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Anthropic: dona do Claude deve fazer IPO ainda neste ano (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 10h59.
A abertura de capital da Anthropic, dona do Claude, deve gerar uma onda de riqueza repentina entre seus funcionários — e parte significativa desse dinheiro pode não ir para imóveis em São Francisco nem para jatos particulares, mas para camarões.
Segundo levantamento do The Information, organizações filantrópicas já procuram doadores em potencial dentro da empresa, à medida que ações que se valorizam rapidamente aproximam funcionários do momento de vender parte da posição.
Os sete cofundadores da Anthropic — entre eles os irmãos Dario e Daniela Amodei, respectivamente presidente-executivo e presidente da empresa — assinaram compromisso público de doar 80% da própria fortuna. Segundo uma estimativa da Forbes, cada um detém cerca de 1,8% do capital da companhia.
Três deles — Dario Amodei, Amanda Askell e Jack Clark — também assinaram o Giving What We Can Pledge, compromisso público de doar ao menos 10% da renda a instituições consideradas de alto impacto. Askell foi casada com Will MacAskill, um dos fundadores do movimento conhecido como altruísmo eficaz.
É esse movimento, que defende doar com base em cálculo de impacto mensurável, não em afinidade emocional com a causa, que deve moldar boa parte do destino do dinheiro. Dezenas, possivelmente centenas, de outros funcionários da empresa também fazem parte dessa comunidade.
Para quem segue a lógica do altruísmo eficaz, bem-estar animal em escala industrial é considerado uma das causas mais subfinanciadas e "negligenciadas" que existem — e é aí que a aposta aparece.
O Shrimp Welfare Project, organização que promove abate menos doloroso de camarões de cultivo, afirma reduzir o sofrimento de 1.500 camarões por dólar doado a cada ano, segundo estimativa da própria entidade.
Hoje já beneficia cerca de 6,1 bilhões de camarões por ano, atuando junto a produtores da Índia e do Sudeste Asiático para substituir métodos como o esmagamento dos olhos das fêmeas, prática usada para estimular a reprodução.
Somente neste ano, doadores ligados à indústria de inteligência artificial (IA) já destinaram cerca de US$ 40 milhões a causas de bem-estar de animais criados em sistema industrial — galinhas, porcos e outros —, segundo Lewis Bollard, que lidera esse tipo de filantropia há uma década na organização Coefficient Giving.
"Com essa turma jovem da IA, existe muito mais disposição para simplesmente dizer: 'Tá, vou assinar um cheque de um milhão de dólares'", disse ele à revista Fortune.
A Anthropic criou um programa de contrapartida que multiplica o efeito de cada doação de funcionário.
Segundo mapeamento independente publicado no site colaborativo Longterm Wiki, o programa histórico chegava a triplicar a doação na faixa de 50% de correspondência; a versão atual opera em proporção de um para um, até 25%.
Na prática, funcionários com ações que ainda não foram vendidas podem transferir parte delas para fundos de doação assessorada — instrumento que permite direcionar o valor a instituições de caridade e obter benefício fiscal antes mesmo da venda.
Segundo a mesma análise, doar a ação diretamente, sem vendê-la primeiro, evita uma alíquota de cerca de 37% de imposto sobre ganho de capital na Califórnia.
O mesmo levantamento estima que entre US$ 20 bilhões e US$ 40 bilhões em participações de funcionários já estejam alocados nesse tipo de fundo, à espera de destino final — e projeta, com ressalvas, algo entre US$ 27 bilhões e US$ 76 bilhões em capital ligado ao altruísmo eficaz associado à companhia, considerando o valuation da rodada mais recente.
A movimentação recente não é inédita no Vale do Silício, mas costuma vir depois, não durante o auge da empresa.
"Historicamente, bilionários raramente voltavam a atenção para a filantropia antes de muito tempo depois de suas empresas abrirem capital — quase sempre após a aposentadoria", disse David Callahan, fundador do site especializado Inside Philanthropy, ao The Information.
A dupla Dustin Moskovitz e Mark Zuckerberg marcou uma mudança geracional nesse padrão: ao lado das respectivas esposas, lançaram a Good Ventures e a Chan Zuckerberg Initiative por volta da abertura de capital de suas empresas, ainda no auge da carreira.
Segundo Callahan, esse movimento "sinalizou uma mudança de normas em torno da riqueza da tecnologia", o que prova que magnatas do setor podem começar a doar fortuna enquanto ainda constroem a própria empresa, não apenas depois.
A Anthropic já reorganizou formalmente sua estrutura filantrópica interna em torno de "fundos" temáticos — saúde global, segurança em IA e bem-estar animal entre eles —, aos quais funcionários doadores podem aderir individualmente.