Inteligência Artificial

Patrocinado por:

logo-totvs-preto

Como a Stellantis usa IA e gamificação para ensinar compliance em 15 países

Fundador da AutoU explica como plataforma da Stellantis evoluiu para 93% de acerto em treinamentos usando aprendizado por reforço em vez do modelo tradicional

Stellantis: empresa criou uma garagem para ensinar os funcionários (Stellantis/Divulgação)

Stellantis: empresa criou uma garagem para ensinar os funcionários (Stellantis/Divulgação)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 08h01.

Priorizar nos meus resultados Google

Oito milhões de perguntas respondidas, 15 países, uma taxa de acerto de 93% — e tudo isso para ensinar o assunto mais chato do mundo corporativo: compliance.

É esse o resultado da Garagem Stellantis, plataforma de gamificação com inteligência artificial (IA) desenvolvida pela startup brasileira AutoU, que transformou treinamento obrigatório em jogo com progressão, carros para montar e personagem-guia.

Nascida em 2022 no Brasil e em mais cinco países da América do Sul, a plataforma hoje ensina dezenas de milhares de funcionários da montadora, muitos deles operando maquinário no chão de fábrica e sem acesso diário a um computador.

Segundo Lucas Fernandes Lima, fundador da AutoU, em entrevista exclusiva à EXAME, a chegada aos Estados Unidos, ao México e ao Canadá, em 2026, é resultado de uma progressão gradual, não de um salto único.

"A Garagem Stellantis foi expandindo progressivamente. O projeto foi originalmente lançado no Brasil e em mais cinco países da América do Sul em 2022. Acompanhamos o resultado e o sucesso do Game antes da decisão de expandir para outros continentes", diz.

Em 2024, a plataforma chegou a países do Oriente Médio, da África e da Ásia, com "toda uma adaptação cultural para que a solução fosse pertinente e adequada à cultura de cada um dos países selecionados, inclusive respeitando questões de religião, sociais e de diversidade como um todo", segundo ele. Só depois desse teste é que veio a decisão de entrar na América do Norte.

Sobre lidar com culturas regulatórias tão diferentes, Lima resume o desafio como um trabalho "essencialmente semântico".

"A gente acredita muito que a tecnologia por si só não é o determinante. A tecnologia é uma ferramenta, um meio para atingir um fim. E o fim aqui é prover a melhor experiência possível para educar o público da forma certa, garantir o engajamento, a retenção e o aprendizado", afirma.

De 70% para 93% de acerto

A plataforma já processou mais de 8 milhões de perguntas respondidas, com taxa média de acerto atual de 93% — número que, segundo Lima, não indica que as perguntas sejam fáceis, mas o resultado de um processo de aprendizado.

"Quando lançamos o Game, a taxa de acerto média ficava em torno de 70%. Quando entra uma nova trilha ou um novo usuário, ela roda na casa de 60% a 70% e vai evoluindo com o tempo, conforme os usuários vão aprendendo por meio desse reforço de aprendizado", diz.

Ele destaca que colaboradores com centenas de horas de jogo mantêm taxa de acerto alta mesmo diante de perguntas nunca vistas antes. "Já aprenderam a essência dos termos e dos conceitos de compliance. Já internalizaram de fato esse conhecimento, então acertam muito mais do que alguém que nunca teve contato com o Game", afirma.

Um painel pensado para gerar ação, não só dado bonito

A camada de IA do painel administrativo da Garagem Stellantis identifica temas com mais erros e direciona ações de reforço por região, cargo, senioridade e fábrica.

"O dashboard aqui é o oposto disso [de um painel bonito sem utilidade]. Ele nunca se propõe a ser apenas um painel bonito, mas sim um direcionador de ações práticas e imediatas que a Stellantis consegue tomar a partir dele", diz Lima.

Como o plano de R$ 350 bilhões da Stellantis pode mudar a cena automotiva até 2030

Segundo Lima, a Stellantis acompanha cinco indicadores oficiais de compliance — não ligados diretamente ao jogo — em todos os países onde opera, organizados em um mapa de calor. "A correlação é quase de um para um. Os países que têm a Garagem Stellantis há alguns anos atingem números muito elevados nesses índices, enquanto países até mais desenvolvidos, na América do Sul ou em IAP, mas que ainda não têm o Game, performam pior", diz.

Ele não revelou os números exatos por confidencialidade contratual com a montadora.

Por que é difícil subir no ranking sem aprender de verdade?

Para Lima, o desenho do próprio algoritmo torna praticamente impossível progredir no jogo sem reter o conteúdo.

"Como o Game trabalha com reforço de aprendizado, o algoritmo vai constantemente desafiando a pessoa nos temas que ela ainda não domina. Ela não consegue pontuar de forma expressiva se errar as respostas. Então ela é obrigada a realmente aprender para acertar, ganhar os pontos e aí sim subir no ranking", afirma.

Interface da plataforma Garagem Stellantis mostrando painéis digitais, estatísticas de aprendizado e elementos gamificados de treinamento corporativo.

Garagem Stellantis: plataforma de gamificação com IA desenvolvida pela AutoU para treinamentos de compliance. (AutoU/Divulgação)

Segundo ele, o uso de perguntas situacionais — com mais de mil variações diferentes de temas de compliance — ajuda a garantir que o conhecimento adquirido no jogo se transfira para situações reais no dia a dia do colaborador.

O problema não é o setor...

Com clientes em setores como automotivo, beleza, alimentos, mineração e aviação, a AutoU já soma mais de 250 projetos de tecnologia implementados.

"O maior aprendizado é que a tecnologia nunca é o ponto de partida. O problema é o ponto de partida", diz Lima, destacando que até empresas do mesmo setor têm culturas radicalmente diferentes: "Temos no portfólio, por exemplo, uma empresa automotiva com matriz na França e outra com matriz no Reino Unido, e a cultura já é totalmente diferente entre elas."

Questionado sobre o maior erro já cometido em projetos de IA aplicada ao treinamento corporativo, ele foi direto: esquecer quem realmente vai usar a ferramenta.

"O público final é quem está lá na ponta, o colaborador, muitos deles braçais. É gente que está no dia a dia da produção, opera maquinário, trabalha no manual e muitas vezes não usa computador no dia a dia. Se você não entra na realidade desse cara, você faz algo que não se comunica com ele", afirma.

'AI slop' como oportunidade para quem faz certo

Sobre a democratização da IA generativa facilitar ou dificultar a diferenciação de uma startup brasileira no mercado global, Lima vê o cenário atual como favorável — mas por um motivo inesperado: a quantidade de "trabalho ruim" sendo produzido por outras empresas.

"Está surgindo muita coisa ruim. Muita coisa pouco pensada, mal gerada, aquele conteúdo genérico de inteligência artificial, muito dentro do que se chama de AI Slop", diz. "Num mercado onde muita gente está fazendo barulho e entregando trabalhos ruins e incompletos, ter um trabalho sério, bem feito, bem pensado [...] isso vira um diferencial."

Da montadora para a cadeia de fornecedores

Sobre os próximos passos, Lima revela duas frentes de expansão: levar a Garagem Stellantis a todos os países onde a montadora opera, e estendê-la à cadeia de fornecedores da empresa — que, segundo ele, "muitas vezes é até maior do que a própria montadora".

Quanto a replicar o modelo para clientes fora do setor automotivo, ele explica que a tecnologia construída para a Stellantis tem propriedade preservada da própria montadora, mas o método de trabalho da AutoU pode ser levado a novas empresas e setores.

"Não é uma plataforma genérica, é uma plataforma totalmente voltada para a realidade da Stellantis. [...] É o que conseguimos aproveitar, a partir desse case, para levar esse mesmo estilo de tecnologia e de engajamento para novas realidades e novas empresas", afirma.

Acompanhe tudo sobre:ExclusivoCarrosStellantis

Mais de Inteligência Artificial

Criminosos deixam senhas de lado e passam a ‘clonar pessoas’ com IA, diz estudo

Quem é a única brasileira na lista da Time dos 100 mais influentes em IA

IA premiada em Harvard para análise de câncer de pele será usada no Sabin

Quanto vale, em salário, saber usar inteligência artificial hoje no Brasil?