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Chain-of-thought funciona? Estudos mostram quando o “pense passo a passo” ajuda ou atrapalha (Imagem gerada por IA)
Jornalista
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 15h39.
Uma das instruções mais conhecidas para melhorar respostas de inteligência artificial é simples: “pense passo a passo”. A ideia é fazer com que o modelo divida um problema em etapas antes de chegar à resposta.
Essa técnica é conhecida como chain-of-thought, ou cadeia de pensamento. Ela ganhou espaço porque pode melhorar o desempenho de modelos de linguagem em tarefas que exigem múltiplas etapas de raciocínio, como matemática, programação e lógica.
Mas há uma ressalva importante: pensar mais não significa necessariamente responder melhor.
Em um pedido convencional, o usuário apresenta uma pergunta e espera uma resposta direta. No chain-of-thought, acrescenta uma instrução para que o modelo raciocine antes de responder.
A diferença não está apenas no tamanho da resposta. A instrução pode alterar a estratégia usada pelo modelo para chegar ao resultado.
A técnica ganhou relevância com pesquisas que mostraram ganhos em problemas de raciocínio. A OpenAI, por exemplo, descreveu o uso de cadeias de pensamento em seus modelos de raciocínio como uma forma de decompor problemas difíceis, identificar erros e tentar outras abordagens.
Na prática, isso tende a ser mais útil quando uma tarefa exige várias operações encadeadas.
Imagine um profissional pedindo à IA para analisar uma decisão de negócio com três alternativas, custos, riscos e consequências. Em vez de simplesmente perguntar “qual opção é melhor?”, ele pode pedir que o modelo compare os critérios individualmente e só depois apresente uma recomendação.
O resultado pode ser mais estruturado e verificável.
Um estudo publicado nos anais da conferência ICML em 2025 encontrou um efeito menos intuitivo. Em determinadas tarefas inspiradas em experimentos da psicologia cognitiva, pedir que modelos de ponta utilizassem chain-of-thought reduziu o desempenho.
Em três dos seis tipos de tarefa analisados, houve quedas significativas de desempenho. Em um dos casos, a redução chegou a 36,3 pontos percentuais para o o1-preview em comparação com o GPT-4o.
A explicação é que algumas tarefas se beneficiam de uma resposta rápida e intuitiva. Introduzir etapas adicionais de deliberação pode levar o modelo a interferir em uma resposta que seria mais simples.
Outro estudo, apresentado na ACL em 2025, chegou a uma conclusão semelhante por outro caminho. Os pesquisadores argumentam que o comando genérico “think step by step” pode até atrapalhar o desempenho em determinados problemas. Segundo os experimentos, encontrar instruções mais adequadas à tarefa produziu ganhos superiores a 50% em algumas avaliações.
Há ainda uma diferença importante entre modelos tradicionais e modelos desenvolvidos especificamente para raciocinar.
Nos modelos anteriores, pedir “pense passo a passo” era uma maneira de induzir o comportamento de raciocínio. Já os modelos de raciocínio mais recentes são treinados para realizar esse processo internamente.
Por isso, repetir a instrução pode ter pouco efeito. Um relatório de pesquisadores da Wharton publicado em 2025 encontrou ganhos marginais ao aplicar chain-of-thought a modelos de raciocínio, enquanto o tempo de resposta aumentou entre 20% e 80% nos testes.
Isso muda a forma de usar a ferramenta. Em vez de transformar toda pergunta em um problema complexo, o profissional deve considerar primeiro o tipo de tarefa.
Para quem utiliza inteligência artificial no trabalho, uma regra prática é separar tarefas simples das que possuem múltiplas etapas.
Para uma definição, uma tradução ou uma pergunta factual simples, provavelmente não há necessidade de acrescentar “pense passo a passo”.
Já em tarefas como análise de dados, programação, planejamento, comparação de cenários e resolução de problemas complexos, estruturar o processo pode ser útil.
Uma alternativa mais eficiente do que simplesmente escrever “pense passo a passo” é definir o que deve ser analisado.
Por exemplo:
“Compare as três alternativas considerando custo, risco, prazo e impacto operacional. Apresente primeiro os critérios analisados e depois indique qual alternativa atende melhor às condições apresentadas.”
Nesse caso, o usuário não está apenas pedindo mais raciocínio. Está direcionando a análise para os fatores que realmente importam.
O principal aprendizado é não tratar “pense passo a passo” como um comando universal para melhorar qualquer resposta.
Antes de usá-lo, vale perguntar: esta tarefa realmente exige várias etapas? Se a resposta for sim, instruções que organizem os critérios, apresentem verificações intermediárias ou peçam uma comparação estruturada podem ser mais úteis do que um comando genérico.
Também é importante não confundir uma resposta detalhada com uma resposta correta. A própria pesquisa sobre chain-of-thought mostra que adicionar etapas pode aumentar ou reduzir a precisão dependendo do problema.
Para profissionais, portanto, o ganho não está em fazer a IA “pensar mais” em todas as situações. Está em saber quando estruturar o raciocínio e, principalmente, em fornecer contexto suficiente para que a ferramenta consiga trabalhar sobre o problema certo.