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Antes de selecionar qual live ou creator, entenda qual função o social commerce deve cumprir

Os formatos mais populares do social commerce são apenas parte da transformação. Entenda os quatro movimentos que mudaram a forma como consumidores descobrem produtos, constroem confiança e tomam decisões de compra

Antes de selecionar qual live ou creator, entenda qual função o social commerce deve cumprir  (Magnific/Reprodução)

Antes de selecionar qual live ou creator, entenda qual função o social commerce deve cumprir (Magnific/Reprodução)

Francisco Saraiva Junior
Francisco Saraiva Junior

Autor colaborador

Publicado em 31 de julho de 2026 às 14h27.

Última atualização em 31 de julho de 2026 às 14h33.

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Abre-se uma live porque o concorrente abriu. Contrata-se um creator porque o mercado contratou. Migra-se para a plataforma da vez porque foi ali que os números apareceram no trimestre anterior.

Não há nada de errado em experimentar. O problema começa quando a empresa experimenta sem um critério que explique por que determinado formato deveria funcionar para aquele público, naquela categoria e naquele momento da jornada.

Essa dificuldade nasce de uma compreensão limitada do social commerce. Em muitas organizações, ele ainda é tratado como um novo canal de vendas ou como um conjunto de recursos disponíveis nas plataformas sociais: uma live, uma loja dentro do aplicativo, um vídeo com link para compra, um programa de afiliados ou uma campanha com creators.

Esses recursos são importantes, mas nenhum deles, isoladamente, define o fenômeno.

Social commerce não é uma moda de canal. É o ponto de encontro de quatro deslocamentos estruturais que vêm transformando, ao mesmo tempo, o comportamento do consumidor, a formação da confiança, o papel das pessoas na comunicação e a infraestrutura que coordena a jornada de compra.

Compreender esses deslocamentos precisa vir antes da decisão sobre formatos, plataformas e orçamento.

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1. Da busca para a descoberta

O e-commerce tradicional foi construído principalmente em torno de um consumidor que já sabia, ao menos parcialmente, o que queria.

Esse consumidor identificava uma necessidade, iniciava uma busca, comparava alternativas e tomava uma decisão. Toda uma arquitetura de marketing e comércio digital foi organizada para atender a esse processo: mecanismos de busca, mídia paga, catálogos, filtros, páginas de produto, comparadores de preço e ferramentas de conversão.

Essa lógica continua existindo e permanece relevante. O que mudou foi sua exclusividade como porta de entrada da jornada.

Uma parcela crescente da demanda começa antes de haver uma intenção declarada. O consumidor encontra um produto no feed, observa alguém utilizando-o em um vídeo, recebe uma recomendação em um grupo, acompanha uma conversa entre clientes ou é exposto a um conteúdo selecionado pelo algoritmo.

Nesse processo, o estímulo não responde apenas a uma demanda existente. Ele participa de sua formação.

A diferença é importante. Na busca, o produto procura ser encontrado por alguém que já manifesta interesse. Na descoberta, o produto encontra uma pessoa que ainda não havia formulado aquele desejo ou reconhecido aquela possibilidade de consumo.

Isso muda o trabalho do marketing. Não basta disputar presença no momento em que a intenção já está formada. É necessário construir situações nas quais o produto possa ser descoberto, compreendido e associado a uma necessidade que ainda não estava plenamente consciente.

A pergunta deixa de ser apenas “como aparecer quando o consumidor procurar?” e passa a incluir outra: “como participar da formação do que ele passará a procurar?”.

2. Da confiança institucional para a confiança híbrida

Durante muito tempo, a confiança esteve concentrada em sinais institucionais. O nome da marca, o ponto de venda, a garantia, o histórico da empresa e a publicidade ajudavam o consumidor a reduzir a percepção de risco.

Esses elementos não desapareceram. Uma marca conhecida continua carregando reputação, memória e expectativas acumuladas. O que mudou foi sua capacidade de decidir sozinha.

A confiança passou a ser construída pela combinação de diferentes fontes. O consumidor considera o que a empresa afirma sobre o produto, mas também consulta avaliações, observa notas, procura fotografias publicadas por compradores, acompanha creators, lê comentários e verifica o que determinadas comunidades dizem sobre a experiência.

A confiança, portanto, tornou-se híbrida e composta.

Na mesma tela, podem aparecer a mensagem oficial da marca, o vídeo de um creator, a avaliação de um comprador e a recomendação do algoritmo. Cada fonte cumpre uma função diferente e nenhuma delas está inteiramente sob o controle da empresa.

Isso cria um desafio para a gestão de marca. Muitas organizações ainda tratam reputação como resultado daquilo que comunicam sobre si mesmas, quando uma parte importante da decisão passou a depender do que outras pessoas dizem, mostram e confirmam.

A empresa não controla integralmente essas vozes, mas pode atuar sobre as condições que as produzem. Produto, atendimento, entrega, pós-venda, transparência, política de devolução e relacionamento com creators e comunidades tornam-se componentes da construção da confiança.

A gestão da reputação deixa de estar restrita à mensagem emitida pela marca e passa a envolver todo o sistema de experiências e evidências que circula ao redor dela.

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3. De receptor para coprodutor

No modelo tradicional de comunicação, a marca produzia a mensagem e o consumidor a recebia. A participação esperada do público era prestar atenção, formar uma percepção e, idealmente, comprar.

Esse papel tornou-se mais amplo.

O consumidor continua sendo destinatário da comunicação, mas também produz avaliações, comentários, vídeos, fotografias, comparações, recomendações e relatos de experiência. Ao fazer isso, ajuda a construir o ambiente de informação no qual outras pessoas tomarão suas decisões.

Um cliente que publica uma fotografia do produto em uso não está apenas relatando sua experiência. Ele oferece uma evidência visual para quem ainda considera a compra.

Uma pessoa que descreve um problema com a entrega não está apenas manifestando insatisfação. Ela altera a percepção de risco de outros compradores.

Uma comunidade que compara produtos não está apenas conversando sobre uma categoria. Ela participa da formação de preferências, critérios de avaliação e escolhas.

O consumidor passa, portanto, de receptor a coprodutor da jornada comercial.

Essa mudança exige rever a forma como as empresas desenham a experiência. Satisfação continua sendo uma meta central, mas pode não ser suficiente para gerar circulação social. Um cliente pode estar satisfeito e não encontrar nada que considere relevante compartilhar.

Uma experiência que gera conteúdo costuma oferecer algo que merece ser contado: uma solução inesperada, uma apresentação diferenciada, uma personalização, uma história, uma demonstração de uso, um atendimento que resolveu uma dificuldade ou um resultado que possa ser mostrado.

Isso não significa transformar o consumidor em produtor gratuito de publicidade. Significa reconhecer que a experiência passou a alimentar um ambiente social no qual conteúdo, prova e recomendação influenciam novas decisões.

A pergunta gerencial deixa de ser somente “o cliente ficou satisfeito?” e passa a incluir: “o que essa experiência oferece para que ele possa contar, mostrar ou recomendar algo a outras pessoas?”.

4. De canal para infraestrutura

As plataformas digitais já foram vistas principalmente como veículos de mídia ou pontos de contato. A marca publicava uma mensagem, alcançava uma audiência e direcionava o consumidor para outro ambiente, no qual a compra seria concluída.

Esse modelo também não desapareceu, mas foi progressivamente complementado por uma estrutura mais integrada.

As plataformas passaram a coordenar conteúdo, interação, recomendação, visibilidade, catálogo, dados e diferentes caminhos de compra. Em alguns casos, a transação ocorre dentro do próprio ambiente. Em outros, começa em uma conversa, passa por um link e termina no site da empresa ou em um pagamento por Pix.

O ponto central não é o local exato do checkout. É a capacidade da plataforma de organizar o fluxo que conecta descoberta, avaliação, confiança e transação.

Por isso, tratá-la apenas como canal de mídia tornou-se insuficiente.

Quando uma plataforma define regras de distribuição, determina quais conteúdos ganham alcance, organiza sistemas de recomendação, estabelece formatos comerciais e intermedeia relações entre marcas, creators, vendedores e compradores, ela passa a atuar como infraestrutura de mercado.

Essa infraestrutura oferece acesso, conveniência e escala, mas também cria dependência. Mudanças no algoritmo, nos formatos, nas regras comerciais, nas comissões ou nos recursos disponíveis podem alterar rapidamente o desempenho de uma operação.

Escolher uma plataforma, portanto, deixou de ser apenas uma decisão de mídia. Também se tornou uma decisão sobre dependência estrutural, acesso a dados, capacidade de relacionamento e margem de manobra da marca.

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