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Ao invés de milhas, tokens: como a China está transformando IA em moeda do dia a dia

Bancos, cafés e operadoras de telefonia na China oferecem créditos de inteligência artificial como quem dá milha aérea ou Wi-Fi grátis — e o consumo diário do país já passa de 500 trilhões de tokens

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 6 de setembro de 2026 às 12h13.

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No Brasil, "token" ainda é palavra de quem mexe com tecnologia. Na China, virou moeda de troca do dia a dia — o tipo de benefício que bancos, cafeterias e operadoras de celular usam para atrair cliente, do jeito que aqui se usa milha aérea ou pontos de cartão de crédito.

Antes de entender os casos, vale explicar o termo. Um token de IA é a unidade de processamento que um modelo de inteligência artificial usa para "ler" e "escrever" texto. Quando alguém faz uma pergunta a um chatbot, a frase é quebrada em pedacinhos, os tokens, que o modelo processa para gerar a resposta. Quanto mais texto você troca com uma IA, mais tokens consome — e cada token tem um custo computacional por trás, pago em eletricidade e chips.

O consumo desses tokens na China deu um salto absurdo: saiu de 100 bilhões por dia, no início de 2024, para 500 trilhões por dia em meados deste ano — um crescimento de 5.000 vezes em pouco mais de dois anos.

Esse volume só é possível porque o preço caiu na mesma proporção: modelos chineses de código aberto, mesmo ficando atrás dos americanos em alguns testes de desempenho, custam de 60% a 90% menos que sistemas equivalentes da OpenAI e da Anthropic. Foi esse tombo de preço que abriu espaço para empresas comuns começarem a empacotar e vender tokens para o consumidor final, não só para desenvolvedores.

1. Token como recompensa de cartão de crédito

Em julho, a startup chinesa de IA Moonshot AI lançou um cartão de crédito batizado com o nome do seu modelo, o Kimi, em parceria com o Banco Agrícola da China e a American Express. Quem gasta no cartão acumula tokens do Kimi, além de cotas de uso de agentes de IA e de programação — exatamente como um cartão comum dá milha ou cashback.

A moda começou em junho, quando o China Merchants Bank lançou um cartão voltado a desenvolvedores de IA, oferecendo a novos clientes até 1,8 bilhão de tokens para uso nos modelos da MiniMax, outra startup chinesa. O Shanghai Pudong Development Bank fez o mesmo, com subsídio de até 3 bilhões de tokens para os modelos Qwen, da Alibaba.

2. Token como plano de dados de celular

As três grandes operadoras de telefonia da China passaram a vender IA do jeito que vendem internet móvel. A China Telecom oferece planos a partir de 9,9 yuans (cerca de R$ 7,50) por mês para 10 milhões de tokens, com franquias maiores para uso intenso — e mantém uma plataforma, a TokenHub, com assinaturas para 142 modelos diferentes, num movimento claro de deixar de vender só conectividade para vender também computação de IA.

A concorrência seguiu o mesmo caminho: a China Mobile chegou a oferecer 400 mil tokens por 1 yuan (cerca de R$ 0,75) em Xangai, cobrado direto na conta de celular; a China Unicom tem planos mensais que vão de 15 yuans (R$ 11) por 6 milhões de tokens a 45 yuans (R$ 34) por 18 milhões, voltados a uso empresarial.

3. Token como brinde, no lugar do Wi-Fi grátis

Em vez de oferecer internet sem fio de graça, um número crescente de bares, cafés e restaurantes chineses está atraindo cliente com computação de IA gratuita. No AGI Bar, em Pequim, quem compra uma bebida e se conecta ao Wi-Fi ganha acesso ilimitado ao modelo DeepSeek V4 Flash — o bar, voltado a programadores e fundadores de startups de IA, roda o modelo localmente numa estação de trabalho Nvidia DGX Spark.

Perto dali, a casa de bolinhos Jingu Yuan dá aos clientes o equivalente a 10 yuans (R$ 7,50) em créditos de computação depois da refeição. Um cartão nas mesas do restaurante avisa: "Você já se encheu de bolinho. Agora vá buscar uns tokens no caixa para seu agente de IA também se alimentar de energia computacional." As duas unidades do restaurante distribuem mais de 100 vales por dia. Em Changsha, uma cafeteria que funciona 24 horas usa a mesma tática, oferecendo tokens de IA junto com o café.

4. Token revendido como produto usado

Os tokens chegaram até ao maior site chinês de venda de produtos usados, o Xianyu (do grupo Alibaba), conhecido por vender celular, móvel e roupa de segunda mão. Nele, vendedores anunciam pacotes de acesso barato a modelos de IA, medidos em tokens: milhões de tokens por poucos dólares, em passes diários, assinaturas mensais ou acesso compartilhado a contas de IA.

Alguns vendedores fracionam cotas de uso e revendem para estudantes, desenvolvedores independentes e pequenas empresas. Outros tentam lucrar com a diferença entre o preço oficial do token e o acesso com desconto (ou até gratuito) que conseguiram por outra via — um mercado paralelo nascendo em cima da própria commodity de IA.

5. Token como garantia de empréstimo bancário

O caso mais inusitado é financeiro. Com a explosão de startups de IA na China, os bancos passaram a ter dificuldade para avaliar o risco de crédito dessas empresas jovens, que não têm os ativos físicos tradicionais (imóvel, maquinário) usados para embasar um empréstimo.

Bancos da cidade de Guangzhou estão testando os tokens como saída. O distrito de Haizhu lançou em agosto um produto financeiro chamado "empréstimo de token" (token loan), que permite a bancos como o Bank of China, o China CITIC Bank e o Bank of Guangzhou medir quanto uma empresa produz e consome em tokens de IA para decidir quanto ela pode tomar emprestado — tratando o uso de inteligência artificial como um indicador de saúde do negócio, no lugar do balanço patrimonial tradicional.

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