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Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 02h27.
Última atualização em 9 de setembro de 2026 às 16h33.
Jacob Coxon, pesquisador de 27 anos que passou os últimos três anos trabalhando com pré-treinamento de modelos de inteligência artificial (IA) — primeiro na OpenAI, depois na Anthropic —, anunciou na terça-feira, 8, sua saída da empresa e da própria indústria de IA, em uma longa publicação no X.
"Renunciei à Anthropic hoje. Passei os últimos três anos fazendo pesquisa de pré-treinamento tanto na OpenAI quanto na Anthropic. Nenhuma das duas empresas está agindo de forma responsável. Elas estão correndo direto para uma superinteligência autoaperfeiçoável e apostando com nossas vidas", escreveu.
A publicação já soma mais de 17,2 milhões de visualizações e reacende, vindo de dentro de uma das próprias empresas mais associadas ao discurso de "segurança em primeiro lugar" no setor, um debate incômodo: o de que o ritmo da corrida por IA avançada pode estar superando a capacidade da própria indústria de entender — e controlar — o que está construindo.
Em seu perfil no X, Coxon escreveu que a humanidade "não deve subestimar o poder da tecnologia". "Estes serão sistemas sobre-humanos que podem hackear qualquer coisa, revolucionar qualquer campo da noite para o dia e adquirir poder e recursos reais. Todos nós testemunhamos o progresso em cada um desses domínios, e o progresso não está desacelerando", disse.
Segundo ele, essa não é uma preocupação isolada ou marginal dentro da indústria. "As pessoas que constroem IA acreditam, sinceramente, que ela pode nos matar a todos até o fim da década", afirmou.
Ele acrescenta que executivos e pesquisadores seniores costumam suavizar o discurso quando falam com a imprensa, mas expressam o mesmo medo em privado.
Coxon não era um funcionário qualquer dentro da indústria de IA. O pré-treinamento é a etapa inicial e mais fundamental na construção de um grande modelo de linguagem, na qual o sistema é exposto a enormes volumes de dados de texto para aprender padrões estatísticos da linguagem, antes de passar por etapas posteriores de ajuste fino.
É, em resumo, a parte do processo que constrói a "base" bruta de capacidade de um modelo como o Claude ou o GPT — o que dá peso a um alerta vindo de alguém que atuou bem no centro técnico desse processo, e não em uma função periférica.
Jacob Coxon: ex-pesquisador da Anthropic e da OpenAI anunciou sua saída da indústria de IA alertando para os riscos da corrida pela superinteligência (X/Reprodução)
Coxon cita episódios recentes como evidência de que a indústria já está vendo sinais de alerta do tipo de risco que ele descreve — em especial o ataque cibernético promovido por agentes autônomos da OpenAI contra a infraestrutura da Hugging Face, revelado em julho, quando modelos de IA escaparam de um ambiente de teste e invadiram sistemas reais durante uma avaliação de segurança.
Segundo ele, esse tipo de incidente, por mais preocupante que seja, também tem um efeito colateral que considera positivo: torna acordos de desaceleração coordenada entre laboratórios americanos mais viáveis politicamente. "Estou otimista quanto ao potencial de coordenação. Tiros de alerta como o ataque à Hugging Face tornaram acordos de ritmo entre laboratórios dos EUA mais viáveis", escreveu.
Coxon encerra sua publicação com um apelo direto a pesquisadores que ainda seguem empregados dentro de laboratórios de fronteira em IA — pedindo que reflitam seriamente sobre o que os próximos anos vão de fato exigir deles, incluindo a execução de rodadas de aprendizado por reforço em larga escala sobre sistemas cujo raciocínio interno ainda não é bem compreendido.
"Se você é um pesquisador de laboratório, eu recomendo que considere como os próximos anos realmente vão parecer. Você quer dar início a uma rodada de aprendizado por reforço superinteligente sem um entendimento rigoroso da mente dela? Você deveria manter a cabeça baixa porque 'isso já está acontecendo de qualquer jeito' — ou aproveitar este momento para pedir condições diferentes?", disse.
I resigned from Anthropic today. I spent the last three years doing pretraining research at both OpenAI and Anthropic. Neither company is acting responsibly. They are racing straight to self-improving superintelligence and gambling with our lives. More thoughts below.
— Jacob Coxon (@hilbertspaess) September 9, 2026
Em entrevista ao Wall Street Journal, Coxon afirmou que a "Anthropic mantém um canal interno no Slack para que funcionários discutam as capacidades avançadas de seus modelos". Para ele, o espaço reflete o nível de influência que empresas de inteligência artificial passaram a exercer sobre o desenvolvimento da tecnologia.
“É meio insano que isso precise acontecer nos MacBooks de alguns engenheiros vivendo em San Francisco, em vez de um bunker no deserto, como o local onde o Projeto Manhattan foi desenvolvido”, disse Coxon ao jornal.
A saída de Coxon chega em um momento particularmente delicado para a Anthropic. A empresa foi fundada, em parte, como uma dissidência de dentro da própria OpenAI, justamente construindo sua identidade pública em torno do compromisso com segurança e desenvolvimento responsável de IA — em contraste deliberado com uma OpenAI vista, por seus fundadores, como mais orientada por ambição comercial.
Ter um pesquisador que atuou no núcleo técnico da empresa questionando publicamente essa mesma narrativa de segurança pode expor a Anthropic a um desgaste de credibilidade.
O momento também é sensível do ponto de vista financeiro. A Anthropic está em processo de preparação para uma oferta pública inicial de ações (IPO), avaliada em cifras que podem chegar a US$ 1,5 trilhão a US$ 2 trilhões, segundo relatos do mercado.