depois, com o lançamento do ChatGPT sem restrições significativas. Em apenas cinco dias, um milhão de pessoas se escreveram para testar o serviço, o que consolidou o chatbot como referência do setor e aumentou a pressão sobre o Google.

Além da pressão, a OpenAI também plantou dúvidas entre analistas e investidores sobre a capacidade de reagir. O mercado passou a questionar se os chatbots poderiam ameaçar o domínio da empresa nas buscas online — fatia grande de sua receita publicitária, que somou US$ 254 bilhões (R$  1.364 trilhão) em 2022.

Resposta do Google

A reação do Google começou com uma reestruturação interna. Em janeiro de 2023, líderes das áreas de IA apresentaram ao conselho da Alphabet, a controladora da empresa, um plano para criar o modelo mais avançado da empresa até então — que previa, entre outras medidas, a unificação das divisões DeepMind e Brain.

Com a reestruturação ainda em curso, o Google lançou em fevereiro de 2023 o Bard, um chatbot baseado no modelo LaMDA, como uma resposta urgente à popularidade do ChatGPT. O lançamento foi tratado internamente como um produto intermediário, mas ainda assim não trouxe fôlego para a empresa: um erro factual em um vídeo promocional levou a uma queda de 8% nas ações da Alphabet em um único dia.

A partir de então, a empresa consolidou a unificação dos laboratórios, cancelou projetos paralelos e concentrou esforços no desenvolvimento do que seria o Gemini, modelo que passaria a centralizar a estratégia de IA do Google. Outra novidade foi o retorno do cofundador Sergey Brin à rotina técnica da companhia, para atuar diretamente na correção de falhas dos modelos.

Em 2024, a empresa reforçou o time ao adquirir uma startup por US$ 2,7 bilhões, que trouxe de volta pesquisadores-chave para liderar o desenvolvimento do modelo.

Projeto Magi

Outra preocupação era proteger seu principal negócio — o mecanismo de buscas — da ameaça dos chatbots. Para isso, o Google lançou o Projeto Magi, cujo objetivo era redesenhar a busca para responder perguntas complexas com clareza, agilidade e confiabilidade.

O esforço resultou no AI Overviews, lançado em maio de 2024, que gera os resumos por IA no topo das pesquisas, e no Modo IA em maio de 2025, que permite interações no formato de conversa. Essa foi a maior reformulação da busca do Google em anos e teve influência direta no comportamento dos usuários, que passaram a realizar buscas mais longas e detalhadas.

Resultados da nova estratégia

A consolidação da nova estratégia ocorreu entre 2024 e 2025, com a evolução do Gemini. Apesar das primeiras versões ficarem atrás do ChatGPT em testes diversos de desempenho, o modelo passou por várias atualizações e avançou ao incorporar, desde a origem, texto, código, áudio, imagens e vídeos.

Outro ponto de inflexão importante ocorreu em agosto de 2025, com o lançamento do Nano Banana, um gerador de imagens ultrarrápido que alcançou o topo dos rankings de desempenho, se popularizou nas redes sociais e superou as projeções internas de uso.

Ainda em agosto, o Gemini seguiu evoluindo e alcançou a marca de 650 milhões de usuários mensais - 200 milhões a mais que o mês anterior. O lançamento do Gemini 3, em novembro, consolidou a "virada" ao superar concorrentes nos testes realizados.

A escalada do Google expôs novos gargalos de capacidade, mas evidenciou como os próprios chips de inteligência artificial — cujo surgimento se iniciou em 2011 — são uma vantagem estratégica da empresa. O modelo mais recente, Ironwood, reduziu os custos operacionais e atraiu o interesse de terceiros, como a Meta, cujas negociações impactaram o mercado e fizeram despencar as ações da Nvidia.

Outro reflexo foi no campo regulatório: em agosto de 2024, um juiz federal considerou que a escalada dos chatbots enfraqueceu o domínio do Google nas pesquisas online. A decisão ajudou a empresa a evitar multas mais altas em um processo antitruste sobre seu acordo com a Apple.

Em um memorando interno divulgado em dezembro, Pichai afirmou que o Google terminava 2025 em posição fortalecida. Segundo ele, "pensando em onde estávamos como empresa há apenas um ano, é incrível ver o progresso".

Nova fase na disputa pela IA

Do ponto de vista técnico, em infraestrutura e desempenho de modelos, o Google passou a ocupar a liderança no setor de IA generativa. Essa liderança, no entanto, não se reflete de forma homogênea em todos os indicadores, uma vez que o ChatGPT ainda mantém vantagem na base total de usuários e tráfego na web.

Dados da SimilarWeb indicam que a fatia da OpenAI no tráfego global caiu de 87% para 68% em um ano, enquanto o Gemini saltou de 5,4% para 18% do mercado. Se a tendência observada ao longo de 2025 se mantiver, há chances do Google também reconfigurar outros indicadores do setor, com influência direta na participação de usuários, desempenho financeiro e valorização das ações.

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