TikTok: como a IA será usada para combater desinformação e deepfakes nas eleições de 2026 (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 30 de julho de 2026 às 16h47.
Última atualização em 30 de julho de 2026 às 16h51.
Acontece em outubro a primeira eleição presidencial do Brasil na era da inteligência artificial (IA). A 66 dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, as plataformas digitais chegam ao pleito sob regras que não existiam em 2022, e com um problema de escala que nenhuma equipe humana resolve. O TikTok adotou a resposta mais literal possível ao usar a IA para combater a IA.
A cada minuto, são publicados 66 mil vídeos na plataforma. Revisar esse volume manualmente é matematicamente impossível, e a saída encontrada pela empresa foi treinar a máquina para vigiar a própria máquina.
"Ter regras não é o suficiente. A gente precisa conseguir aplicá-las em escala. Para isso, usamos modelos de IA que nos dão agilidade para endereçar o conteúdo da plataforma. No 1º trimestre deste ano, 96% das remoções foram automatizadas", afirma Gustavo Rodrigues, gerente de políticas públicas da plataforma de vídeos do TikTok. "Do lado humano, globalmente, trabalhamos com mais de 20 organizações de checagem de fatos."
No primeiro trimestre deste ano, 99,3% dos conteúdos que violaram as regras eleitorais foram removidos antes de qualquer denúncia. O mesmo percentual vale para as violações das políticas de IA.
Globalmente, a plataforma retirou 101 mil vídeos de desinformação política, com 99,4% detectados de forma proativa e mais de 70% removidos antes de receberem uma única visualização.
Outras 45 mil tentativas de veicular anúncios políticos foram bloqueadas. Uma equipe dedicada a operações secretas de influência desmontou mais de 40 redes coordenadas, com a remoção de cerca de 20 mil contas.
As regras partem da premissa de que dinheiro e política não se misturam dentro do aplicativo.
Anúncios políticos são proibidos. Contas de governo, político ou partido não podem ser impulsionadas nem monetizadas, independentemente do teor do que publicam.
O conteúdo político também não pode ser impulsionado por usuários comuns. A exceção é para autoridades eleitorais, que podem impulsionar material educativo.
Geração Z troca médicos pelo TikTok — e a ansiedade disparaSobre conteúdo gerado por IA, a política da plataforma tem três camadas. A primeira é a rotulagem obrigatória. A segunda é a proibição de conteúdo manipulado capaz de enganar. A terceira é o veto absoluto em cenários específicos , usar a imagem de pessoa privada sem consentimento, publicar vídeos falsos de endossos que figuras públicas não fizeram e simular telejornais.
Há ainda uma zona cinzenta que a empresa reconhece: contas que produzem conteúdo sintético de baixa qualidade em massa, o chamado AI slop, podem não violar diretriz nenhuma e ainda assim corroer a confiança de quem usa a plataforma.
A companhia lançou a Central de Eleições, interface que reúne informação oficial sobre o pleito.
"Direcionamos o usuário para essa interface tanto por meio da busca quanto de etiquetas que têm relação com as eleições", diz Mônica Guise, diretora de políticas públicas do TikTok no Brasil.
A próxima etapa prevê vídeos produzidos com organizações parceiras para ensinar o usuário a reconhecer conteúdo falso.
"Queremos proteger a integridade da plataforma sem perder a essência do TikTok, que é um espaço para a criatividade e entretenimento. É sobre esse equilíbrio entre liberdade de expressão e garantia da integridade do app", afirma.
O modelo é padronizado, não sob medida. Nos Estados Unidos, a empresa montou uma central em parceria com a organização Democracy Works, com informações de voto para os 50 estados.
Na União Europeia, foram 27 centrais em 24 idiomas, acessadas 7,5 milhões de vezes nas quatro semanas anteriores à votação, somadas a uma sala de monitoramento 24 horas em Dublin.
Nesta quinta-feira, 30, a plataforma divulgou os números de Israel, que vai às urnas em 27 de outubro — três semanas depois do Brasil. Por lá, foram 551 mil vídeos removidos apenas no primeiro trimestre, dos quais 3% por violação das políticas de integridade e autenticidade.
A empresa montou uma força-tarefa eleitoral local e trabalha com o Comitê Central de Eleições israelense e com a Reuters como parceira de checagem.
Funcionou? A resposta depende de quem mede. Pelos números da própria plataforma, sim. Segundo o TikTok, 97% dos vídeos que violaram políticas de desinformação foram removidos proativamente no primeiro semestre de 2024.
Mas um teste independente da Global Witness, às vésperas da eleição americana, submeteu anúncios com desinformação eleitoral à aprovação da plataforma. Metade passou. O YouTube, no mesmo teste, barrou todos.
A empresa não detalha como conduz suas investigações nem quais sinais alimentam os modelos de detecção — argumenta que abrir a metodologia entregaria o mapa a quem tenta burlá-la.
O Brasil chega a 2026 com regra específica, o que não tinha em 2022.
O núcleo está no artigo 9º-B da Resolução 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com a redação dada pela Resolução 23.755/2026 — parte de um pacote de 14 resoluções.
A norma não proíbe IA na campanha. Impõe transparência: toda propaganda criada ou significativamente alterada por IA deve informar isso de modo explícito, destacado e acessível.
O que está vedado:
A propaganda eleitoral só está liberada a partir de 16 de agosto.
Na terça-feira, 28, o TSE formalizou acordo de cooperação técnica com Meta, Google Brasil, TikTok, X, Telegram, Kwai e LinkedIn, além das desenvolvedoras de IA OpenAI e Anthropic.
O acerto prevê monitoramento de deepfakes, canais de remoção rápida e fiscalização até 31 de dezembro, sem repasse de recursos públicos. Mais de 155 milhões de eleitores estão aptos a votar.
A regra que vale agora foi escrita a partir de um vídeo publicado no próprio TikTok.
Na disputa municipal de Fortaleza, em 2024, o então candidato Evandro Leitão (PT) postou em seu perfil na plataforma peças geradas por IA em que Barack Obama, Taylor Swift, Tom Cruise e Cristiano Ronaldo apareciam endossando sua candidatura, com a frase "Closed with Leitão" — trocadilho em inglês com "fechados com Leitão".
A escolha das celebridades não foi acidental. Swift havia se tornado, meses antes, o caso-teste global de manipulação sintética: em janeiro daquele ano, imagens sexuais falsas da cantora circularam no X, uma delas vista 47 milhões de vezes, e em agosto Donald Trump publicou imagens geradas por IA simulando um endosso dela à sua candidatura.
O que deepfakes de Obama e Taylor Swift têm a ver com vídeo de IA de Bolsonaro exibido por FlávioLeitão venceu a eleição. O caso foi para a Justiça Eleitoral, que aplicou multa de R$ 15.000. A campanha recorreu, e em maio deste ano o TSE restabeleceu a punição.
O acórdão, relatado pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, fixou o entendimento que agora vale para 2026: a adulteração de conteúdo digital com finalidade eleitoral basta para caracterizar a irregularidade, independentemente de comprovação de que teria potencial para induzir o eleitor a erro. Nem o tom jocoso nem a implausibilidade evidente — Cristiano Ronaldo não faz campanha em Fortaleza — servem de defesa.
É esse precedente que o ministro Alexandre de Moraes citou na terça-feira, 28, ao dar 48 horas para que os advogados de Jair Bolsonaro informem se o ex-presidente autorizou o vídeo exibido na convenção que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
Na peça, de 46 segundos, um avatar gerado por IA pede aos presentes que recebam o filho como seu substituto — e avisa, na abertura, que não é real. Especialistas ouvidos pela EXAME divergem sobre o enquadramento do caso.
A propaganda eleitoral oficial começa em 16 de agosto. A partir de 1º de outubro, nenhum conteúdo sintético novo poderá ser veiculado. A votação é em 4 de outubro, com segundo turno marcado para o dia 25. Até lá, cerca de 6,3 bilhões de vídeos serão publicados no TikTok.