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Aprendizado por reforço: a técnica por trás dos maiores saltos de qualidade da IA (Magnific/Reprodução)
Jornalista
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 16h22.
Modelos de inteligência artificial costumavam ser treinados principalmente para reconhecer padrões e prever qual seria a próxima palavra em uma sequência.
Esse processo continua sendo importante, mas uma técnica chamada aprendizado por reforço ganhou relevância para desenvolver sistemas capazes de lidar com problemas mais complexos.
A lógica pode ser entendida sem recorrer à matemática. Em vez de apenas mostrar ao sistema exemplos de respostas prontas, o treinamento cria situações em que o modelo pode tentar diferentes caminhos e receber uma espécie de recompensa quando chega a um resultado considerado adequado.
Esse mecanismo ajuda a treinar estratégias, e não apenas respostas.
O aprendizado por reforço é uma técnica de inteligência artificial inspirada na ideia de aprender por tentativa e erro.
Imagine uma pessoa aprendendo a jogar xadrez. No início, ela pode fazer movimentos ruins. Depois de várias partidas, identifica quais decisões costumam levar à vitória e quais aumentam a chance de perder.
No treinamento de uma IA, o princípio é parecido. O sistema recebe uma tarefa, produz uma resposta e recebe uma avaliação.
Quando uma estratégia funciona, ela ganha uma recompensa. Quando não funciona, o resultado serve como sinal para ajustar o comportamento.
O objetivo é fazer com que o modelo descubra quais caminhos tendem a produzir melhores resultados.
Em um treinamento supervisionado, por exemplo, o modelo recebe muitos exemplos com respostas consideradas corretas. É como entregar ao estudante uma grande quantidade de exercícios já corrigidos.
No aprendizado por reforço, o sistema pode ter mais espaço para explorar soluções diferentes. Ele não precisa necessariamente receber a resposta correta para cada tentativa.
Isso é particularmente útil em problemas nos quais existem vários caminhos possíveis para chegar ao resultado.
A técnica ganhou destaque com os chamados modelos de raciocínio, desenvolvidos para dedicar mais esforço computacional a determinados problemas antes de apresentar uma resposta.
Em setembro de 2024, a OpenAI apresentou o o1, modelo treinado com aprendizado por reforço para melhorar sua capacidade de resolver tarefas complexas.
A empresa afirmou que o desempenho do sistema aumentava tanto com mais treinamento por reforço quanto com mais tempo de computação durante a resolução de problemas.
A diferença aparece especialmente em tarefas como matemática, programação e problemas científicos. No teste AIME de 2024, por exemplo, a OpenAI registrou média de 74% de acertos para o o1, contra 12% para o GPT-4o em uma avaliação de resposta única.
Isso não significa que o modelo passou a "pensar" como uma pessoa. O avanço está relacionado à capacidade de explorar e avaliar estratégias durante a geração da resposta.
O aprendizado por reforço também ganhou atenção com o DeepSeek-R1, apresentado pela empresa chinesa DeepSeek em janeiro de 2025.
No trabalho publicado pela equipe, o DeepSeek-R1-Zero foi treinado com aprendizado por reforço em larga escala sem uma etapa inicial de ajuste supervisionado.
Segundo os pesquisadores, o processo fez surgir comportamentos de raciocínio, embora também tenham aparecido problemas como repetição e mistura de idiomas.
A versão DeepSeek-R1 combinou diferentes etapas de treinamento antes e depois do reforço. O estudo relata desempenho comparável ao OpenAI o1-1217 em tarefas de raciocínio.
O caso ajudou a mostrar que melhorar a inteligência de um modelo não depende apenas de aumentar a quantidade de dados utilizados no treinamento.
O processo pode ser simplificado em quatro etapas:
Em matemática, por exemplo, o sistema pode testar uma sequência de operações, identificar que o resultado está errado e tentar outro caminho. Em programação, pode escrever um código, verificar se ele passa nos testes e corrigir o que falhou.
A recompensa não precisa vir de uma pessoa. Em tarefas que possuem critérios objetivos, ela pode ser calculada automaticamente. Isso permite realizar um volume muito maior de tentativas durante o treinamento.
Para profissionais, a principal consequência não é a necessidade de entender como implementar um algoritmo de aprendizado por reforço.
O ponto mais importante é compreender que os modelos estão sendo desenvolvidos para resolver problemas em várias etapas, e não apenas para gerar textos ou recuperar informações.
Isso ajuda a explicar por que ferramentas de IA podem ser cada vez mais usadas em atividades como:
Na prática, isso também muda a forma de avaliar uma ferramenta. Para uma tarefa simples, velocidade pode ser mais importante. Para um problema que exige planejamento, verificação e correção, um modelo capaz de dedicar mais computação ao raciocínio pode apresentar vantagens.
Aprendizado por reforço não elimina os problemas dos modelos de inteligência artificial.
Um sistema pode receber uma recompensa por seguir determinado critério e ainda produzir uma resposta inadequada em situações diferentes. Pesquisas sobre modelos de raciocínio também apontam que uma cadeia maior de raciocínio nem sempre significa uma resposta melhor.
Existe ainda o risco de o modelo aprender a otimizar a recompensa, em vez de realmente cumprir o objetivo pretendido. Por isso, critérios de avaliação, qualidade dos dados e supervisão continuam importantes.
Para quem usa IA profissionalmente, entender o aprendizado por reforço ajuda a identificar uma mudança importante: os modelos estão sendo treinados não apenas para saber mais, mas também para resolver melhor determinados tipos de problemas.
Uma forma prática de acompanhar essa evolução é observar três pontos ao testar uma ferramenta:
Essas perguntas ajudam a diferenciar uma ferramenta voltada principalmente à geração de conteúdo de outra desenvolvida para tarefas de raciocínio mais estruturadas.
O aprendizado por reforço é, portanto, uma das peças importantes por trás da evolução recente da inteligência artificial. Ele não substitui outras formas de treinamento, mas acrescenta uma capacidade relevante: permitir que modelos aprendam quais estratégias tendem a funcionar melhor diante de problemas difíceis.