A IA pode gerar novas ideias? (Getty Images/Getty Images)
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Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 14h04.
Com o avanço dos modelos de inteligência artificial, sistemas cada vez mais sofisticados passaram a resolver tarefas que antes eram limitadas a especialistas humanos. No entanto, ainda há questionamentos sobre a capacidade da IA de criar coisas realmente novas ou se ela apenas reorganiza ideias já produzidas por pessoas brilhantes.
A pergunta voltou a ganhar força nas últimas semanas após a startup Harmonic anunciar que o Aristotle, seu sistema de IA, resolveu um problema matemático proposto pelo húngaro Paul Erdős, um dos mais influentes do século XX. Segundo a empresa, a solução contou com a ajuda do GPT-5.2 Pro, da OpenAI.
Para parte da comunidade científica, o feito indicaria que a IA chegou a um nível que pode pensar de forma autônoma, criar novas ideias e, consequentemente, produzir pesquisas legítimas. A visão não é unânime: outros pesquisadores apontam que a solução não era exatamente inédita, mas baseada em outros métodos já conhecidos e trabalhos feitos por humanos no passado.
O caso foi detalhado em uma reportagem publicada recentemente pelo The New York Times.
Considerados há décadas um parâmetro para avaliar a capacidade matemática, alguns "problemas de Erdős" são extremamente complexos e permanecem sem solução até hoje, enquanto outros foram solucionados ao longo dos anos por especialistas de todo o mundo.
Quando Kevin Weil, vice-presidente de ciência da OpenAI, anunciou que o GPT-5.2 Pro havia encontrado a resposta para 10 dos enigmas matemáticos, logo teve que apagar as declarações. Isso porque vários pesquisadores consideraram a declaração inconsistente, uma vez que várias dessas soluções já existiam e estavam registradas em artigos e livros acadêmicos antigos.
Isso não quer dizer, no entanto, que os pesquisadores não reconheceram o valor prático do sistema, especialmente por sua capacidade de localizar trabalhos relevantes em meio a um volume gigantesco de literatura, como apontado por Thomas Bloom, da Universidade de Manchester.
Na prática, a IA da Harmonic não criou respostas novas, mas foi muito eficiente ao navegar por milhares de dados e fazer conexões que estavam fora do radar de muitos especialistas.
Esse é o eixo central do debate. Para especialistas ouvidos pelo NYT, a IA já demonstra ser muito útil como ferramenta de pesquisa e junção de informações, mas não há consenso de que ela seja capaz de criar ideias genuinamente originais.
É o que diz Terence Tao, que leciona na Universidade da Califórnia: a IA tem tanto conhecimento prévio que consegue simular uma compreensão real. "Para mim, parece um aluno muito inteligente que memorizou tudo para a prova, mas não tem uma compreensão profunda do conceito", diz.
Por outro lado, especialistas destacam os impactos práticos do avanço da IA, sobretudo na aceleração de processos científicos. A Dra. Derya Ununtmaz, pesquisadora do Jackson Laboratory, afirmou ao NYT que alguns modelos já conseguiram sugerir hipóteses e experimentos que ele e sua equipe não haviam considerado ainda.
"Não é uma descoberta, e sim uma proposta que permite restringir o foco da pesquisa", disse Ununtmaz, cuja pesquisa se concentra em câncer e doenças crônicas. "[A IA] permite realizar cinco experimentos em vez de 50. Isso tem um efeito profundo e acelerador", conclui.
Esse avanço está ligado à forma como esses modelos são treinados. Há mais de um ano, empresas como Google, OpenAI e Microsoft estão implementando técnicas de aprendizado por reforço em seus sistemas de IA, que incorporam comportamentos por meio de vários ciclos de tentativa e erro.
Como resultado, esses modelos começaram a "raciocinar" sobre problemas de diversas áreas. Embora não pensem com a mesma subjetividade que um ser humano, modelos como GPT-5 podem acelerar a análise das situações e a ampliar a capacidade de explorar soluções possíveis.
O consenso final, segundo o NYT, é de que a IA ainda não substitui o pensamento humano, mas já transformou como a ciência é feita a partir dele. Por ora, seu papel mais claro é o de expandir e acelerar a capacidade daqueles que já sabem o que e onde procurar suas respostas.