Bessent: Saída de fundo dinamarquês não afeta mercado americano (BRENDAN SMIALOWSKI/AFP)
Redação Exame
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 11h54.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, minimizou nesta quarta-feira (21) o impacto de eventuais movimentos de investidores europeus no mercado de títulos da dívida americana, em meio à escalada de tensões diplomáticas entre Washington e a Europa envolvendo a Groenlândia. Em conversa com jornalistas durante o Fórum Econômico Mundial, na Suíça, Bessent classificou como irrelevante a decisão de um fundo de pensão dinamarquês de reduzir sua exposição aos Treasuries.
A declaração veio após um dia de forte aversão a risco nos mercados globais. Na terça-feira, ações e títulos americanos recuaram, enquanto os rendimentos dos papéis do Tesouro subiram, em um movimento associado ao aumento das incertezas geopolíticas.
O estresse foi alimentado pelas ameaças do presidente Donald Trump de impor tarifas de 10% a produtos de oito países europeus a partir de 1º de fevereiro, com previsão de elevação para 25% posteriormente. A medida faz parte da estratégia do republicano de pressionar aliados em sua ofensiva para incorporar a Groenlândia aos Estados Unidos.
Nesse contexto, investidores passaram a discutir se a Europa poderia usar sua posição relevante em ativos americanos como instrumento de retaliação. Países europeus detêm cerca de US$ 8 trilhões em ações e títulos dos EUA, segundo estimativas de mercado.
Um dos primeiros sinais concretos veio da Dinamarca: a gestora de previdência AkademikerPension anunciou a venda de aproximadamente US$ 100 milhões em títulos do Tesouro americano, alegando preocupação com a situação fiscal dos Estados Unidos.
Bessent, no entanto, descartou qualquer risco sistêmico. Segundo ele, o volume vendido é pequeno e não altera o quadro geral. O secretário afirmou ainda que o país tem registrado níveis recordes de investimento estrangeiro em sua dívida pública e disse não ver motivo para alarme. Para ele, parte da volatilidade recente também reflete fatores externos, como a venda de títulos no Japão após o anúncio de eleições antecipadas, movimento que teria contaminado outros mercados.
O chefe do Tesouro americano também rebateu análises que apontavam para uma possível liquidação mais ampla de ativos dos EUA por investidores europeus. Ele atribuiu essa narrativa a um relatório assinado por um analista do Deutsche Bank, que ganhou repercussão internacional.
De acordo com Bessent, o próprio presidente-executivo do banco alemão entrou em contato para dizer que a instituição não endossa o conteúdo do estudo. Procurado pela CNBC, o Deutsche Bank afirmou que suas áreas de pesquisa atuam de forma independente e que as opiniões expressas em relatórios não necessariamente refletem a visão da administração.
Além da disputa financeira, o pano de fundo do embate é estratégico. O governo americano passou a tratar a Groenlândia como um ativo-chave de segurança nacional, especialmente diante do aquecimento do Ártico e da abertura de novas rotas comerciais, que ampliam a competição entre Estados Unidos, Rússia e China. Segundo Bessent, Washington busca evitar que essa região se torne palco de um conflito maior e defende que o território seja integrado aos EUA.
As declarações provocaram reação dura das autoridades locais. A ministra de Negócios da Groenlândia afirmou que a população está perplexa com a postura americana e classificou como devastadora a ideia de anexação. Segundo ela, o território sempre se considerou aliado dos Estados Unidos e cooperou com demandas estratégicas ao longo dos anos, mas vê com preocupação ameaças que incluem até o uso de força militar.
Lideranças políticas locais reiteraram que a Groenlândia está aberta a investimentos e parcerias, mas não está à venda.
Bessent, por sua vez, recorreu a precedentes históricos para sustentar o argumento americano, citando a compra das Ilhas Virgens pelos EUA da Dinamarca durante a Primeira Guerra Mundial. Ele afirmou que Trump deixou claro que não pretende delegar a segurança nacional ou hemisférica a outros países e indicou frustrações inclusive com aliados tradicionais, como o Reino Unido, em disputas envolvendo bases militares estratégicas.
Ao final, o secretário do Tesouro aconselhou os europeus a evitarem reações precipitadas. Para ele, o momento exige cautela e paciência. A recomendação foi que líderes do continente aguardem e ouçam diretamente os argumentos de Trump, na avaliação de que, uma vez apresentados, podem acabar convencidos da posição americana.