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(Arquivo Pessoal)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 24 de julho de 2026 às 10h44.
Seis em cada dez órgãos públicos federais e estaduais brasileiros já usam ferramentas de inteligência artificial, segundo a pesquisa TIC Governo 2025, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
São 59% do total, um patamar que coloca o setor público à frente de boa parte da iniciativa privada, onde 72% das empresas ainda estão em estágio inicial ou experimental de adoção.
O número, porém, esconde diferenças grandes conforme o poder, a esfera e o tamanho da cidade.
E revela um descompasso que atravessa toda a pesquisa: a tecnologia entrou mais rápido do que a capacitação de quem precisa operá-la.
A adoção varia muito conforme o poder. O Judiciário lidera com 94% dos órgãos usando IA, seguido pelo Ministério Público (92%) e pelo Legislativo (83%). O Executivo fica bem atrás, com 55%, justamente o poder que concentra a maior parte do atendimento direto ao cidadão.
Entre as esferas, a adoção é mais comum nos órgãos federais (70%) do que nos estaduais (58%). A IA também está muito à frente de outras tecnologias avançadas no setor público: a Internet das Coisas aparece em 20% dos órgãos federais e 29% dos estaduais, e o blockchain, em 25% e 17%, respectivamente.
Na prática, o uso mais frequente é o menos glamouroso: automatizar fluxos de trabalho, citado por 39% das instituições. Em seguida vêm a mineração de texto e a análise de linguagem (35%) e o aprendizado de máquina para predição e análise de dados (31%).
Pela primeira vez, o estudo mapeou o uso de IA nas prefeituras, e encontrou o contraste mais nítido de todos. No conjunto, 27% dos municípios usaram a tecnologia nos 12 meses anteriores à pesquisa. Mas o índice chega a 85% nas cidades com mais de 500 mil habitantes e a 81% nas capitais, enquanto despenca para 22% nos municípios de até 10 mil habitantes.
Onde a tecnologia chegou, as aplicações mais comuns também são a automatização de processos (14%) e a mineração de texto (12%). As prefeituras dizem usar IA sobretudo para melhorar serviços à população (17%), aprimorar operações internas (17%), apoiar políticas públicas (14%) e fiscalizar o uso de recursos públicos (10%).
Esta edição traçou pela primeira vez um panorama do uso de IA generativa no setor público. Na esfera federal, 65% dos órgãos têm iniciativas voltadas a processos internos, mas apenas 29% aplicam a tecnologia em serviços prestados diretamente ao cidadão. Nos estados, os índices são de 56% e 28%. Nas prefeituras, 31% e 17%.
O preparo das equipes acompanha essa hierarquia. Entre os órgãos federais, 59% oferecem cursos ou treinamentos, 46% contrataram ferramentas específicas e 43% criaram diretrizes de uso. Nos estaduais, os percentuais caem para 44%, 27% e 30%. Nas prefeituras, ficam em 14%, 10% e 10% — ou seja, nove em cada dez municípios que usam a tecnologia não deram aos servidores um manual sobre como usá-la.
Não por acaso, a falta de capacitação aparece como o principal obstáculo à adoção da IA no setor público: foi citada por 19% dos órgãos federais, 21% dos estaduais e 40% das prefeituras. Nas administrações municipais, os gestores mencionam ainda a tecnologia não ser prioridade de governo (36%), a ausência de necessidade ou interesse (35%), problemas de disponibilidade e qualidade dos dados (35%) e custos elevados (34%).
O gargalo não é exclusivo do governo. No país, a corrida por qualificação já aparece nos números da educação: as matrículas em cursos de IA generativa cresceram 617% no Brasil, segundo a Coursera. No setor público, o desafio se soma a outro, estrutural: a construção de infraestrutura própria para processar dados sensíveis, hoje uma das apostas centrais da política de tecnologia do governo federal.
Esta é a sétima edição da TIC Governo, conduzida pelo Cetic.br, departamento do NIC.br. A coleta foi feita por telefone entre julho de 2025 e abril de 2026, com 576 órgãos públicos federais e estaduais e 3.253 prefeituras.