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Mulheres e criptoativos: a importância da figura feminina para o setor

Atuando em diversas áreas, mulheres desempenham um papel cada vez mais importante na transformação do mercado das criptomoedas, blockchain, NFTs e jogos play-to-earn

Especialistas e CEOs mulheres debatem a igualdade de gênero no universo das criptos (dowell/Getty Images)

Especialistas e CEOs mulheres debatem a igualdade de gênero no universo das criptos (dowell/Getty Images)

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Mariana Maria Silva

9 de março de 2022, 10h42

Nesta terça-feira, 8, é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Ainda incipiente, o universo das criptomoedas passou por muitas mudanças nessas 14 vezes em que esta data foi comemorada desde a criação do bitcoin, a primeira criptomoeda, em 2009.

Atualmente, as mulheres desempenham um papel cada vez maior neste cenário, ainda dominado por homens. Um estudo da BlockFi, realizado em 28 de janeiro com 1.031 mulheres americanas entre 18 e 65 anos, revelou que 92% delas já ouviu falar sobre as criptomoedas. Inclusive, 24% já investe em alguma, e outras 60% afirmaram ter a intenção de investir no setor nos próximos meses.

Para elas, o investimento é de longo prazo: 70% das entrevistadas que já investem em criptomoedas, compraram o ativo e nunca o venderam. O avanço das mulheres é perceptível no estudo ao revelar que quase 45% delas sabe como investir, em comparação aos cerca de 23% do semestre anterior à pesquisa.

No entanto, segundo o Global Gender Gap Report de 2021, a lacuna entre homens e mulheres na indústria de criptomoedas e blockchain ainda pode demorar 135,6 anos para ser preenchida. Quando o quesito é a participação econômica e oportunidades, o Brasil ficou na 89ª posição, atrás de países subdesenvolvidos como Mongólia, Vietnã e Nigéria. El Salvador, o país da América Central que surpreende por seus esforços envolvendo a adoção do bitcoin como moeda de curso legal, ficou em 106°.

Colaborando, dia após dia, para a evolução do setor cripto em tudo que a palavra envolve, incluindo a igualdade, estão mulheres brasileiras que atuam na linha de frente da indústria. Taynaah Reis é CEO da Moeda Semente, primeira Techfin a usar o blockchain para alcançar objetivos de desenvolvimento sustentável para o Brasil e o mundo. A empresa utiliza a tecnologia para oferecer serviços de banco digital, pagamento e microcrédito que visam humanizar as finanças e distribuir impacto social.

Para Taynaah, “o trabalho árduo e lento de mudar normas e atitudes, reduzir preconceitos e desigualdades, pode ser mitigado pela tecnologia blockchain” e suas características descentralizadas. A empresária explica que a tecnologia “tem o potencial de promover uma maior inclusão financeira, desbloquear a participação econômica e democratizar os serviços financeiros de uma maneira sem precedentes”, e por isso “pode ajudar as mulheres empreendedoras a comprovar a propriedade dos ativos da empresa, verificar os valores de produção, estabelecer uma identidade digital e pode servir como forma de garantia e aumentar seu acesso a capital”.

“Ao usar blockchain para criar um sistema financeiro mais acessível e aberto, podemos capacitar as pessoas, especialmente aquelas deixadas de fora ou mal atendidas pela infraestrutura atual”, complementa Taynaah.

Especializada em blockchain pela PUC e o Massachussets Institute of Technology (MIT), Thamilla Talarico é advogada e debate a regulação dos criptoativos no quadro Panorama Regulatório”, do Future of Money. Por meio dele, elucidou questões extremamente relevantes ao cenário regulatório brasileiro e levou o debate ao Banco Central, que atualmente desenvolve o Real Digital.

Apesar de ainda não enxergar uma maioria feminina no mercado, Thamilla destaca a existência de mulheres “empreendedoras e pesquisadoras construindo teses e soluções inovadoras a respeito de criptoativos e das aplicações da tecnologia blockchain em geral”, que podem servir como exemplo no Brasil e no mundo. Segundo ela, suas maiores referências e inspirações no tema são mulheres.

“Minhas maiores referências de autoras e pensadoras desse mercado são femininas, dentre elas destaco Primavera de Filippi, autora de Blockchain and the Law, Camila Russo, autora de The Infinite Machine, Hester Pierce, da SEC que ganhou o apelido de ‘Crypto Mom’ e Caitlin Long, ex-senadora de Wyoming e CEO do Custodia Bank”, afirmou Thamilla.

E nem só de criptomoedas vivem as mulheres do universo cripto. Com o boom dos NFTs nos últimos anos, duas mulheres tomaram para si a responsabilidade de expandir o setor no Brasil. Caroline Nunes é advogada e mestre em propriedade intelectual pela University of Southern California, e em 2020, resolveu criar a InspireIP.

A plataforma de NFTs é focada em propriedade intelectual e tem o objetivo de facilitar o registro de marcas, direitos autorais e patentes utilizando a tecnologia blockchain, tema que atualmente é muito discutido entre os investidores de tokens não fungíveis.

“Conheci a tecnologia blockchain primeiro do que eu conheci as criptomoedas. Foi amor à primeira vista. Toda filosofia por trás da tecnologia fez com que eu ficasse cada vez mais imersa em seu funcionamento”, contou Caroline sobre sua trajetória no universo cripto, na qual admite ter pouca participação feminina. “Na época em que iniciei meus estudos não tinha tanta noção, mas hoje eu noto que este universo possui poucas mulheres. Em cada dez pessoas que eu converso, nove são homens”.

Caroline conta que já foi “aconselhada” a ter um homem forte ao seu lado, enquanto trilhava o caminho para CEO. “Hoje eu sou uma mulher forte ao lado dos homens no meio de cripto", afirmou, se demonstrando otimista quando ao futuro das mulheres nas criptomoedas e NFTs: “Eu sinto que com a popularização das criptos, o cenário está começando a mudar. As poucas [mulheres] que eu conheço são unidas, o que fortalece nossa voz no meio”.

Heloísa Passos, CEO da Sp4ce Games, acredita que, cada vez mais, as mulheres vão ingressar no mercado cripto e se destacar. Segundo ela, essas mulheres já existem, mas algumas preferiam “não se expor tanto” em um ambiente dominado por homens. No entanto, Heloísa agora enxerga um movimento de abertura da comunidade, que está se tornando mais receptiva à diversidade.

Dona do maior grupo de Axie Infinity do Brasil, o foco de Heloísa são os blockchain games. “Entrei em 2017 neste universo e virou profissão na pandemia de covid-19, quando eu vivia pelos blockchain games e passei a criar a comunidade, facilitando a vida das pessoas dentro desta cadeia tecnológica”, disse Heloísa.

Axie Infinity é um dos principais jogos onde é possível ganhar recompensas em criptomoedas, e ganhou popularidade durante a pandemia. No entanto, para jogar, é necessária a compra de três “Axies”, ou seja, os NFTs de personagens do jogo. Podendo chegar a valores altos, formaram-se grupos que promovem o financiamento de “bolsas” para novos jogadores, os quais posteriormente compartilham parte da renda com o grupo.

A partir do sucesso do grupo, Heloísa decidiu ir além e fundar a Sp4ce, desenvolvedora de jogos cuja principal premissa é a igualdade de oportunidades. A startup pretende trazer para o Brasil e para o mundo a estrutura necessária para que cada vez mais pessoas tenham acesso à tecnologia blockchain para jogos, e assim, possam se beneficiar de suas inúmeras vantagens.

Outros grandes players do mercado de NFTs realizaram, neste 8 de março, movimentos em favor da igualdade de gênero, demonstrando a abertura do setor e todo o seu potencial. Um dos maiores destaques foi a coleção de NFTs World of Women, que anunciou parcerias milionárias com a revista Billboard e The Sandbox, conhecido mundialmente por ser a casa de celebridades e grandes marcas no metaverso. Ao todo, serão US$ 25 milhões para o oferecimento de cursos e programas de aceleração.

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